Período antes da guerra pelo trono de Ic, entre as irmãs Kanahlic e Zadahtric.
No interior do Castelo de Barboa, em Umnari, seis Criaturas Primevas aguardavam por Elokventa, a Grande Harpia, chegar com mais um feiticeiro para mais um Plenário Solene. Estavam o Grande Jaguar Sovaĝa, a Grande Serpente Kuraĝa, a Grande Morsa Saĝa, a Grande Doninha Aŭtenta, o Grande Feneco Konstenta e o Grande Morcego Vigla.
De repente, a Harpia apareceu a descer as escadas e uma feiticeira, a Allogaj Valéria, o acompanhava. No entanto, a energia mágica daquela garota era tão forte que logo souberam o que ela era.
— Pelo Coração de Noldá, Elokventa — vociferou a Grande Morsa —, outro Allogaj?
— Ela solicitou um Plenário Solene, Saĝa — respondeu a Grande Harpia.
A Morsa arfou.
— Então, vamos lá para mais um Plenário Solene, bem rápido e com outro Allogaj. Alguém tem o interesse de abençoá-la?
— Esta eu conheço — disse Kuraĝa, a Serpente —, é do Reino qual eu pertenço. Audaxy, não é?
— Sim, é como me chamam...
— Esperem — interrompeu a Harpia.
— Qual é o problema agora, Elokventa? — questionou a Morsa.
— Vocês sentiram isso? — assim que ele terminou de falar, o ar vibrou ao redor de todas as Criaturas e elas sumiram repentinamente, exceto o Grande Morcego.
— UÉ? — indagou Valéria. — O que houve?
¶
Os seis Primevos continuaram no mesmo lugar qual estavam antes, porém, a noite virou dia e no lugar da recém-chegada Valéria havia uma garota n***a de cabelos longos e lisos que usava um Bracelete mágico qual emitia um poder descomunal, contudo, contido, e um pouco distante estava um pessoal a observá-las.
— Quem é você? — perguntou a Morsa para Sabryna.
— Se me permitem dizer — falou Rammahdic ao chegar mais perto —, Primevas, esta garota é a Sabryna Mendes de Avelar, uma Allogaj das Cinzas.
As Criaturas Primevas ficaram irrequietas com aquela informação.
— Rammahdic? — perguntou a Grande Serpente.
— Olá, Kuraĝa — saudou a Princesa.
— Vocês se conhecem? — questionou a Grande Morsa.
— Sim — respondeu a Serpente —, ela era a primeira Princesa do Castelo de Ic, mas renunciou o trono e fugiu do Reino — ela olhou de volta para a Princesa. — Pensei que estivesse morta. Como conseguiu ficar tanto tempo escondida da magia? Onde aprendeu a se ocultar assim?
— Aprendi com Lidarred, mas fui guiada todo esse tempo por Unomodo, um dos Sete Únicos.
— Unomodo? — questionou a Harpia. — O Imparcial? Parece que a imparcialidade não é mais a sua característica.
— Ele foi imparcial com os outros Únicos, Elokventa — disse a Grande Morsa. — Não escolheu se juntar ao Treumilas, nem aos Trealtas. Agora sabemos que ele atua, e com um g***o de feiticeiras das cinzas.
— Ah! — exclamou a Harpia.
— Unomodo está te guiando, filha de Ic? — disse a Morsa. — O que ele pretende fazer por intermédio da sua pessoa?
— Estou aqui, Primevo, como uma sacerdotisa dele, mas os seus planos estão voltados para esta garota, Sabryna, a primeira Allogaj das Cinzas que surgiu no mundo.
A Morsa focou os olhos em Sabryna e disse:
— Sugiro que isto aqui é uma solicitação para um Plenário Solene.
— Sim, este foi o meu intento quando instruí esta garota a trazê-las do passado para o presente.
