A Professora Linda abriu a porta da sua casa, o bastante para ver quem era, e disse de maneira bastante séria:
— Você está duas há horas atrasada.
— Me perdoe — disse Sabryna.
— Você quer se explicar?
— Sim, senhora.
Sabryna ficou em silêncio, parecia que nem respirava, apenas olhava para a professora.
— Então, comece — apressou Linda.
— Um homem puxou o meu cabelo na rua, me confundiu com uma p********a que trabalha para ele...
Linda escancarou a porta da sua casa a interromper Sabryna, ouviu o suficiente para querer saber o desfecho do ocorrido.
— O quê? — a mulher até se exaltou ao insistir que a garota continuasse.
¶
A Professora Linda fez um chá para Sabryna beber enquanto conversavam, mesmo Sabryna demonstrando estar calma. A garota era bem objetiva ao contar uma história, nunca foi boa nisso, e mesmo não expressando quase nada na voz, menos ainda no rosto, conseguiu comover a professora que estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Oh! Meu bem, eu sinto tanto por você — condoeu-se a professora.
Sabryna não sabia o porquê, não entendia que a sua história era comovente para algumas pessoas, ela ainda pensava que aquilo tudo era normal.
"Pessoas sofrem todos os dias."
— Pessoas sofrem todos os dias — disse a professora, Sabryna até ficou surpresa, foi exatamente o que ela pensava —, mas o nosso sofrimento não é por acaso, é proposital, e faz parte da estrutura do nosso sistema. O Brasil é um país racista e desigual, minha querida. Talvez, se você fosse branca, estaria agora fazendo uma faculdade, e não tendo que ir procurar um emprego tão jovem para poder se manter na vida, óbvio que não posso generalizar, mas é tão corriqueiro que não parece que não é geral.
Sabryna pensou em Karen, era uma garota branca dos olhos azuis que tinha a mesma idade que ela, e estudaram na mesma turma do mesmo colégio, e tudo fazia sentido. Mas ainda assim, Sabryna pensou que a professora exagerava.
— Olha — continuou Linda —, eu quero oferecer-te um trabalho como diarista na minha casa, estava entre você e outra garota, mas vai ser você — ela segurou as mãos de Sabryna que não entendia por que as pessoas faziam isso com ela. — Eu vou pagar a sua passagem de todos os dias, vou dar o café da manhã e o almoço, fora uma quantia em dinheiro para você cuidar de si própria e o seu salário será à parte.
— Pensei que a senhora não era rica.
Linda sorriu.
— Eu não sou rica, mas ganho bastante dinheiro, é pouco em comparação aos meus colegas de trabalho que têm a mesma função que a minha, mas isso tudo é fruto da desigualdade. Quero que você comece na próxima segunda, combinado? Eu dou-te o dinheiro da passagem agora.
— Está ótimo.
Depois de muito tempo, Sabryna foi para casa, estava pronta para contar tudo para a sua mãe, ficou um pouco relutante para falar sobre a parte em que encontrou a sua mãe biológica por um acaso, e que entendia por que ela não queria que Sabryna fosse àquele bairro, mas daria o seu jeito. Sobretudo, jamais contaria que achou a Olívia uma mulher excepcional.
Assim que abriu a porta, teve a surpresa de encontrar Karen sentada no seu sofá a conversar com a sua mãe, evidentemente não expressou a sua surpresa.
— Sabryna — disse Karen a ficar de pé, e também Dona Fátima. — Você chegou, mulher — Karen a abraçou.
— Por que não me disse que tem uma amiga, Sabryna? — questionou a mãe bastante sorridente e fingindo surpresa, pois, já tinham falado sobre Karen antes. — Karen é uma menina excelente.
— Oh! — Karen fingiu estar emocionada com o comentário da mãe da recém-chegada.
— Não somos amigas, somos colegas do colégio — respondeu Sabryna ingenuamente.
— Sabryna, isso magoou — protestou Karen. — Somos amigas, sim. Se não éramos no ensino médio, somos agora.
— Como você sabia onde eu morava?
— Foi difícil encontrar a sua casa. Eu fui para o supermercado te procurar — a amiga loira justificou a sua presença naquele momento — e me disseram que você foi demitida, eu fiquei preocupada. O que aconteceu?
— A Evelyn disse para a dona da empresa que eu a desrespeitei, então me demitiram.
— Eu não acredito, eu vou m***r essa menina.
— Você conhece a menina que fez isso? — perguntou Dona Fátima.
— Sim, foi essa maldita quem empurrou a Sabryna na piscina. Eu fiquei com tanta raiva dela. Ela tem uma obsessão doentia por mim, não sei o que faço para tirá-la da minha vida. Não é fácil ser eu.
