Sabryna acordou lentamente, agora estava amarrada numa cadeira e amordaçada. Nem teve o prazer de pensar que tudo não passou de um sonho, pois, cinco manequins estavam bem à sua frente a conversarem. Ela reconheceu a voz de uma, foi a que a atacou e era a que mais se expressava na conversação.
A garota voltou a ficar ofegante e a manequim que estava de frente para ela disse:
— Gente, a menina acordou — essa também tinha voz feminina, no entanto, mais jovial.
Todas as cinco manequins voltaram-se para ela e chegaram mais perto. Apenas uma continuou m*l-encarada e de braços cruzados.
Sabryna tentou gritar mesmo amordaçada, queria se soltar e se esconder, não conseguia crer no que os seus olhos viam, também, sabia que não era um sonho e o desconhecido a amedrontava.
— Ai! Para de tentar gritar, garota, está me deixando com agonia — disse a m*l-encarada.
— Leiane, não seja tão grossa — disse outra manequim com uma voz tão doce quanto a de Sabryna. — Tenho certeza de que esta é a Allogaj da Profecia.
— Como pode ter certeza, Fong? — perguntou a manequim Leiane. — Eu sei que você é uma Identificadora, mas o seu dom está hibernando, lembra que você quase o perdeu por travar ele durante a sua prisão no Castelo de Ic?
A manequim tinha mais motivos para protestar, elas estavam amaldiçoadas, um amaldiçoado não podia usar magia. Para piorar, estavam na Terra, onde a Magia era limitada. As chances de a manequim Fong estar certa era quase nenhuma.
— Vixe! — exclamou a manequim que anunciou o despertar de Sabryna.
— Tem razão — disse Fong —, muita coisa contribui para que eu não consiga usar o meu dom, mas ele acabou de sair da hibernação, agora eu posso senti-lo e usá-lo, mesmo amaldiçoada. Isto é incrível, é a presença dela.
— A Profecia disse que o Allogaj viria até nós — disse uma delas.
A manequim chamada Fong se aproximou de Sabryna e segurou o seu rosto, a garota inquietou-se.
— Shhh! Acalme-se, menina, não vamos fazer-te m*l.
Sabryna respirava profundamente, aquela situação estava bizarra demais para ela ficar calma, entretanto, o toque daquela manequim, de algum modo, era tranquilizante. De repente, ela foi pega de surpresa ao ouvir um pranto, e quando olhou para trás, viu mais uma manequim a chorar abraçada com outra que estava imóvel, parecia uma boneca Barbie barata. Ela se lembrou de que vira sete manequins, apenas seis estavam a se mexer.
— Afrima, você está desconcentrando a Fong com a choradeira — disse Leiane.
— Leiane, já chega — disse outra manequim, tinha uma voz diferente, um sotaque são-paulino. — Aurira foi a única que não despertou, a maldição pode ter a transformado permanentemente e a culpa é nossa por insistir nisso, mas se esta garota é a Allogaj, Aurira pode ser salva.
— Tudo bem, Fabiana — falou Leiane com sarcasmo.
— Eu sou a Porta-voz, seja mais formal, por favor.
— Meninas — chamou Fong, a Identificadora antes que o clima entre elas ficasse mais pesado —, a nossa intrusa está confusa. Ela quer saber o que está acontecendo. Querida, você compreende-me? — questionou à garota amarrada.
Sabryna, que assistia àquele show de horrores, confirmou com a cabeça.
— Ela é feiticeira — afirmou a última manequim que faltava mostrar saber falar. — Com certeza é a Allogaj da Profecia.
— Vocês estão indo rápido demais, vamos checar, ela pode ser apenas uma feiticeira que não conhece a própria linhagem, e a Profecia não disse que o Allogaj era mulher — insistia Leiane, mas, no fundo, ela também tinha a convicção de que aquela menina era o que pensavam ser.