— Na minha concepção, trouxeram-nos do presente para o futuro, mas a suas palavras fazem mais sentido porque eu sinto os Corações do Tempo, Presente e Passado, mas não sinto o Coração do Tempo Futuro — a Morsa olhou ao redor. — Ouvi uma garota questionar e faço-lhes a mesma pergunta: Onde está Vigla, o Grande Morcego? Por que ele não foi chamado?
— Eu também não sei o que houve, Primevo — falou Rammahdic.
— Creio que tenho a resposta — disse Débora.
— Então diga-nos, Sapiensis Débora — disse a Morsa.
— Uau! Lembra de mim? — questionou a Sapiensis.
— Óbvio, eu nunca me esqueço de quem eu abençoei, você foi a mais jovem de todas.
— Muito bem, Primevas, a magia do Tempo não trouxe o Grande Morcego para este presente porque ele morreu no passado, e vocês não morreram, mas ascenderam. Para que as suas ações não venham afetar drasticamente o presente e o futuro, é necessário que ainda estejam vivas, e estão, porém, não mais acessíveis.
— Vigla morreu? — questionou o Feneco.
— Ai! Que fofinho — comentou Gisele.
O Feneco arfou, estava cansado de ouvir aquilo.
— No nosso caso, ele ainda vai morrer. Quem o matou/matará?
— O Allogaj das Luzes Cesar.
— Justamente o Allogaj que não abençoamos antes de outra Allogaj ter aparecido para mais um Plenário. Que ironia!
— Não estou mesmo entendendo este surto de Allogajs em Dorbis — comentou a Grande Doninha. — Uma das trevas, um das luzes e agora, inusitadamente, uma das cinzas.
— Saĝa — disse Sovaĝa com a sua voz grossa e potente, o Grande Jaguar —, o que tudo isto significa?
A Grande Morsa pensou por uns instantes antes de responder.
— Significa que Dorbis toma outros rumos da Era da Magia, ele evolui. As técnicas estão avançando, a humanidade está mudando a cada período que se passa, e o Destino deste mundo, que está nas mãos dos deuses, está moldando uma nova realidade. Não sei o porquê de tudo isso, mas sei que o caos já começou a afetar o Cosmos e alguma coisa precisa ser feita antes que o pior aconteça.
— Sabryna — disse Rammahdic —, solicite.
Mesmo hesitante, Sabryna fez o que Rammahdic havia ordenado-lhe há algum tempo em particular.
— Eu... Eu solicito um Plenário Solene — disse a Allogaj.
Rammahdic afastou-se delas, o evento mais importante da sua história estaria prestes a começar.
— Registrem — falou a Morsa —, esta solicitação para um Plenário Solene com as Sete... Seis Criaturas Primevas foi aprovada. Primevas, quem de vocês abençoará a Allogaj das Cinzas Sabryna, primeira e única da sua categoria de feiticeiros de Dorbis, com uma dádiva qual feitiço ou encantamento algum pode conceder?
As Criaturas Primevas encaram a garota que tímida, não conseguiu nem mesmo levantar os olhos para elas, e uma por uma começou a dizer:
— Não — o Jaguar.
— Não — a Doninha.
— Não — o Feneco.
— Não — a Harpia
— Não — a Serpente.
Por fim, a Morsa encarou Sabryna com muita compaixão, e disse:
— Não. Sinto muito, mas não a julgamos congruente para receber qualquer bênção nossa.
— Como assim? — gritou Leiane. — Nada a ver isto.
Todo mundo que estava naquele salão redondo ficou entristecido com aquilo e murmurava, tinha total certeza de que Sabryna era digna. Mas Sabryna era, porém, Rammahdic sabia o que os Primevos desejavam, era assim que funcionava a ordem da natureza das coisas, da troca de energias.
— Podemos encerrar o Plenário? — questionou a Morsa.
