A rua estava vazia às três horas da madrugada, sete mulheres andavam pela pista e quem tivesse visto aquela cena poderia se assustar. Era, basicamente, um clã de feiticeiras e Sabryna andava na frente, a que conduzia, a mandachuva.
Invadiram o prédio e Sabryna ficou se sentindo como uma criminosa, mas na situação em que estava, aquela era a menor das suas preocupações.
Alojaram-se no terceiro andar do prédio, num quarto sem janela, sem piso e sem tinta na parede e acomodaram-se todas. Gisele foi a primeira a dormir, depois Leiane, em seguida Belisa e por fim, Afrima.
A Identificadora Fong e a Porta-voz Fabiana sentaram-se com Sabryna para explicarem-lhe tudo o que fosse necessário para que a Allogaj entendesse todo o contexto.
Começaram desde o início, quando Valéria se tornou Allogaj — Sarah quem havia contado-lhes essa parte, fora a Fong ter tido Contato com Valéria antes e descoberto algumas coisas —, depois falaram sobre a chegada de Cesar e toda a história sobre as Terras Encantadas do Reino de Ic. Sabryna era uma boa ouvinte, quase nem piscava os olhos de tão atenta.
— Depois que a Rainha Kanahlic se matou — concluía Fabiana —, Zadahtric ocupou o seu lugar no trono do Grande Rei Ic, porém, ela recebeu uma profecia de que alguém das cinzas seria a pessoa digna de governar o reino. Então, Zadahtric enlouqueceu e iniciou o processo de inquisição contra todos os feiticeiros e feiticeiras das cinzas de Umnari, fora aprisionar ilegalmente aqueles que têm no seu sangue linhagem real, como os bastardos, são pouquíssimos, mas existem. O Feiticeiro Mascarado, um poderosíssimo feiticeiro das cinzas, é quem está nos ajudando nesta guerra que parece que não acaba nunca. Ele deu-nos tudo e somos eternamente gratas e devotas. Ele falou que quando voltarmos com o Allogaj, ele se revelará para nós e nos ajudará a encontrar a Princesa Rammahdic, que muitos dizem que está morta, mas ainda temos fé de que ela esteja viva e acreditamos ser ela quem ocupará o lugar de Zadahtric. Com o processo de inquisição, com a perseguição e o aprisionamento ilegal do pessoal das cinzas, fomos obrigadas a andar como nômades por todos os lados, nos chamamos de Zingária, e a Organização Mundial da Magia do Universo não está fazendo nada contra isso, até que em um dia desses, um dos nossos teve uma epifania da Magia do Porvir e trouxe-nos uma Profecia.
"A Magia oscilará, um novo Allogaj vai surgir na Terra e a sua luz é muito forte. Encontrem aquele que carrega o número sete, ele salvará Dorbis do m*l", recitou Fong.
O que Sabryna ouviu até agora foi a coisa mais incrível de toda a sua vida. Desde que se entendeu como gente, passou a crer que não tinha um propósito na vida, que não tinha por que ter vindo ao mundo. Agora, descobriu ser uma salvadora, sendo escolhida para salvar um mundo mágico. Com certeza ela queria.
