Capítulo 6

2015 Words
Eles andaram pelas ruas do bairro até chegarem numa casa grande, antiga e isolada da civilização. — Bem-vinda ao paraíso — apresentou o homem de braços abertos a casa. Havia uma placa na fachada com o nome Luz Vermelha, sem dúvida era um prostíbulo e com certeza a sua mãe era uma p********a. O que aquela menina tinha na cabeça? E se aquele homem tentasse alguma coisa contra ela? No que ela estava a se confiar? Ela fez-se várias perguntas, mas tentou ignorá-las, exceto uma: e se Olívia fosse mesmo a sua mãe biológica, o que seria depois? — Vagabundas — gritou o homem —, cadê Olívia? — Ainda, não chegou, chefinho... — falou a recepcionista do prostíbulo, mas interrompeu-se ao ver a garota o acompanhar. — Minha Nossa Senhora — ela saiu de detrás do balcão para observar a garota de perto. — Olívia caiu na fonte da juventude? — Eu encontrei esta menina por um acaso, ela disse que veio para este bairro para uma entrevista de emprego. — Sério, garota? — perguntou a mulher. — Aqui não tem muitas empresas contratando, senão eu não estaria aqui. — Claro que estaria, cachorra — o homem deu uma t**a nos glúteos da recepcionista que riu com a atitude, depois foi para algum lugar a deixá-las a sós. — Venha, meu bem, vou te apresentar às meninas e aos meninos — chamou a recepcionista. Era o horário do almoço, para a sorte de Sabryna, não estavam em serviço. Sabryna ficou apreensiva com a chamada, estava num prostíbulo, apesar do medo, a sua expectativa de saber sobre a sua mãe biológica era muito maior. — Não tenha medo, meu bem — continuou a recepcionista. — Não vamos te fazer m*l. Sabryna confiou naquela mulher e a seguiu para a cozinha daquele lugar. Lá, havia várias mulheres, basicamente dez, e três homens, um parecia ser mais efeminado, estavam cada um num canto da cozinha, sentado numa cadeira, ou no chão, ou onde achou melhor ficar, e tinham uma marmita de comida nas mãos. — Pessoal, olha quem chegou — anunciou a recepcionista. Todos e todas olharam para ela, fizeram um silêncio intrigante, depois se aproximaram da garota com tanta pressa que a deixaram assustada. Diziam: — Meu Deus, essa menina é a cara da Olívia. — Será que é irmã dela? — Só pode ser filha. — Ela já teve uma filha? — Como pode ser, gente? É o clone. — Até o cabelo é igual. — Nossa Senhora, como parece. — Por que Olívia nunca nos contou? — p**a que pariu! São gêmeas. Desataram a falar, falaram tanto que parecia que a Olívia era uma celebridade no prostíbulo. — Calma, calma, pessoal — pediu a recepcionista. — Deixem a menina respirar — o pessoal ficou quieto, mas a admiravam de uma maneira muito especial e ela gostou. — Minha gatinha, você veio atrás da Olívia? — Quem veio atrás de mim? — gritou uma voz feminina e rouca. Atrás do pessoal apareceu uma mulher que era a cópia de Sabryna, porém, mais velha, exatamente como descreveram. Todo mundo abriu caminho para que Olívia pudesse passar e se encontrar com a suposta filha. Ela primeiro arregalou os olhos quando viu a menina, vacilou, depois recobrou a compostura e disse: — Como me achou? — Oxente, mulher, não seja tão rude — falou a recepcionista. Sabryna ficou estática, ela não ouviu o que a sua mãe biológica perguntou, apenas a admirou, estava maquiada e muito bonita, era uma das mais bonitas do prostíbulo. — Eu não estou sendo rude, quero saber mesmo como ela me encontrou. Olha, você — ela aprontou para Sabryna —, venha cá fora, vamos conversar. Sabryna seguiu a mulher para o lado de fora e a recepcionista não deixou que ninguém a seguisse, nem