— Ainda não — protestou Rammahdic, e voltou-se para as meninas. — Meninas, eu vos alertei sobre tudo isso, vocês conhecem o Protocolo, sabem o que deve ser feito. Esta é a única chance de Sabryna ser abençoada, pois, se isso não acontecer, a nossa derrota será evidente e eminente. Sabryna pode ser a salvadora mencionada na Profecia, mas ela não é a única, a salvação virá também por vocês... Principalmente através de vocês. O momento é chegado.
O discurso de Rammahdic deixou o clima tenso e Sabryna não entendeu absolutamente nada do que ela dizia. Ninguém lhe explicou sobre nenhum Protocolo.
De repente, Leiane deu um passo à frente e a Princesa a interrompeu a dizer:
— Você não, eu já disse que a sua personalidade forte vai servir.
— Então eu não vou mais participar disto — Leiane ficou exasperada e virou-se para a escadaria a correr e a deixar o salão sem dizer mais nada.
— Eu vou — disse Fabiana, sem ânimo algum, a andar para a direção dos Primevos. — Eu ofereço-me como Tributo, como um Sacrifício Voluntário para a Sabryna ser abençoada.
— Eu aceito — disse a Serpente imediatamente.
— Te amo, amiga — falou Fabiana para Sabryna a soltar beijos para ela, então aproximou-se da Serpente e implodiram num borrão no ar até sumirem.
— O que... O que aconteceu? — questionou Sabryna. — Para onde ela foi?
— Sabryna — repreendeu Rammahdic. — Sem questionar, lembra?
— Eu me ofereço como Sacrifício Voluntário também — disse Belisa.
— Eu aceito — disse a Doninha.
— Belisa? — Sabryna já estava profundamente triste, não queria acreditar que aquele ato significava que as meninas entregavam a própria vida para que ela fosse abençoada.
Belisa soltou beijos para ela a dizer que ela deveria crescer na vida e se tornar a mulher mais poderosa e forte do mundo, por elas. Sumiram num borrão.
— Ai! — gritou Gisele a caminhar para o restante dos Primevos. — Espero que isso valha a pena. Eu me ofereço também, nessa bagaceira.
— Eu aceito — falou o Feneco.
— Ai, que bom. Deixa eu fazer carinho na sua orelha?
— Não.
— Então, adeus, amiga — Gisele despediu-se de Sabryna e sumiu com o Primevo.
Nesse auge, Sabryna havia se jogado no chão e o seu rosto estava lavado de lágrimas.
— Rammahdic, por favor — implorou Sabryna.
— Sabryna, você prometeu.
Aos soluços, Sabryna gritou, pela primeira vez:
— Eu não sabia que iria ser assim.
— Essa menina, tem um coração muito bonito — falou Rosie, a amiga de Bia, ela despediu-se da sua amiga e foi para os Primevos restantes como um Tributo.
— Eu aceito — disse a Harpia, e sumiram num borrão.
— Cuidem da minha irmã por mim — falou Afrima a dar um abraço apertado na sua irmã. — Eu me ofereço como um Sacrifício Voluntário.
— Eu aceito — disse o Jaguar
— d****o-te muito sucesso, Sabryna — disse Afrima antes de implodirem num borrão no ar.
Faltou apenas o último e mais importante Primevo, porém, pareceu que os voluntários haviam acabados. A esperarem em silêncio, exceto Sabryna que chorava sem parar, uma voz doce ecoou pelo salão.
— Eu me ofereço como Sacrifício Voluntário — disse Aurira. A sua língua deficiente, devido à Síndrome de Down, quase não deixou ela se expressar direito.
Sabryna gritou e levou o rosto até o chão para não ver a sua amiga fazer aquilo, até mesmo Rammahdic desviou o olhar.
— Eu aceito — disse a Morsa. — E hoje, Allogaj Sabryna, você recebe as bênçãos da Sabedoria, do Desdobramento, do Poder, da Cura, da Ressurreição e da Imortalidade.