— Garota, vamos te desamarrar, tudo bem? — disse a porta-voz Fabiana. — Depois vou te fazer umas perguntas.
Sabryna, que já estava mais calma, afirmou com a cabeça e a manequim Leiane a desamarrou. Assim que tirou a mordaça, esperaram que a garota dissesse alguma coisa, mas ela não disse nada, nem teve reação alguma. Apenas ficaram se olhando até Leiane dizer:
— E agora?
A porta-voz Fabiana limpou a garganta e perguntou:
— Qual o seu nome, menina?
— Sabryna.
— Pode soletrar, meu bem?
— S, a, b, r, y, n, a.
— Belisa? — Fabiana olhou para uma das manequins.
A referida voltou-se para Sabryna e disse:
— Sete letras: S - cem, a - um, b - dois, r - noventa, y - setecentos, n - cinquenta. Como na nossa numerologia não se repete letras de mesmo valor, somando tudo, dá...
"Novecentos e quarenta e três", pensou Sabryna enquanto Belisa procurava a resposta.
— Novecentos e quarenta e três — continuou Belisa. — Nove, mais quatro, mais três, dá dezesseis; um, mais seis é igual a sete.
Sabryna não entendeu nada sobre o que a Belisa fazia com aqueles números nas letras do seu nome, nem entendeu porque chegou ao número sete e por que era importante.
— É ela — falou uma manequim com entusiasmo.
— Calma, Gisele — pediu Fabiana. — Precisamos ter certeza. Sabryna, qual a data do seu aniversário?
— Sete do mês sete de mil novecentos e oitenta e sete — respondeu Sabryna. Enquanto ela falava, a manequim Fong a encarava incessantemente.
— Não tenho mais dúvidas — disse Belisa. — Ela carrega o número sete. O ano do seu nascimento: um, mais nove, mais oito, mais sete é igual a vinte e cinco; dois, mais cinco é igual a sete.
— Sabryna — Fabiana disse outra vez —, você não expressa nada no seu rosto, mas os seus olhos entregam que alguma coisa está fazendo sentido para você. Sabe dizer o horário do seu nascimento?
— Às sete horas da noite, em sete minutos — respondeu Sabryna.
Ela tinha o costume de olhar a certidão de nascimento quando mais nova, e sempre achou interessante o horário qual nasceu, também a data, mas nunca se questionou pela coincidência, sempre pensou que ela era a sortuda "uma entre um milhão".
— Se eu ouvir a palavra "sete" outra vez eu vou surtar — disse Leiane.
— Ela carrega o número sete até na idade — disse Fong e Leiane arfou. — Ela tem vinte e um anos, sete, mais sete, são quatorze, mais sete dá vinte e um.
— Não — rebateu Sabryna —, eu fiz vinte anos, não vinte e um.
— Você nasceu depois de doze meses de gestação, não foi? — a pergunta de Fong foi surpreendente para a garota, a própria descobriu aquilo recentemente e nem havia dado tanta importância. — Você já nasceu com um ano, mas o cartório não pôde registrar isso.
— Interessante — disse a manequim Gisele. — Vinte e um é o limite do grau de magia de um feiticeiro. Por quê? — a pergunta da jovem pegou a todos de surpresa, ninguém esperava, assim como ninguém podia dar uma resposta exata.
— A Profecia diz que o Allogaj viria até nós e que carregaria o número sete — disse Afrima ainda a abraçar o manequim. — É ela, sem sombra de dúvida. A nossa jornada apenas começou.
¶
Enquanto desciam para o porão da loja, conversavam com Sabryna.
— Temos uma história muito longa para te contar — disse Fabiana —, você precisará se sentar para ouvir, mas agora não, nós precisamos da sua ajuda, nós somos limitadas, você não.
— O que eu sou? — perguntou Sabryna.
— Você é uma Allogaj.
— O mesmo nome da loja?
— Sim, a dona da loja também é uma Allogaj.