"Sério?", pensou Sabryna com os olhos semicerrados.
— Eu disse para darmos uma queixa na delegacia — disse Fátima.
— Gente, deixa isso para lá, pelo amor de Deus. Não quero render mais este assunto. Também, eu consegui um emprego novo, vou trabalhar como diarista na casa de uma professora.
— Parabéns, minha filha — Dona Fátima a abraçou.
— Diarista? Você consegue coisa melhor — protestou Karen.
— Infelizmente, não sou tão privilegiada como você — o comentário de Sabryna deixou Karen bastante envergonhada, não era um assunto que ela dominava, mas sabia que Sabryna tinha razão. — Por que veio aqui? — Sabryna não falava com grosseria, falava como se estivesse cansada.
— Eu vim devolver o seu vestido horroroso que ficou lá em casa.
— Eu pensei mesmo que você ia jogar fora.
— Eu quis queimar ele várias vezes, mas aí não teria um pretexto para te ver.
"Por que as pessoas se incomodam tanto com o modo como me visto?", pensou a garota, mas disse:
— Eu gosto dele.
— Sinto muito, Sabryna, mas ele é horroroso.
— Eu quem faço as roupas dela — disse Dona Fátima.
— Ai! Me perdoe, Dona Fátima, eu não quis ofender. Na verdade, eu quero levar Sabryna para comprar umas roupas novas.
— Eu não tenho dinheiro para isso, Karen — disse Sabryna —, e não preciso de roupas novas.
— Eu vou pagar tudo, Sabryna, e confie em mim, você precisa.
— Eu não quero ir.
— Mas você vai — ordenou Dona Fátima.
— Mãe? — impressionou-se Sabryna, apesar de já saber que a sua mãe queria, mais que tudo, que ela fizesse uma amiga, ou arranjasse um namorado.
— Minha filha, a sua amiga quer te ajudar, aceite.
Sabryna arfou, mas deu-se por vencida, não discutiria com a sua mãe nem se quisesse.
— Tudo bem, eu vou.
As outras mulheres comemoraram.
— Que estranho — disse Karen bastante sorridente. — Estou insistindo para que uma pessoa gaste o meu dinheiro e é a primeira vez que ouço a voz dela várias vezes num mesmo momento.
Sabryna apenas deu de ombros.
— Karen, tem um bazar que eu e a minha mãe...
— Bazar? Não, amor. Karen Brunoni não entra em bazar, vamos numa loja de roupas que abriu recentemente na cidade, as roupas lá são boas e baratas. Eu só estou comprando lá agora. O nome da loja é Allogaj's.
— Como? — Sabryna quase engasgou com a própria saliva. Ela já viu aquele nome num sonho estranho que ela teve, jamais pensou que pudesse encontrá-lo algum dia. — Qual o nome?
— Allogaj's. É diferente, não é? Eu gostei, chama atenção.
Com certeza Sabryna iria, agora ficou extremamente curiosa. Ela m*l saía de casa, como pôde ter sonhado com um nome que nunca viu antes e de repente descobre que aquele nome existe e é o nome de uma loja que abriu recentemente na cidade? Queria respostas.
k
Sabryna passou a treinar os seus poderes telecinéticos com os livros toda vez antes de ir dormir, e já ficava boa. Ela entendeu que era necessário ter bastante concentração, o que não era uma dificuldade para ela.
Ela já leu em algum lugar sobre os "poderes da mente", mas jamais imaginou que pudesse mover objetos com eles, era surreal, e agora ela vivia isso. Preferiu guardar esse segredo para si própria, não queria causar nenhum tipo de alarde sobre aquilo, ela não era de chamar atenção.
Estava toda arrumada na sala de estar, no estilo dela, a esperar por Karen para saírem juntas, ansiosa, acreditava que alguma coisa a chamava naquela loja.
Alguém bateu na porta e Sabryna logo foi atender.
— Oi, mulher — Karen, bem afoita, abraçou Sabryna que retribuiu o abraço bastante acanhada. — E aí, vamos?
Nesse momento, Dona Fátima apareceu de algum lugar a sorrir, adorou que a sua filha antissocial tinha encontrado uma amiga fútil que lhe arrancaria de casa para fazer compras. Isso era tão "cultura pop americana", e Sabryna detestava.
— Oi, melhor amiga da Sabryna — saudou Fátima.
— Oi, tia. Tudo bem? — respondeu ainda afoita.
— Sim, e com você?
— Vamos embora, por favor — pediu Sabryna com a voz mais doce que pôde soar, previa a vergonha que passaria com a sua mãe falando como uma adolescente de dezesseis anos.
— Até mais, tia — despediu-se Karen.
— Até mais, melhor amiga da Sabryna.
