Às oito horas da manhã Fabiana explicou à Sabryna o que ela deveria fazer, assim que ela colocasse o medalhão no pescoço, o tempo pararia para ela, somente ela, das sete, poderia suportar a carga do medalhão. Depois de muitos minutos, Sarah havia chegado à loja, demorou mais um pouco e saiu de lá às pressas como se estivesse a fugir de alguém.
— A s****a está saindo da loja — avisou Leiane que espiava cautelosamente pela janela.
— É agora, faça como eu ensinei — Fabiana entregou o medalhão à Sabryna e ela colocou-o no pescoço, mas nada aconteceu.
— Ela ainda está aqui? — indagou Afrima.
— Ela está fugindo no carro — avisou Leiane.
Todas estavam apreensivas, Sabryna não queria decepcionar, apertou os olhos e concentrou-se. Quando os abriu, sentiu o ar vibrar e o mundo ficou estático, ou em pausa. Os ponteiros do medalhão pararam imediatamente e de trás de cada ponteiro, outros — de cor prateada — saíram e começaram a girar para determinar o tempo de quem estivesse a usá-lo.
Sabryna tinha uma hora no próprio tempo, senão o medalhão não funcionaria mais, era assim que operava. Lidarred o construiu, mas nem com todos os materiais mágicos necessários do mundo poderia fazer outro aparelho que resistisse ao Coração do Tempo Presente, como houve com os primeiros protótipos, iria colapsar.
A Allogaj correu contra o próprio tempo para chegar até à garota qual elas esperavam. Assim que desceu, saiu do prédio e andou pela rua a admirar tudo estático. Não podia fazer aquilo eternamente, apesar de querer muito. Com um poder daquele poderia fazer tanta coisa, boa ou má.
Ela chegou até ao carro de Sarah que já estava na estrada e abriu a porta, analisou um pouco a garota loira que procurava alguma coisa na bolsa e depois a pegou pelo ombro. Sarah moveu-se pelo ar como se fosse uma boneca de pano, como se estivesse num espaço sem gravidade, e a nada percebia. Sabryna fechou a porta do carro e levou a loira pelo ar cuidadosamente, não teve dificuldade nenhuma. Fisicamente, o peso de Sarah não permitiria que Sabryna a carregasse daquela maneira, e se pudesse, Sarah ficaria repleta de hematomas, quem sabe, ficaria inconsciente ou quebraria uma parte do corpo, mas a Magia do Tempo controlada por algum feiticeiro através do medalhão quebrava todas essas questões.
Sabryna posicionou Sarah diante delas e concentrou-se para voltar ao tempo normal. Quando retirou o medalhão, os ponteiros prateados voltaram para trás dos dourados que começaram a girar em sincronia com os segundos da Terra.
As meninas voltaram ao normal, e todos os sons passaram a ser ouvidos, tudo se movia como devia ser.
Sarah desequilibrou-se e caiu nos lençóis e almofadas do chão. Quando viu as garotas, ficou nervosa e levantou-se depressa, mas Gisele apontou o bastão para ela, o bastão dela ficou na bolsa dentro do carro — o motorista iria demorar um pouco para perceber que Sarah não estava lá.
— Gisele — disse Fabiana —, cuidado ela é uma Resurgentis.
Sabryna queria saber o que aquilo significava, depois explicar-lhe-iam que uma Resurgentis era protegida pelo Destino, ela não podia ser morta e se fosse exposta ao perigo, o Destino reagiria para fazer com que ela escapasse. Apenas os Vinte e Quatro Anciões quebrariam esse paradigma sobre os Abençoados das Criaturas Primevas, porém, aquelas meninas ainda não entendiam que um Allogaj estava no mesmo patamar que o deles.
— Meninas, vocês encontraram o Allogaj? Como? É esta menina? — perguntou Sarah a apontar para Sabryna. Ela já havia percebido que as feiticeiras estavam sérias e a encaravam como se ela fosse uma traidora. — Eu já sei que ela é a Allogaj, e olha, não é o que eu esperava. Agora, por que estou sendo taxada de traidora? Falem alguma coisa.
Sabryna ficou curiosa para entender por que Sarah falava daquela maneira, sendo que ninguém havia dito nada.
— Sarah — disse Fabiana —, a Allogaj veio até nós e libertou-nos da maldição como foi previsto, mas Aurira não está conosco. Pode explicar? Onde está Aurira.
Sarah olhou para Afrima, sabia que era irmã da desaparecida, depois lamentou.
— Calma, meninas, eu já sei o que aconteceu, fiquem tranquilas, eu não traí vocês.
— Sarah — advertiu Fong que conhecia o coração daquela garota.
— Tudo bem, eu confesso que não dei mais importância ao caso de vocês, estava bem de vida, vocês estavam imóveis, o tempo passava e nada acontecia, eu perdi as esperanças. Me desculpem. Já estamos no meio do ano...
— Onde está a minha irmã? — interrompeu Afrima.