— O que isso significa? — Sabryna não disse que tinha sonhado com esse nome antes, ainda não sentia estar na hora.
— Você foi possuída pela Magia das Luzes, e contém a pura essência da magia. Eu sou uma descendente de humanos mágicos, você tornou-se aquilo que me deu origem. Você é a origem.
— Sou algum tipo de escolhida?
— De certa forma, sim.
— Mas eu não sou ninguém.
Fabiana parou para encarar a garota, olhou no fundo dos seus tristes olhos e segurou bem firme na sua mão — as pessoas sempre faziam isso com ela.
— Você foi impregnada de magia das luzes por muitos fatores quais desconhecemos, mas entendemos que existem. A sua importância para nós é muito grande, se você foi "escolhida", você é alguém, sim. Sempre foi, só não enxerga isso agora.
Ninguém nunca falou aquilo para Sabryna antes, o seu coração encheu-se de alegria, era gratificante e prazeroso.
Leiane tentou abrir o porta do porão, não conseguiu, então pegou o extintor de incêndio e golpeou a porta até abrir. Ela jogou o objeto no chão e fez uma reverência irônica para que Sabryna e as manequins passassem.
O porão era m*l iluminado, havia vários objetos montados ou desmontados, prateleiras e sacos, entre outras coisas.
— O que vocês são? — perguntou Sabryna.
— Muitas coisas — disse Fabiana. — Vou dar a resposta mais óbvia, somos humanas feiticeiras, todas nós, a maioria é da Terra, e do Brasil mesmo, não sei o porquê. Nós terráqueas somos chamadas de Feiticeiras Oprimidas, porque não temos tanta liberdade para fazer magia aqui na Terra, onde nascemos, como temos em Noldá. Noldá é outro mundo e é mágico, diferente e paralelo a este ao mesmo tempo, atualmente chamado Dorbis pelos Vinte e Quatro Anciões. Depois te explico melhor, tudo fará sentido. E por fim, somos Feiticeiras Renegadas em Dorbis porque somos Feiticeiras das Cinzas, a história é muito longa.
Leiane pegou uma marreta que estava em algum lugar daquele porão, encostou-se em determinado canto da parede, contou alguns passos e quando parou em determinado ponto, começou a dar marretadas no chão a abrir um buraco bem largo. Quando chegou à areia do chão, parou de usar a marreta e com as suas mãos de manequim começou a cavar até desenterrar três coisas embaladas.
Cada manequim pegou uma coisa e começou a desembrulhar, no final, revelaram que se tratavam de um livro, um medalhão e um bastão mágico. O livro tinha cor de jaspe, na sua capa estava escrito "Livro de Magia Avançada", era numa língua qual Sabryna desconhecia e surpreendentemente sabia ler, mas já havia visto a língua num sonho que para ela foi muito real.
O medalhão era feito de um metal n***o, tinha anéis dourados em relevo e entre os anéis havia uma escritura numa língua qual Sabryna também desconhecia, era parecida com a outra, porém, mais complexa e incompreensível para a garota. Também existia quatro ponteiros, cada um apontava para um hemisfério e girava por segundo, como um relógio, só não mostrava as horas, apontavam para cada raio solar da gravura do Sol, tudo em dourado.
E o bastão mágico, que também já havia visto em sonho, era feito de uma madeira n***a, havia relevos dourados no bastão e uma pedra de cristal roxo e oval pendia na ponta superior.
— Esta Pedra de Vírnam contém o DNA da Allogaj Valéria — disse Fabiana e a curiosidade de Sabryna despertou-se, ela havia sonhado exatamente com aqueles nomes. — Felizmente, você, Sabryna, consegue usar, não podemos usar um bastão com DNA. Somente o dono da Pedra pode usufruir das suas propriedades mágicas, isso não se aplica a uma Allogaj, mesmo que sendo das luzes.