Sabryna arfou.
Karen havia chegado lá de carro e Adolfo que era o seu motorista. Dentro do carro, Karen não parou de falar, estava bastante empolgada para fazer compras com a sua nova melhor amiga, gostava do jeito de Sabryna, era extremamente o seu oposto.
"Deve ser que os opostos se atraem em qualquer sentido e circunstância."
Sabryna gostava de Karen também, mas o jeito dela a irritava. Não foi de propósito, mas ela ignorou a tagarela por dez minutos no percurso devido ao trânsito, ou seja, nem estavam tão longe da loja de roupas.
A loja era grade, tinha dois andares, ficava bem afastada da rua, no meio da vegetação e do barro, mas uma pista a ligava à pista principal. Sabryna achou bonito ver aquela loja isolada das outras, identificou-se. A rotatória na frente da loja também tinha um espaço enorme e asfaltado para alguns carros estacionarem. Era de alguém bem rico.
Quando desceram do carro, as meninas admiraram a fachada da loja:
ALLOGAJ'S
Logo na entrada haviam dois seguranças fardados.
As garotas entraram na loja sem cerimônia e viram estar lotada de pessoas, várias funcionárias, todas mulheres, andavam para todo lado para atenderem o pessoal. Sabryna observou tudo, era uma ótima observadora e tinha uma boa memória, fora que, depois do seu aniversário, ela sentiu que adquiriu várias habilidades quais nem ela própria entendia como funcionavam.
"Acho que Deus me deu presentes", pensou a garota porque as coisas foram acontecendo depois do seu aniversário, e estava grata por aquilo.
— Sabryna, vamos encontrar umas roupas para você — apressou Karen.
Elas passaram a tarde inteira a escolher roupas e mais roupas até chegar ao limite. Na verdade, Karen escolheu todas, Sabryna não tinha senso de moda, e depois, Karen disse que a levaria num salão de beleza, ela precisava arrumar aquele cabelo, aquelas sobrancelhas, aquelas unhas.
O Universo colocava pessoas no caminho daquela garota para ajudá-la, mas o Destino também tinha planos para ela, Sabryna não fazia ideia.
As garotas ficaram duas horas dentro da loja, o tempo passou que nem sentiram, era como se fosse magia. Karen comprou todas as roupas que pôde levar e as enfiou dentro do carro, no entanto, Sabryna parou de frente para a loja e sentiu uma energia muito forte, alguma coisa misteriosa a chamava de volta.
Ela ouviu uma buzina tocar e voltou a si, era a Karen dentro do automóvel.
— Vamos embora, mulher, eu sei que é maravilhosa, mas não podemos ficar aqui o dia todo — gritou Karen. — Está ficando tarde, e eu preciso ir para a faculdade ainda hoje.
Sabryna não queria ir embora, ela olhou para Karen, depois para a loja e voltou para Karen.
— Karen, eu quero ficar.
— Hein? Como assim? A loja vai fechar às seis e meia.
— Eu sei, mas... Eu quero ficar até o final.
— Eu, hein? Não entendi, você vai voltar sozinha? Quer que eu mande Adolfo vir te buscar?
— Não precisa. Eu volto sozinha mesmo, eu sei o caminho. A minha casa não fica tão longe.
— Tudo bem, você é quem sabe. Eu vou levar as suas roupas para a sua casa, então... O que eu digo para a sua mãe? — essas palavras de Karen fez com que Sabryna entendesse que ela tinha o costume de mentir para os pais em determinadas situações.
— Pode dizer a verdade, eu vou ficar na loja até fechar e mais tarde volto para casa.
Karen abriu a sua carteira e entregou-lhe um pouco de dinheiro.
— Pegue, caso você precise.
— Não... — Sabryna não queria comprar nada, apenas tentar provar uma coisa que estava a intrigá-la muito, mas Karen era insistente.
— Pega logo, mulher. Você não vai ficar aqui sozinha e sem dinheiro.
Estar sozinha e sem dinheiro fazia parte do cotidiano de Sabryna, Karen não entendia aquilo porque não vivia a mesma realidade, por isso ficou tão preocupada. Já Sabryna, entendeu perfeitamente a preocupação de Karen e aceitou as cédulas.
Enfim, Karen foi embora e Sabryna voltou para a loja, agora estava só, aproveitaria o momento para deixar fluir o que quer que estivesse a sentir.
¶
Após ter rejeitado ser atendida pelas funcionárias da loja, Sabryna foi deixada em paz, era tão apagada que esqueciam que já tinham a abordado.
A garota explorou todo aquele lugar, descobriu que ali tinha um porão, também, descobriu que o andar de cima estava a ser organizado para ser aberto ao público, e também descobriu o nome da dona da empresa, Valéria Palawitz que morava longe dali, em outro Estado.