— Eu tenho um amigo empresário, descobri que ele é feiticeiro, eu o apresentei a minha loja e ele se encantou pelas manequins quais eu mesma moldei com magia para se parecer com vocês, então eu permiti que ele levasse todas, exceto vocês sete. Parece que ele acabou levando uma de vocês no lugar. Perdoem-me, isso para mim faz sentido exatamente agora.
As meninas esperaram a Identificadora dizer alguma coisa, ela saberia se Sarah mentia ou não.
— Fong? — pediu Fabiana.
— Ela está falando a verdade — disse Fong. — Não vejo traição, vejo negligência.
— Isso — gritou Sarah —, esta é a palavra. Obrigada, Fong.
— Onde está este homem, Sarah? — perguntou Afrima. — Eu quero a minha irmã agora.
— Tudo bem, eu te levo até ela, não se preocupe, ela está bem. Eu só preciso do meu carro. Onde estamos?
— Num prédio em construção do outro lado da rua, em frente à sua loja — respondeu Leiane.
Sarah foi até à janela e viu a rua.
— Ai, que bom. Então vamos.
¶
No caminho, Sarah falou sem parar até estar dentro da loja de roupas. Sabryna percebeu que ela era muito amistosa, era inteligente, esperta, alegre, entre outras coisas. Sarah disse que daria tudo o que ela precisavam, roupa, comida, produtos de uso pessoal, dinheiro. Quando ofereceram casa, todas disseram quererem morar com a Sabryna e a garota concordou. A sua mãe, provavelmente, iria amar.
— Ainda não fomos apresentadas — disse Sarah para Sabryna e estendeu a mão para ela, estavam no seu escritório no andar de cima. — Eu sou a Sarah Franco — Sarah esperou Sabryna apertar a mão dela, mas a Allogaj ficou apreensiva, não cumprimentava ninguém assim. — OK! Você é a Sabryna não é? — ela recolheu a mão. — Sete letras.
— Sabryna Mendes de Avelar — respondeu a Allogaj bastante apática.
— Seu nome completo tem vinte e uma letras, interessante — Sarah a observou. — Nossa! Você é bem estranha, e olha que eu tenho experiência em magia e já fui num mundo mágico. Qual é a sua idade?
— Vinte.
— Mas pela lógica que Fong nos trouxe — disse Fabiana —, ela tem vinte e um.
— Por quê? Ela nasceu depois de doze meses?
— Sim — respondeu Sabryna.
— "O Allogaj carregará o número sete", — recitou Sarah. — Faz sentido. Você é tímida não é, Sabryna!? Eu já fui assim, até tomar conta de um g***o de crianças escoteiras, era o meu pedacinho de inferno. — Sarah acabou ouvindo o pensamento de Sabryna sobre ela, achava ela irritante como a Karen, porém, linda e esperta como ela. — Oh! — Sarah exclamou como se estivesse acanhada. — Exceto pela parte do "irritante", obrigada por pensar isso sobre mim. Quem é Karen?
— O quê? — Sabryna acabou de entender qual era o dom de Sarah.
— Ela ouve pensamentos — respondeu Leiane —, imagine como é um inferno estar perto de Sarah e de Fong em um mesmo ambiente?
— Eu não gostei, pare — disse Sabryna, detestou a ideia de alguém saber tão facilmente o que ela pensava.
— Parar? — questionou Sarah. — Não dá para parar, é o meu dom, há momentos em que eu não posso controlar, há momentos que sim. Por exemplo, eu sei que você está pensando... — Sarah concentrou-se para ouvir os pensamentos de Sabryna, queria gabar-se pelo dom impressionante e extremamente raro, mas agora não obteve resposta. — UÉ? Você deixou de pensar? Ninguém faz isso, você é bem estranha mesmo.
— Ela não deixou de pensar — falou Fong —, ela te bloqueou.
— O quê? — Sarah olhou, com os olhos arregalados, para Sabryna. — Ela pode fazer isso? Eu nunca vi nada parecido.
— Aconteceu comigo também.
Sarah aproximou-se mais de Sabryna e tentou de todas as maneiras ouvir os pensamentos dela.
— Uau! Como está fazendo isso? Quem te ensinou? E isso nem é habilidade de ocultar os próprios pensamentos, senão eu saberia. Ela conseguiu me bloquear, ela não se bloqueou.
— Eu demorei para entender isso — continuou Fong —, e você percebeu tão rápido. Você é muito inteligente, Sarah.
— Obrigada.
Afrima limpou a garganta para chamar atenção.
— Gente — disse Fabiana —, vamos ao que interessa, temos uma das nossas perdida por aí.
— Desculpem-me, já vou resolver isso — Sarah pegou telefone do seu escritório e ligou para que disponibilizassem dois carros para ela, no entanto, não deixava de olhar para Sabryna.
¶
Dois carros levaram as garotas para uma loja chamada Ali Modas. Sarah foi a primeira a sair, estava de óculos escuros, depois todas as meninas saíram, uma atrás da outra. As pessoas pararam para olhá-las, principalmente quem estava na loja.
