Y A N
É meu último dia preso neste lugar e Augusto vai lá pra casa hoje. Nunca achei que um domingo pudesse ser tão bom.
Já no ônibus, por volta das três horas da tarde, o pessoal se reúne no fundo do veículo, cantando e zoando, e eu prefiro permanecer na frente, nos primeiros bancos, com fones de ouvido no volume máximo, mesmo que ainda assim sejam incapazes de disputar com as vozes e os pandeiros dos jovens. Pra você ter uma ideia, eu consigo distinguir quem está cantando lá fora, mesmo com os fones. Até chego a ouvir a voz de Larissa vez ou outra.
Ainda sim, tento escrever alguma coisa no meio dessa confusão toda, com meu caderno apoiado em minhas pernas.
"Seu antissocial" Alecs se senta na poltrona ao meu lado, e dá um tapinha na minha coxa "Por que me deu um bolo ontem?"
"Eu estava realmente cansado", digo, tirando um dos fones de ouvido. O barulho aumenta.
"E aí, pensou no que eu te disse? Sobre a banda?" ele me pergunta.
"Cara..."
"Que tipo de som você gostaria de fazer? Quer dizer, eu não faço ideia do que você escuta. O Marlon tá muito animado. E não seria nada gospel não, sabe?" ele diz a última frase mais baixo, e eu quase não escuto por conta das músicas. "Não sei se você concordaria com isso."
"A gente pode ver isso nos próximos dias, pode ser?" falo, e ele sorri, bem satisfeito.
"Agora deixa de craquelagem e vambora pra lá cantar. Todo mundo já sabe que você canta bem, não esconde o jogo. Ou você acha que vai cantar sua música autoral no casamento do seu irmão com uma peruca na cara, tipo a Sia?"
A notícia se espalhou rápido. Obrigado, irmão. Muito obrigado.
E, tá, ele escuta Sia?
Mas eu não quero pensar em mais nada agora. O Yan cantor e compositor secreto não tem uma vida tão difícil quanto a do Yan gay dentro do armário. É ele quem está aqui agora, inquieto dentro desse ônibus barulhento, pensando na chegada. Ele nunca quis tanto estar em casa.
S A M U E L
E eu ainda nem visualizei as quinze mensagens de Bruno, de ontem à noite.
Mas pela prévia já vi que são pedidos de desculpas. Desculpas que ele não me deve, sinceramente. Mas o Bruno é uma pessoa boa demais. E é por isso que não estamos juntos.
Meu pai ainda não voltou pra casa, e minha mãe ainda não conseguiu levantar da cama. Tá todo mundo m*l.
Clara também me enviou umas mensagens pedindo desculpas pelo descaso de ontem (e dos últimos dias), e essas eu fiz questão de visualizar e não responder. Depois eu me resolvo com ela.
Preciso tirar minha mãe da cama. Já passa de uma da tarde e eu estou morrendo de fome. Não tem nada pronto, então o jeito é tirar aquela mulher do quarto e levá-la para algum restaurante.
Acho que ela sabe onde ele está, mas não quer que eu fuja atrás dele mais uma vez. Estou com raiva dela. E com pena. E estou com raiva de mim mesmo por ter feito tudo aquilo ontem por causa do Bruno. Minha mãe não merecia mais estresse.
Mas ainda assim, estou com raiva dela. Por que ninguém quer me contar o que está acontecendo. Mesmo que pareça muito óbvio, eu preciso ouvir deles. Quero que eles me falem.
Bato na porta do quarto dela umas cinquenta vezes, até que finalmente ela abre a porta. O black da mulher está destruído.
- Mãe, que cabelo é esse, mulher? - falo, e aí ela faz cara de choro.
- Estou com fome - responde, e eu suspiro, aliviado, mas não quero fazer parecer com que o meu estômago roncando seja mais importante do que ela. Mas ele ronca tão alto que a Amy Adams traduziria como um SIIIIIIIM naquele filme, A Chegada - Pelo jeito não sou a única - ela diz, e eu a abraço.
- Você sabe onde ele tá?
- Sei. Na casa de um amigo lá do escritório. Disse que volta hoje.
- E quando você vai me falar o que está acontecendo? - falo quando saímos do abraço. Limpo as lágrimas dela. - Quer dizer, eu já entendi que vocês estão super m*l, mas...
- Acho que dessa vez não vai ter jeito - ela diz, virando de costas, olhando para a porta do armário, que é toda feita de espelhos - Vou pedir o divórcio.
E eu não sei o que dizer. Ela tenta arrumar o cabelo da melhor forma possível, mas continua h******l. E eu estou morrendo de vontade de chorar também.
Não temos ânimos para sair de casa.
Eu peço um ifood, e nós comemos assistindo ao final de Um Lugar Chamado Notting Hill, interrompido pela confusão de ontem.
Eu meio que conto sobre o que aconteceu. Sobre o Bruno. Eu tento, pelo menos. Ela diz a verdade que eu precisava ouvir, algo que Clara provavelmente diria, mas agora ela não está aqui (um sentimento quase fúnebre) para dizer isso.