— Viemos para a Terra depois disso — prosseguiu Fabiana —, o Feiticeiro Mascarado nos escolheu pessoalmente porque somos nativas daqui, exceto Afrima e Aurira. Eu sou de São Paulo, Leiane é do Maranhão, Gisele é da Bahia, Belisa é do Rio de Janeiro e a Fong é de Hong Kong, na China. Estávamos na antiga casa onde moravam os Feiticeiros Prodígios do Castelo de Ic, em Salvador, capital da Bahia, e sentimos a Magia das Luzes oscilar. Graças a Aurira conseguimos achar o local exato, aqui em Feira de Santana, e por incrível que pareça, a Sarah havia se mudado para cá por obra do Destino, e inaugurou a sua loja de roupas. Ela ajudou-nos muito até que descobrimos que estávamos a ser procuradas pelos guardas do Castelo de Ic, seríamos encontradas porque eles têm os nossos nomes, nossas identidades, nosso DNA, e também em virtude da nossa energia mágica perceptível, a nossa magia fica cada vez mais oprimida na Terra o que a tornará mais forte em Dorbis, então o Feiticeiro Mascarado com todo o seu poder veio aqui e amaldiçoou-nos, somente assim poderíamos ocultar-nos. O problema era que somente ele, ou alguém com poder suficiente, poderia quebrar a maldição, e com o passar do tempo estava mais difícil voltar ao normal. Todas as noites voltávamos a ser humanas, até que passamos apenas a nos mexermos em forma de manequins, e depois, só nos mexíamos a cada cinco noites. Parecia que o tempo ia aumentando até que a maldição fosse quebrada, ou então seríamos manequins para sempre. O Feiticeiro Mascarado queria acabar com a operação, mas nós insistimos, sentíamos que estávamos muito perto e agora que te encontramos, que o Destino te trouxe até nós, a esperança ressurgiu no nosso meio. A nossa maior surpresa até agora é que o Allogaj é mulher e é das cinzas.
— Também sou n***a — completou Sabryna, a Professora Linda havia mexido com a sua mente em r*****o à sua cor de pele.
— Sim, mas a sua raça não importa.
— Importa para mim — disse Sabryna, ela conhecia a própria realidade, e logo após ter ouvido o que a sua mãe biológica dissera e o que a Professora Linda contou sobre ser mulher n***a no Brasil, passou a entender algumas coisas. Quanto mais retinta, mas inferiorizada.
— Me desculpe, você tem razão.
— Oh querida — condoeu-se Fong —, a sua dor aperta o meu coração. Quanto m*l lhe causaram na vida — os olhos de Fong se encheram de lágrimas.
— Por que está me dizendo isto? — intrigou-se Sabryna. Na verdade, ela queria saber por que Fong afirmava as coisas e estava tão certa quanto a luz do dia.
— Este é o dom dela — falou Fabiana. — Ela é uma Identificadora, consegue identificar tudo na vida de uma pessoa, até mesmo coisas que ela não sabe, desde que olhe nos seus olhos.
— Você também é cheia de dons — disse Fong. — Possui, principalmente, o dom da leitura e o dom da projeção astral. A sua maior habilidade é a telecinesia.
— Eu não gostei disso — falou Sabryna. — Por favor, pare — ela sentiu-se invadida, fora que havia coisas que não queria sentir, demorou muito para ela aprender a ignorar e agora percebeu que aquilo voltava à tona.
— Você precisa se libertar, p***e criança — disse Fong —, eu posso ajudar-te. A dor precisa ser sentida, sinta, deixe fluir, senão, poderá perder a própria humanidade.
— Eu não quero sentir mais dor, você não faz ideia de como é a minha vida.
— Querida, eu sei, a vida não foi fácil e nem justa para você...
— Não precisa dizer o que já sei. Pare!
— Eu não consigo parar, o meu dom obriga-me — Fong se aproximou mais da Allogaj. — Eu vejo a sua alma...
— Pare! — dessa vez, apesar de não ter exaltado a voz, ela falou com mais veemência.
A Identificadora suspirou como se tivesse tomado um susto e voltou para o seu lugar, agora olhava, com os olhos arregalados, para Sabryna.
— Fong, o que foi? — perguntou Fabiana deslumbrada com a cena.
— Ela conseguiu me bloquear — respondeu Fong —, eu não posso usar o meu dom para ela, isso nunca aconteceu antes. Como fez isso? — perguntou para a Allogaj.
Fabiana segurou a sua risada para não acordar as outras.
— Sabryna, eu tenho certeza que você ainda vai nos surpreender muito — disse a porta-voz.
Elas foram dormir às cinco horas e vinte e cinco minutos da manhã, acordariam às oito porque esse era o horário qual Sarah aparecia na loja para administrar as coisas por lá e ia embora ao meio-dia.
¶
Eram oito horas da manhã, Sarah tomava o seu café na sua pequena xícara de porcelana e lia o seu jornal tranquilamente. Usava um casaco cor de rosa-suave e o seu cabelo loiro estava amarrado numa popa perto da nuca. Ela vivia a sua vida de luxo com o dinheiro que conseguiu obter graças ao tanto de ouro que Kanahlic lhe dera nos seus dias de reinado.