tentasse bisbilhotar. Elas encostaram-se numa árvore, Olívia acendeu um cigarro e Sabryna recuou um pouco, Dona Fátima a instruiu a ficar longe de fumantes. — Está com medo? Sabryna fez que não com a cabeça. A mulher da vida olhou para ela de baixo para cima e perguntou: — Sabe falar? Sabryna fez que sim com a cabeça. — Então fala aí. Qual o seu nome? Sabryna inspirou o ar antes de responder: — Sabryna... — Fala mais alto. — Sabryna — respondeu a menina com o tom de voz mais elevado. — Nossa Senhora, que menina pacata. Você é muito diferente de mim. Como veio parar aqui? Digo, nesse brega. Como me achou? A sua mãe sabe que está aqui? Sabryna demorou um pouco para responder, Olívia teve que erguer as sobrancelhas e levantar os braços em sinal de que estava a esperando. — Eu... Eu vim aqui para uma entrevista de emprego quando um homem me agrediu pensando que eu era você, disse que você trabalha para ele, fiquei curiosa e vim aqui ver quem era... Você. — Você é péssima contando uma história. Mas venha cá, ele te agrediu? — Puxou meu cabelo. — Se você continuar a falar baixo assim, eu não vou te ouvir, nunca. — Ele puxou o meu cabelo — Sabryna falou mais alto. — Ele fez o quê? Se ele pensou que você era eu então ele puxou o meu cabelo também. Aliás, o nosso, e ele vai me pagar. — Não me machucou. — Ah! OK. Aquela mulher era extremamente desagradável, mas Sabryna a admirou e não entendia o motivo, talvez, por ser tratada como uma amiga, como uma igual. — Você é mesmo a minha mãe? — enfim Sabryna teve coragem para perguntar. — Depende, você mora com uma tal de Fátima... Fátima... Ah! Esqueci o sobrenome. Bernardes? — Mendes. — Sim. Essa daí. Então, eu sou a sua mãe biológica. — Por que a senhora não me criou? — Que direta, hein!? E não me chame de senhora. Senhora, só de Aparecida. E outra, eu engravidei de você com o meu primeiro cliente e com quinze anos. Que desgraça! Não tive condições de lhe criar e te dei para adoção. Também, esta não é a vida que queria que você tivesse contato. Sabryna não sabia se ficaria feliz por ouvir aquilo, não entendia que sentimento aquela mulher poderia estar a sentir por ela naquela hora. A mulher jogou o cigarro fora. Ela sorriu depois e disse uma coisa bem aleatória por estar sem assunto: — Sabia que fiquei grávida de você durante um ano inteiro? Sim, você nasceu de doze meses. Os médicos disseram ser normal, só não era comum. Foi aí que eu soube que você não seria uma criança comum. Eu também não sou, estão está tudo nos conformes. A garota achou lindo aqueles relatos, mas tinha interesse em saber sobre outras coisas. — Quem é o meu pai? — Caramba, você é muito direta, menina. E eu sei lá quem é o lixo do seu pai, na época que transamos ele era só um bêbado. — Será que ele... — a coitada da Sabryna nem conseguiu terminar a frase. — Morreu? — Olívia completou a pergunta. — Infelizmente, não. Há vinte anos eu engravidei dele, o s****o nem teve dinheiro para me pagar, então o meu antigo chefe deu uma bela de uma p*****a nele. Quando ele me procurou de novo, atrás de você, eu disse que havia dado você para a adoção. Ele ficou tão chateado que sumiu. Depois disso, se eu o vi umas cinco vezes, foi muito. — A senhora... Você tem trinta e cinco anos? — Sim, e você sabe contar, grande coisa. Sabryna era operadora de caixa de supermercado, matemática era o seu forte. — O meu pai biológico ainda mora por aqui? — Talvez, sim, talvez não, quem sabe é Deus. E eu não estou nem aí. Agora que você sabe que sou a sua mãe biológica e que sou p********a, acho melhor