Gisele entregou a Sabryna o bastão mágico. Assim que o tocou, Sabryna sentiu uma energia mútua entre ela e o objeto, era a conexão mágica. Quando menos esperou, as seis manequins ficaram ao redor da Allogaj, a última foi posta ali, já que não se mexia.
— Eu não sei usar esta coisa — disse Sabryna.
— Nós vamos te ensinar — falou Fabiana —, não é complicado. Pode ser um pouco difícil para nós, mas como já disse, para você não. Faça o seguinte, como é a sua primeira vez, você precisará reforçar a conexão com o objeto mágico, então, concentre-se no bastão e diga Konekti.
— Konekti — repetiu Sabryna, e a conexão que ela sentiu com o bastão quando ela o pegou ficou mais forte.
— Isso, agora, bata no chão, não tão forte, a ponta inferior do bastão, mas antes, conjure o encantamento: Malfari Malbeno.
As manequins fecharam os olhos a esperar pela garota. Sabryna não tinha a menor ideia do que acontecia, contudo, muita coisa fazia sentido. Ela ergueu o bastão, parecia resistente, e bateu a ponta inferior no chão a conjurar o contra-feitiço:
— Malfari Malbeno.
Uma onda de impacto saiu de debaixo do bastão e percorrer por dois metros sob os pés das manequins, em um segundo elas explodiram numa espessa fumaça preta que tinha o mesmo movimento de tinta em contato com a água.
Assim que a fumaça esmaeceu, revelou quem eram as mulheres transformadas em manequins. Tão diferentes quanto Sabryna podia imaginar.
— Uau! — Sabryna ficou maravilhada ao ver que aquelas mulheres eram jovens como ela, exceto Afirma, parecia ter, praticamente, quarenta anos.
— Espera, Aurira não voltou ao normal — disse Afrima, ela era n***a de pele clara (bege), tinha cabelo crespo e estava um pouco acima do peso.
— Nossa! — exclamou Fabiana, ela era branca, tinha olhos enormes e cílios muito grandes, os seus cabelos eram lisos e os seus lábios eram bem desenhados. — Por que a maldição permaneceu em Aurira?
Afrima pegou Sabryna pelos ombros e implorou.
— Por favor, Allogaj, ajude-me a restaurar a minha irmã.
Sabryna ficou bastante acanhada com aquela atitude, era a primeira vez que alguém lhe pediu ajuda para alguma coisa naquele tom, como se mais ninguém pudesse ajudar.
— Mestra Afrima, está assustando a garota — falou Belisa, que era a maior de todas, também tinha cabelo afro e era bege, como Afrima, porém, o seu tom de pele era um pouco mais escuro.
— Ela já está bastante confusa e assustada — confirmou Fong. Era uma mulher chinesa, também tinha olhos grandes, porém, tristes, tinha cílios pequeninos e quase não tinha lábios.
Era tão estranho que Sabryna logo identificou-se com ela. Sobretudo, Sabryna ficou admirada por Gisele, era baixinha, menor que ela, era uma n***a bem retinta, não mais que ela, tinha cabelos cacheados em estilo afro e uma postura bem imponente, era estilosa e parecia ser ousada.
— Tem o contrafeitiço Malfari Magio — sugeriu Gisele.
— Sim, pode funcionar — Afrima estava esperançosa, a sua irmã era tudo o que ela tinha de mais precioso no mundo, ou nos mundos, e Sabryna a entendia perfeitamente, apesar de não ter irmãos.
— O que eu faço? — perguntou a Allogaj.
— Aponte o bastão para o manequim e conjure o feitiço.
Assim, Sabryna fez. Ela apontou o bastão para o manequim, deram-lhe espaço e ela conjurou:
— Malfari Magio.
Um raio cósmico com tons de verde, amarelo e branco atingiu o manequim, que foi lançado até a outra extremamente do porão.
As mulheres ficaram boquiabertas, olhavam para Sabryna como se ela fosse a oitava maravilha do mundo. Mas era a única maravilha para o planeta Dorbis e nem sabia.