— Não chore amiga — disse Aurira. — Nada disso será em vão. Seja aquilo que o Destino traçou para você, não se detenha. E que o bem venha prevalecer através da sua vida.
Sabryna não conseguia mais falar, apenas chorar, e assim que Aurira e o Primevo sumiram num borrão, o Bracelete de Sabryna brilhou até tomar todo o seu corpo e a luz a transportou para outra dimensão, a qual ela receberia as bênçãos.
O som de um relâmpago ouviu-se.
¶
Talita, a Suma-Sacerdotisa do Templo dos Trealtas, no centro da figura de Estrela de Doze Pontas, ouviu um som de um relâmpago e despertou-se do seu estado de meditação.
— Finalmente — disse ela.
A Suma-Sacerdotisa levantou-se do chão, pegou o Cajado Údmoz e saiu daquele espaço, enquanto andava, as pessoas do grande pátio que treinavam artes marciais e esgrima a cumprimentaram.
— Como vão os meus guerreiros, mestre? — perguntou Talita para um homem.
— Melhor, impossível, Vossa Superioridade — respondeu o mestre.
— Perfeito — ela seguiu caminho.
Foi para o fundo do templo e desceu uma escadaria para o porão e lá embaixo observou os ferreiros terminarem de forjar dezenas de espadas prateadas.
— Ferreiro-mor — chamou Talita por um homem e ele foi ter com ela.
— Sim, Vossa Superioridade — respondeu o homem bastante suado e sujo de fuligem.
— Você usou todos os ossos do Morcego?
— Sim, Senhora, graças à Adaga que Fere e Cura do Castelo de Ic, a Senhora conseguiu descobrir como Lidarred fez o objeto com as presas da Primeva Serpente. Os ossos do Morcego derretem como metal, tem ductibilidade e resistibilidade incomuns, eu nunca vi um material desses. Como a Senhora disse, a Adaga escondia mesmo os segredos para fabricar armas a partir dos ossos daquele ser.
— E o couro do Primevo?
— Os alfaiates usaram a capa da levitação que a Senhora trouxe como modelo para fabricar capas a partir do couro do Primevo como a Senhora pediu. Graças a sua magia também e graças aos Trealtas.
— Ótimo. E ainda vão precisar do Cajado Údmoz?
— Sim, Senhora, é o único objeto mágico que funciona aqui dentro da Cúpula da Cidade dos Immunus.
— É o Diamante de Ic, não é deste mundo, Noldá não o reconhece. Pelo menos os Trealtas não reprovaram o seu uso no templo. Muito bem, vou ali e volto num instante para fazer magia.
— Quando pretende começar o Processo de Aquisição, Vossa Superioridade?
— O quanto antes, melhor. Na verdade, quero amanhã.
Talita deixou o ferreiro-mor trabalhar e voltou para o templo, ninguém sabia o que ela pretendia fazer, apenas a obedeciam. A Suprema Sacerdotisa começou a pôr em prática a suas obras desde que teve uma conversa em particular com o antigo Sumo-Sacerdote antes de ele morrer. Ele revelou-a várias coisas quais precisaram ser anotadas, mas teve algo que a deixou bastante perturbada, e ela não descansaria até que os seus planos fossem executados.
No interior do templo, na área restrita, onde somente a Suma-Sacerdotisa podia entrar e onde ficava a cratera que, na verdade, era o poço qual continha todo o Coração de Noldá, ela se deparou com um Colibri Vermelho gigante e estava de costas para ela a olhar o fundo do poço. Ele foi criado a partir da carne e de um pedaço de osso do Grande Morcego Vigla, foi impregnado de luz e tomou forma a partir de uma porção do Coração de Noldá qual ela tinha acesso, e em abundância.
— Primevo Katarso — falou Talita e o Grande Colibri virou-se para ela —, parece que começaremos amanhã.
O Colibri a reverenciou.