— Terázio, meu amor, quero mais café — pediu Sarah e o rapaz, nativo de Dorbis, apareceu com o bule na mão, estava vestido à v*****e.
O telefone da casa tocou no momento em que o café era servido. Sarah foi atender e ficou perplexa com a informação que lhe foi passada.
— Ai! Que saco. Tudo bem, eu já estou indo — ela colocou o telefone no gancho e pegou a sua bolsa para sair.
— O que houve, amor? — perguntou Terázio. — Não vai tomar o seu café?
— A loja foi assaltada — ela beijou o seu amado e pegou as chaves de casa. — Vou resolver isto, breve estarei em casa.
Sarah não podia se esquecer de levar o seu bastão mágico, estava em miniatura, colocou-o dentro da bolsa e foi embora.
Quando chegou à loja, trazida pelo seu motorista, viu que as funcionárias estavam todas reunidas na entrada, os seguranças que chamaram a polícia. Ela procurou saber mais detalhes, não roubaram dinheiro, nem objetos tão valiosos ou muito caros, somente algumas roupas e lençóis. Os policiais não souberam explicar como foi o roubo, não havia um sinal de arrombamento por fora.
— Também — disse um dos policiais —, arrombaram a porta do porão e fizeram um buraco no chão.
— Como é? — Sarah fez a pergunta, mas já sabia o que poderia ter acontecido.
— Você escondia alguma coisa de valor enterrada no porão? Alguém tinha conhecimento sobre isso? — perguntou o policial.
— d***a — foi aí que ela se lembrou das manequins. — Só um minuto — Sarah correu para o andar de cima e viu que as manequins não estavam mais lá. — Ah, m***a — xingou a loira.
Ela mandou o pessoal voltar ao trabalho, dispensou a polícia e correu para o carro.
— Antônio, me tira daqui depressa — apressou a loira e começou a mexer na bolsa para encontrar o seu bastão. — Onde foi que eu coloquei?
— Sim, senhora — disse o motorista e fez o trabalho dele, afastou-se de lá tão rápido que parecia estar em fuga.
Sarah não sabia o que aconteceu ao certo, mas como estava a par de tudo, imaginou que o Allogaj da Profecia havia surgido. Mas assim que dobraram a esquina para pegarem a pista principal, Sarah começou a ver tudo girar. Ela ficou estática. Nisso, o seu ambiente foi mudando até ela se desequilibrar e cair no chão, agora estava diante de sete mulheres e uma delas era desconhecida.
¶
Horas antes...
Sabryna nem havia dormido. Assim que a Fong e a Fabiana foram dormir, ela passou a noite lendo o livro de Magia Avançada, era espetacular. Sabia ler e entendia o que estava escrito naquele livro como se fosse a sua própria língua nativa.
Como esperado, ela não estendeu muita coisa, precisava da Mestra Afrima para ensiná-la, mesmo assim, consultou o glossário para auxiliar na sua compreensão.
Como não havia energia elétrica no prédio, Sabryna havia conjurado a luz no bastão sem saber que podia, ninguém a ensinou, nem comentou sobre feitiço algum, ela apenas usou a lógica (se é que se podia chamar assim).
Gisele foi a primeira a acordar, eram sete horas da manhã e tudo estava iluminado quando ela viu Sabryna num canto a ler.
— Bom dia, Sabryna — saudou Gisele ao aproximar-se da Allogaj. — Você dormiu, menina?
— Não — respondeu Sabryna.
— Passou a noite lendo?
— Sim.
— Oh! Menina, você deve estar cansada.
— Não estou, eu trabalhava todos os dias bem cedo, agora não tenho mais com o que me fatigar.
— Tudo bem — Gisele deu de ombros —, eu vou procurar água.
Gisele passeou por aquela área daquele andar e não demorou para encontrar água encanada. Assim que retornou, de rosto lavado, sentou-se ao lado de Sabryna.
— Até onde leu? — perguntou.
— Até a metade — respondeu Sabryna.