— n******e ser — falou Leiane. Era uma garota n***a, porém, mestiça com indígenas, os seus fenótipos a denunciavam, tinha cabelos cacheados e era a mais forte, em questão de porte físico, de todas. — Esta Allogaj é das cinzas. Isso é impossível.
As meninas continuaram a olhar para Sabryna como se estivessem hipnotizadas.
— Por que nos fizeram acreditar que o Allogaj da Profecia era homem e das luzes? — questionou Gisele.
— O que isto significa, ser das cinzas? — quis saber Sabryna.
Fabiana sorriu, mas escondeu a boca com a mão. Ficou tão deslumbrada quanto as demais.
— Sabryna, nós todas somos feiticeiras das cinzas, consideradas aberrantes para o mundo mágico porque podemos praticar tanto a magia das luzes quanto a magia das trevas sem corromper o nosso cerne.
— Não estou entendendo nada — disse Sabryna.
— Precisamos de um longo tempo para conversarmos.
— Sim — agora que foi demitida, tempo era o que Sabryna tinha de sobra.
— Sabryna, só entenda que é impossível haver um Allogaj das Cinzas, nunca existiram, não existe magia das cinzas, apenas luzes e trevas, ou você tem um, ou tem o outro, e no nosso caso, temos os dois. As magias não se misturam, na verdade, há uma mistura heterogênea, quando se distingue qual magia é praticada.
Se Sabryna estava confusa antes, agora piorou a situação.
— Deixa eu explicar — disse Gisele enquanto Afrima foi pegar o manequim que supostamente era a sua irmã —, eu estudei sobre isso: os Allogajs surgiram na primeira era da humanidade mágica, eles foram os primeiros a praticarem magia e passaram esse dom para os seus filhos. Se alguém das trevas fizesse um filho com alguém das luzes, os genes dominantes seriam o que determinaria a magia do filho. Porém, assim como humanos comuns têm erros nos genes que fazem com que os filhos nasçam com doenças genéticas, pode acontecer com a magia, mas ao invés de os filhos nascerem com doenças, nasciam das cinzas, esse erro mágico fez com que o cerne dividisse espaço com as duas magias, isso pode ocorrer em uma a cada mil pessoas. Eu não gosto de usar o termo "erro", prefiro "diferença". Quanto mais cancelarmos os pejorativos, melhor para nós. Mesmo sendo das cinzas, se a pessoa se relacionar com alguém de qualquer uma das duas magias, haverá um gene dominante que vai determinar com que magia o filho nascerá.
— Ser feiticeiro das cinzas é como um acidente — disse Belisa. — Feiticeiros das cinzas não geram outros feiticeiros das cinzas, isso simplesmente acontece. Acontece também no momento da conversão, quando alguém quer mudar de magia, é possível com o ritual certo. Se houver qualquer erro mágico no momento da conversão, o feiticeiro, ao invés de mudar, acaba fazendo com que o cerne compartilhe espaço com a duas magias. A pessoa nessa condição é chamada de Cinicae. Mas não é comum isto acontecer, é raro. O nosso caso é outro, apesar de algumas de nós serem Cinicae.
— Diante de tudo isso — continuou Gisele —, foi provado que nunca existiram Allogajs das Cinzas, até porque não existe Magia das Cinzas, só deram este nome pela mistura heterogênea, como Fabiana falou, das duas magias.
Sabryna fez silêncio, queria entender o que acontecia consigo própria, e não teve nenhuma dificuldade depois das explicações.
— Eu sou uma aberração?
— Não — disseram as meninas em uníssono.
— Não, meu bem — falou Fabiana. — Muito pelo contrário, você é uma maravilha. Você é única. Você é inigualável. Você é novidade. Você é a salvadora citada na Profecia.