- Mas você não dispensou o menino? Ele só seguiu em frente, ué - ela diz, como se eu fosse um adolescente i****a.
Talvez eu seja.
- Você está se doendo pelo fato dele estar com alguém, ou por esse alguém ser uma garota? - e isso eu ouço da minha própria cabeça, mas com uma voz estranha, uma mistura da minha com a da Clara. E aí eu ouço a minha amiga dizer:
- E ele sabe que você é bifóbico?
- Tá rindo do quê? - minha mãe pergunta enquanto põe um sushi pra dentro.
- Eu acho que eu gosto dele - falo, mais pra mim do que pra ela - De verdade.
Estranho falar isso pra ela. Estranho ter a sua mãe como sua amiga, a pessoa que você fala sobre o crush. Eu sempre tive Clara, né? Então eu nunca precisei falar essas coisas idiotas pra minha mãe, mas... aposto que muitos garotos como eu adorariam ter isso.
Eu sou um adolescente i****a, dramático e ingrato.
É por isso que Bruno e eu não estamos juntos.
- Desculpa por não te contar as coisas sempre - falo, dessa vez um pouco mais alto, e ela ouve bem.
- Tudo bem - ela diz, e agora a Julia Roberts está naquela coletiva de imprensa do final do filme, e o boy dela está chegando em cena - Eu já fui adolescente. Você pensa que me engana, mas só pensa - ela pisca, e sorri. O sorriso dela é lindo.
Estou me sentindo muito m*l por tudo. Pelos meus pais, pela pessoa que eu tenho sido, por tudo que fiz e que deixei de fazer. Por um momento, até Tomás passa pela minha cabeça. E aí abro a conversa de Bruno, e são muitas mensagens. E ele é tão fofo que eu fico com raiva de mim.
Olho para a porta da sala. Imagino meu pai entrando a qualquer momento e o meu punho se fechando, doido pra acertar a cara dele. Mas ele é meu pai. Ele é meu pai e eu não sei o que está acontecendo.
Na tela, Thacker finalmente toma uma atitude e fala com Julia Roberts. E minha mãe está emocionadíssima.
O filme acaba, e eu não consigo parar de pensar nele.
Vou até o meu quarto e pego o "Quando é você e eu", de Bruno Silva. Eu ainda dou um sorriso com o casal hétero da capa, mas eu viro a primeira página, passando pela dedicatória fofa que ele fez pra mim, depois de quase dois meses do dia em que ele me dera. E eu leio, leio e leio.
Eu não posso ficar sem esse garoto.
Respiro fundo e respondo às mensagens de Bruno. Na última, faço questão de deixar bem claro.
Eu realmente gosto de você.
E fui um i****a.
E Sinto sua falta.
G A B R I E L
Almoço de domingo em família.
Henrique e suas irmãs chatas estão à mesa, junto com minha tia, minha mãe, meu pai e minha pequena irmã, sempre com Kátia ao seu lado.
Tento fingir estar dentro do assunto durante o almoço enquanto divido a atenção na troca de mensagens entre Laura, Samuel e Augusto pelo celular, sempre escondido. Henrique está ao meu lado direito, e como não há ninguém do lado esquerdo, estou seguro. "Seguro", bem entre aspas, na verdade, porque ele também não pode ler minhas mensagens, muito menos o meu plano de fundo do celular.
— A festa foi ótima — uma das irmãs comentam.
— Estava tudo maravilhoso — minha tia diz.
E eu sorrio, mas estou triste, pensando em Augusto e sua decisão em sair da casa de Guilherme. Também estou magoado com ele, porque eu disse a verdade, que ir pra casa do Yan tiraria toda a liberdade que ele tá tendo agora, liberdade que está fazendo bem para ele, mas Augusto simplesmente jogou o fato de ter deixado de ser ele mesmo para vir até aqui, na minha casa, na minha festa. Disse que está cansado de deixar ser ele mesmo por outras pessoas, por qualquer pessoa.
E disse que sabe o que é melhor pra ele. Como se eu realmente quisesse tudo de r**m pro meu namorado, claro.
E eu não acho isso justo. Porque não é culpa minha tudo isso. Ele deveria me entender mais do que qualquer pessoa nesse mundo.
Mas não.
— Tá tudo bem? — Henrique pergunta, de repente, e eu devo estar com uma cara realmente péssima.
Eu faço que sim com a cabeça, mas no celular eu digito: "Eu te trouxe aqui na primeira oportunidade que tive. E eu não te pedi nada naquele dia. Nada. Eu não escolhi essa m***a de vida, essa m***a de pai, então, por favor? Isso não é justo. Eu queria você aqui, na minha festa. E isso tinha um custo. E você concordou. E eu me arrisquei pra tirar uma m***a de foto só com você. E me arrisquei te levando pra m***a do meu quarto. E é isso que você faz agora. Você tá sendo um i****a só porque ficou um dia sem pintar a m***a da unha, sendo que você passou a vida inteira não pintando a m***a da unha.