— Benjamin, seu i****a — gritou Sarah —, onde você está?
Uma mulher saiu de trás do balcão da loja e deixou uma funcionária cuidando do serviço, era loira e parecia ser a dona do estabelecimento.
— Sarah, fale baixo, o meu marido está ocupado.
— Se ele não aparecer aqui em cinco minutos, ele vai se arrepender.
— Você está ameaçando o meu marido? Eu vou chamar a polícia.
— Cala esta boca, loira oxigenada.
A mulher demonstrou que ficou bastante ofendida com a atitude de Sarah, o marido dela, Benjamin, admirava demais a garota, mas a mulher dele nunca gostou dela, nunca teve empatia, e aquele dia era especial demais para Sarah forçar a sua imagem de boazinha.
De repente, um homem de estrutura mediana e pele queimada, semelhante a um indiano, saiu detrás de uma porta no canto direito do fundo da loja e correu para elas.
— Pelo amor de Deus, mulher, vá para o seu posto — disse Benjamin preocupado com a situação, a mulher do homem fechou a cara e fez como ele pediu, mas com muita raiva, ela pensava que Benjamin, qualquer dia desses, a trocaria por uma mulher mais jovem como Sarah. — Me desculpe, Sarah, venha para o meu escritório. Quem são essas adoráveis garotas?
— As da maldição — respondeu Sarah secamente.
Benjamin arregalou os olhos e analisou cada uma. Ele era feiticeiro e estava a par de tudo sobre as Terras Encantadas do Reino de Ic.
— Você disse que elas jamais se recuperariam.
— Eu disse que "talvez" elas jamais se recuperariam — corrigiu Sarah. — Eu tinha perdido as esperanças depois de alguns meses. Mas eu disse para você não pegar nenhum manequim especial, não foi!?
— Me perdoe, Sarah, eu não resisti, pensei que uma não faria falta.
— Onde ela está?
— Venha comigo, ela está bem.
Benjamin levou aquelas mulheres para o seu escritório e o pessoal da loja ficou bastante curioso para entender por que o patrão comportou-se daquele jeito. Quem eram elas?
Dentro do escritório havia um manequim ao lado de uma mesa. Todas entraram e Benjamin trancou a porta.
— Aqui está ela, e não se preocupem, eu fiz ela de boneca, troquei de roupa e cuidei dela.
As meninas olharam-lhe com curiosidade, exceto Sabryna.
— Por quê? — perguntou Sarah a expressar repulsa.
Banjamin deu de ombros.
— Quando eu era criança, eu sempre quis ter uma boneca deste tamanho. Não me julguem.
Sarah arfou e fez o bastão mágico aumentar de tamanho, depois o entregou para Sabryna.
— Vamos lá, Allogaj.
Sabryna pegou o bastão, apontou para o manequim e conjurou o contrafeitiço Malfari Malbeno. Um raio cósmico atingiu a manequim que explodiu numa fumaça densa e preta, deixou todas em trevas, depois a fumaça se esmaeceu e revelou uma garota baixinha e diferente das demais.
Uma garota amarela, quase branca, estava diante delas, era a Aurira e ela sofria de Síndrome de Down. Parecia ser uma criança doce, mas já era adulta, porém, ainda doce.
Aurira olhou ao redor, olhou para as pessoas a encararem-na, focou na sua irmã e disse:
— Afrima, estou com fome.
Afrima sorriu e foi abraçar a sua irmã mais nova. Ela era das trevas, e quando descobriu que a sua irmãzinha nasceu feiticeira das cinzas, ela buscou a conversão no intuito de se tornar uma Cinicae, e acabou conseguindo isso o que é inédito, mas acontece uma vez a cada mil processos de conversão. Quando não é intencional, acontece uma vez a cada quinhentos processos de conversão.
O processo de conversão era comum no mundo inteiro, porém, não era um processo muito requisitado, e com o passar dos tempos, a taxa decaiu. O que acontecia era que o Feiticeiro Mascarado reuniu a maior quantidade de feiticeiros e feiticeiras das cinzas que pôde juntar, e depois daquele dia fatídico qual o Cesar conjurou a luz no momento da conversão coletiva de alunos na Basílica da Estela Ic, mais gente das cinzas surgiram, ainda assim, era uma minoria que, em comparação com o mundo, seria facilmente esmagada.
Era hora de irem embora, mas Benjamin ainda insistia numa coisa.
— Espera aí, não eram sete manequins? Por que eu vejo oito mulheres — ele apontou para Sabryna —, e por que ela é a que mais me assusta?
Sarah riu.
— Ah! Benjamim, você não sabe de nada.
Elas foram embora no carro para a casa de Sabryna que ficou com o bastão de Ébano Encantado, o que antes pertencia à Allogaj Valéria, dado pelos Treumilas e purificado pela própria Sabryna.