— Nossa! Um livro grosso deste jeito. Garota, você lê muito rápido.
— Tudo o que eu faço é ler, não tenho televisão em casa.
Gisele contristou-se pela garota, julgou que ela tinha a aparência de uma pessoa muito p***e, mas os seus pensamentos mudaram ao raciocinar uma coisa.
— Como você conseguiu ler? Estava tudo escuro — ela ficou de pé, ainda não havia percebido graças à luz do sol, mas o bastão mágico brilhava, a Pedra de Vírnam não era mais de cor roxa, estava translúcida como um cristal que era. — n******e ser — ela pegou no bastão e ele apagou-se. — Quem te ensinou isso? — Gisele não conseguia deixar de admirar o objeto.
— Ninguém — Sabryna também levantou. — Eu apenas fiz.
— Como? Sabryna, em qual momento te falaram do feitiço Lumo?
— Feitiço Lumo? — a expressão na voz de Sabryna apenas mostrou o quanto ela não entendia absolutamente nada sobre feitiços.
— Ah, não! — Gisele começou a gritar: — Gente, acorda aí.
As meninas se despertaram do sono por causa da gritaria de Gisele. Despertaram rapidamente, e logo se poram de pés, foram treinadas a seres ágeis em momentos de vulnerabilidade, treinadas a estarem prontas para partir sempre que necessário.
— O que aconteceu, Gisele? — perguntou Fabiana. Gisele mostrou a Pedra de Vírnam no bastão de madeira de Ébano Encantado. — Mas... Como isso é possível? A Pedra de Vírnam voltou a ficar translúcida.
— Sabryna conjurou a luz nele — disse Gisele.
— Você ensinou-lhe o feitiço?
— Não, pergunte a ela como isso aconteceu, porque também é novidade para mim.
— Sabryna?
A garota ficou tímida. As outras seis olharam-lhe a esperaram uma resposta surpreendente, mas a garota não via nada de surpreendente.
— Eu apenas pedi à Pedra para brilhar.
— Como?
— Eu disse "haja luz". Fiz alguma coisa errada?
— Na própria língua? — a surpresa impactou tanto Afrima que ela não escondia a admiração. — Você é uma deusa encarnada?
Fabiana ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Sabryna, você não faz pedidos à Pedra de Vírnam, você ordena, e ela responde conforme o seu grau de magia. Sabryna, feiticeiros das trevas não podem conjurar a luz, por isso, eles fazem o DNA na Pedra de Vírnam, porque é magia das trevas, fazem isso para que ninguém possa usar o bastão mágico para ele responder apenas ao que o impregnou com o próprio sangue, por isso ela ficou roxa. Você conjurou a luz numa Pedra marcada pela magia das trevas e a ela voltou ao aspecto primordial. Você purificou-a, apenas a Suprema Sacerdotisa dos Trealtas tem esse poder.
— Que déjà vu — falou Gisele.
— O que há conosco? — disse Afrima. — Estamos diante de um ser extraordinário e estamos a tratá-la como uma menina comum.
— Precisamos mantê-la sempre em segurança — falou Fabiana.
— Creio que nós que precisaremos nos manter seguras ao lado dela — disse Leiane.
— Como ela consegue se manter plena? — questionou Afrima. — No nosso mundo, ninguém suportaria tanto poder sem ter, pelo menos, o último grau de magia.
— E ela desperta a magia em nós — disse Belisa. — Vocês também sentem? Estou me sentindo na própria Dorbis perto dela.
— Fong — continuou Afrima —, qual o grau de magia desta Allogaj?
— Não tenho respostas — disse Fong —, ela me bloqueou.
— O quê?
Fong explicou toda a situação para as meninas depois de terem discutido sobre como Sabryna precisava ser aperfeiçoada, pois, tinha tudo para se tornar a feiticeira mais poderosa do Universo, viram o quanto o tempo passou e perceberam um movimento diferente na rua.
A loja ALLOGAJ'S, de frente para o prédio, chamava atenção da rua por causa da presença de alguns policiais que foram chamados por conta do suposto assalto. Era hora de agir, não tinham mais tempo.