Após isso, o coração de Sabryna acelerou, era exatamente o nome que viu no seu sonho peculiar: Allogaj Valéria — vulgo Audaxy. As coisas precisavam fazer sentido, então, Sabryna, inventou de usar o banheiro da loja, que ficava atrás da parede do fundo do estabelecimento, para se esconder.
Ninguém percebeu que ela havia entrado lá, e por incrível que parecesse, ninguém entrou no banheiro para usá-lo, ela tanto desejou isso que acabou acontecendo.
Ficou lá, escondida até apagarem as luzes e fecharem a loja. Tudo ficou quieto. Ela não sabia que horas eram, apenas sabia que aguardou por um longo tempo até sentir que era a hora de sair.
Ela acendeu a lâmpada do banheiro, abriu a porta e caminhou para o salão onde estavam as araras de roupas, os provadores, os caixas; foi caminhando no escuro e tateando tudo até a entrada da loja onde, no canto da parede, estavam os interruptores e acendeu todas as luzes, exceto as de fora para não chamar atenção.
A segurança da loja era máxima, somente não tinha câmeras e nem alarmes, mesmo assim, era praticamente impossível invadi-la sem as ferramentas certas, nessa caso, também era impossível sair de lá.
"O que eu tenho na cabeça?", Sabryna se questionou quando parou para pensar na loucura que fez. Agora, estava trancada numa loja de roupas e de propósito. Por causa de quê? De um sonho que para ela não fez o menor sentido. Um sonho. Mesmo que parecesse tão real, era apenas um sonho.
Ao invés de procurar respostas, teve a atitude de fazer aquilo, e agora estava arrependida. Pelo menos teve atitude para alguma coisa na sua vida, alguma coisa imprudente, e era emocionante.
O que ela faria agora? Estava muito longe para pedir ajuda, a loja era bem afastada da rua. O jeito era explorar. Então, ela foi ver o porão, no entanto, a porta estava fechada, daí ela foi ver o andar de cima.
Acendeu as luzes e começou a explorar o local. Haviam centenas de peças de roupa espalhadas pelo chão, era uma bagunça. Tudo estava desorganizado e m*l-acabado. O que lhe chamou atenção foi que, lá na frente, sete manequins estavam alinhadas uma ao lado da outra, eram carecas e os seus rostos eram idênticos, tinham o mesmo tamanho, porém, cada uma fazia uma pose diferente. Também, estavam todas vestidas.
Sabryna foi até elas e as admirou, eram tão diferentes das manequins que já viu, pareciam ser feitas de cera, e os seus rostos eram tão bem desenhados que se pareciam com princesas da Disney. Todas perfeitas, exceto uma. Ao chegar mais perto, ela sentiu uma vibração muito forte ao redor da sua cabeça e ficou tonta. Precisava descansar, mas onde? Ela não pensou em nada, somente deve uma ideia e a executou sem planejamento algum.
A garota era ótima com improviso, então juntou todas as roupas que pôde e fez uma cama para ela, encobriu-se de roupas para fazer de cobertor e dormiu.
¶
Sabryna caiu num sono profundo, mas acabou acordando por uma vibração sinistra. A garota não entendia se era um sonho, ou se aquilo acontecia mesmo, porque bem à sua frente uma das manequins estava parada, não fazia pose nenhuma, estava reta e olhava fixamente para frente. A garota havia enrolado-se completamente nas roupas, não dava para perceber ter alguém ali, porém, os seus batimentos cardíacos aceleraram e a sua respiração ficou pesada.
"Quem mexeu no manequim?"
Aquilo não era normal. Os olhos de Sabryna arregalaram-se de pavor, ela ficou estática, o medo a paralisou ali, e para piorar tudo, a cabeça do manequim começou a se mover lentamente para baixo, na direção dos seus olhos.
Um calafrio subiu pela espinha da garota até a cabeça, agora sentiu o peso de estar sozinha e trancada num lugar misterioso. Ela não podia mais se esconder, a sua respiração ficou bem audível, quando era para ser silenciosa, não conseguia. Vai entender?
De supetão, alguém pegou Sabryna pelos pés e a arrastou para fora do amontoado de roupas. Ela não pôde se conter e começou a gritar. A outra manequim que a arrastou pulou em cima dela e a segurou pelos braços, enquanto ela se agitava como uma presa nas mãos de uma criatura predadora.
— Quem é você? — gritou o manequim com voz feminina, era bem mais pesada do que se podia imaginar. — Diga por quem você foi mandada, ou eu te mato.
Para Sabryna, o manequim falar foi demais, imagina a ameaçar? Ela desmaiou.