Sabryna sentiu o peso de todos aqueles adjetivos. Demorou para ela acreditar ser mesmo tudo aquilo, queria negar, mas era bom demais para ser rejeitado. Com tantas perguntas para fazer, ela conseguiu ser bem aleatória:
— O que é cerne?
— Leiane — falou Fabiana e a referida entregou a Sabryna o livro que estava enterrado com os outros objetos. — Este livro tem um glossário, leia, o conhecimento vai ajudar-te bastante a evoluir como feiticeira.
— Allogaj — chamou Afrima —, eu sou a Mestra dessas meninas, a professora de Magia Avançada, eu prometo te ajudar a aprender o máximo sobre magia, ainda temos tempo, agora, me ajude a desencantar a minha irmãzinha.
— Afrima, quando vai perceber que este manequim não é a sua irmã? — disse Leiane.
— Eu já desconfiei, Leiane, mas eu preciso ter certeza. Se este manequim não é ela, então onde ela está? Éramos as únicas manequins nesta loja, as que estavam aqui foram doadas por Sarah e ela não faria isso com nenhuma de nós. Ou faria?
— Será que Sarah nos traiu? — questionou Leiane. — Sinto que estávamos na forma de manequim por um tempão.
— E estávamos — afirmou Fabiana. — Faltou pouco para ficarmos dessa forma para sempre.
— Eu vou ajudar — disse Sabryna para Afrima.
— Muito obrigada, Allogaj — agradeceu a mulher.
— O que eu devo fazer?
— Desta vez, conjure o feitiço Alporti Originalo. Este feitiço significa que vai trazer a minha irmã à forma original.
Sabryna apontou o bastão, gostou de fazer aquilo, e conjurou o feitiço. Dessa vez, Afrima segurou o manequim para ele não fosse arremessado de novo para longe.
— Alporti Originalo.
Um raio cósmico saiu do bastão e quando atingiu a manequim, ela se transformou em várias bolinhas de polietileno. Afrima ficou sem entender ao ver as bolinhas rolarem por entre os seus dedos.
— O que é isso? — indagou a mestra.
— Bolinhas de polietileno — disse Sabryna e todas as meninas a encararam. Ela acanhou-se antes de continuar: — É o material usado para fazer produtos de plástico. — Sabryna trabalhou tanto tempo no supermercado que aprendeu muitas coisas.
— Viu? — disse Leiane. — É plástico, não era a sua irmã.
— Pelos Trealtas, onde ela está? — choramingou Afrima.
— Acalme-se, Afrima — Fabiana tentou acalentá-la. — A Sarah deve saber o que houve com ela.
— E se Sarah nos traiu como traiu Kanahlic? — sugeriu Leiane mais uma vez. — Como podemos esperar por ela desta maneira?
— Quem é Sarah? — perguntou Sabryna.
— É a segunda dona desta empresa, uma Resurgentis amiga da Allogaj Valéria. Valéria que é a dona deste estabelecimento. Sarah está nos ajudando na nossa trajetória porque está na mesma situação que a nossa, e ela é uma Cinicae, como nós, exceto Aurira e a Fong, as quais são das cinzas por nascença, e sofre a mesma perseguição.
— Tem outros Allogajs por aí? — perguntou Sabryna.
— Somente outros dois, mas estão presos na Prisão Dimensional.
— Gente — alertou Leiane —, não podemos ficar aqui.
Depois daquilo, todas saíram do porão da loja e foram para a área onde estavam as araras de roupas. Ao chegarem ao portão de enrolar da entrada da loja, mandaram que Sabryna usasse o feitiço Vibri Atomoj para poderem atravessar a parede, mas antes trocaram de roupas.
Também, roubaram alguns lençóis e almofadas da loja e levaram para um prédio em acabamento, do outro lado da rua.
Decidiram pernoitar ali assim que viram o prédio, estava num ótimo local para bisbilhotarem a loja quando descobrissem que a ela foi roubada. Tinham a esperança de encontrarem a Sarah e de que ela não tivesse as traído.