Você era como eu há um mês, Augusto. A vida toda. Não venha se achar melhor agora."
Ele visualiza.
Continua online...
Permanece online...
E não me responde.
Levanto da mesa e digo que vou ao banheiro. Eu me tranco, vou até o espelho e choro. Ligo para Laura, conto tudo. Ela diz que estou certo. Estou? Mas ela continua insistindo que sim, que estou certo. Eu respiro fundo, tento me acalmar. Ela está tentando me acalmar. Tudo que eu consigo pensar é que o Augusto leu aquela d***a de mensagem e caiu pra cima do Guilherme. Afinal, as irmãs do Henrique viram, não viram? Eles se... cariciando. Eu tenho certeza. Elas são babacas, mas não teriam como inventar aquilo. Elas não conhecem os meninos. Não faziam ideia.
O meu lado ciumento está atacando. E Augusto não me responde, mas Samuel sim, e tudo que eu digo é: "Eu também sou um adolescente i****a" e dessa vez é ele quem diz "O que houve?".
Ele me liga, e enquanto eu conto tudo, paro pra pensar se ele já não sabe de tudo. Porque ele e o Augusto são amiguinhos agora, não são?
Eu não quero perder Augusto. Mas ele vai me deixar.
Ele vai me deixar.
Limpo as lágrimas e volto pra mesa. Meus olhos ainda estão meio vermelhos, mas não tem jeito.
Quando eu volto pra mesa com o celular desligado, tentando fugir dos problemas, tudo parece piorar. Hoje não é o meu dia.
— Tinham dois gays na festa — ouço as irmãs dizerem, e quando me sento, todos olham pra mim.
— Como assim? Nossa família não anda com esse tipo de gente. Né, filho? — meu pai olha pra mim. Como eles chegaram nessa m***a de assunto?
— Elas acham que viram dois garotos gays na festa. Elas cismaram com isso — Henrique intervém, e eu sorrio discretamente para ele.
— Não faço ideia de quem ela tá falando — digo, e então olho para minha mãe, que escolheu fingir que não está ouvindo nada, bebericando sua taça de vinho.
— Eles estavam quase de mãos dadas — uma diz.
— Na verdade um estava acariciando a mão do outro — a outra completa.
— Eu ainda não entendi a parte da coisa gay. Vocês viram eles se beijando? — digo em certo tom de deboche. Tento manter a calma.
— Eram seus amigos — a mais nova diz — Daqueles que você tirou foto na mesa.
— Vocês se confundiram total — falo, e meu pai está olhando sério para mim.
— Pensando bem, eu achei um dos seus amigos meio estranho, sim — ele diz — Mas isso é uma acusação muito séria para sair falando sem saber de fato, meninas.
— Ninguém tem nada a ver com a vida particular de ninguém — Henrique fala, e eu acho que todo mundo fica meio chocado.
— Se entra na minha casa e come da minha comida, eu tenho tudo a ver com a vida particular da pessoa — meu pai diz. Olho para Kátia, que só me olha de lado. A minha tia olha f**o para o filho.
— Desculpa interromper, mas alguém já deseja a sobremesa? — Kátia se levanta da cadeira, sorrindo para o meu pai, que faz que sim com a cabeça.
O clima tenso evapora.
Henrique me sussurra um pedido de desculpas pelas irmãs dele, o que me faz enviar uma mensagem para Laura sobre o quanto ele é fofo.
Quando saio da conversa com ele, vejo que Augusto está digitando uma resposta. Digitando...
Digitando...
Digitando...
A U G U S T O
não vai dar certo.
guilherme estava certo. depois de pensar um dia inteiro, digitar, apagar, digitar, apagar, agora, com as malas prontas, respondo isso a ele. não vai dar certo.
estou abraçando os pais de guilherme, pedindo mil vezes obrigado por tudo, e chorando, chorando por tudo ao mesmo tempo.
choro por medo do futuro.
choro de raiva da minha mãe, que me abandonou.
choro por gabriel, que também deve estar chorando agora.
e choro ainda mais agora, abraçando guilherme, e eu juro que quase o beijo. o mesmo beijo que senti vontade ontem, olhando para ele através do espelho. os pais dele ficariam confusos.
alguns fios do cabelo grande dele acabam grudando na minha boca, molhada por minha lágrimas. ele pega um maço de cigarros da bermuda e o coloca em um dos bolsos da frente da minha calça. nós rimos, e de repente já estamos dentro do carro. tudo está passando tão rápido, e eu estou perdendo tudo tão rápido...
ele me liga, mas eu não consigo atender. o pai de gui, no volante, olha para mim com um olhar triste pelo retrovisor, e guilherme está ao meu lado no banco de trás segurando minha mão.
deito minha cabeça no ombro de gui. ele pega o meu celular e guarda com ele, o nome GABRIEL vibrando na tela, e só me devolve o aparelho quando chegamos em casa. na casa de yan.
saio do carro. já é noite. lá está minha casa. fechada, sem ninguém.
e lá também, bem perto, está yan.
eu corro para abraçá-lo.