você não vir mais aqui, siga a sua vida que eu siga a minha — apesar de m*l-educada, Olívia, de alguma maneira, não falava para a menina em tom de repúdio, queria afastá-la porque sabia que a vida que levava não era nada digna de ser assistida, pelo menos, era o que a sociedade apontava. Olívia tinha uma filha maior de idade que estava a vê-la pela primeira vez. Isso significava alguma coisa? — Espera — pediu Sabryna. — Por que você faz isso? — Isso o quê? Ser p********a? Primeiro foi por necessidade, depois porque eu gostei — Sabryna ficou espantada pela resposta. — Olha, Sabryna, eu sou uma mulher preta e p***e, não tive muitas chances de ter uma boa escolarização para ter um bom emprego, aprendi quase tudo sozinha. Fiz essas escolhas porque tinha opções piores. É a vida. Eu sugiro a você não ir procurar pelo seu pai biológico, é um Zé Ninguém, segue a sua vida com a sua mãe que te criou, sei que você só tem a ganhar com isto. Mas se você procurar por ele assim mesmo, não conte com a minha ajuda. Agora, vá para casa, e não venha mais aqui, nunca mais. Sabryna, depois de muito tempo, expressou alguma coisa no seu rosto, a tristeza que sentia diariamente. Ela segurava as lágrimas, mas o clima foi cortado quando o c*****o do prostíbulo se aproximou. — Eita! Reunião de família, que bonito. Olívia virou-se para ele com bastante cerimônia, então deu um soco no braço do rapaz que gemeu de dor e recuou. — O que foi isso, sua v***a doida? — Isso foi por puxar o cabelo dela. Era isso, Sabryna sentiu pela primeira vez como era ser defendida por alguém daquele jeito, tão verdadeiro, tão intenso, mesmo que por uma pessoa aparentemente desagradável. — Eu pensei que era você — justificou-se o c*****o. — Está me devendo, cadê o meu dinheiro? Olívia retirou do bolso traseiro do short uma quantia de dinheiro qual estava enrolado e o jogou para o homem, ele acabou pegando as cédulas do chão. — Agora, rala peito. — A sua filha veio aqui para procurar um emprego, diga a ela que se ela quiser, temos vagas... Olívia gritou para o homem sair de perto delas e pegou algumas pedras no chão para rumar contra ele. O homem correu de lá às pressas. Sabryna ficou sem entender, se ela era "funcionária", porque ele aceitava ser tratado daquela maneira. — Olívia — Sabryna juntou toda a coragem que tinha para fazer uma pergunta. — Oi, mudinha. — Se você conseguir uma vaga de emprego para mudar de vida, você aceitaria? — Por que está me perguntado? Tem emprego para me dar? Porque pelo que estou vendo, você é quem está precisando de um. — Só responde — Sabryna não sabia por que fez aquela pergunta a sua mãe biológica, mas tinha um bom pressentimento. Depois do seu aniversário, algo mudou na sua vida e ela estava a se confiar naquilo. — Óbvio que sim, Sabryna — respondeu a p********a Olívia —, agora volte para casa. A sua mãe branca combinou comigo que você jamais viria para este bairro para não corrermos o risco de nos esbarramos por aí. Provavelmente ela nem sabe que você veio. — O meu pai armou tudo. — Tinha que ser. Espero que você esteja muito feliz com eles, e ganhando muito dinheiro, apesar de eu não entender esta roupa de terceira mão. É algum disfarce? — Sou tão p***e quanto você. — Eu pensei que aquele casal de brancos fosse te dar vida boa. — Sou p***e, mas sou grata por tudo, a minha vida é boa. — Você é uma boba. Vai logo embora que o seu jeitinho de princesinha agradecida está me deixando nervosa — Olívia olhava sério para a garota, depois abriu um sorriso que deixou Sabryna confusa. Com isso, Olívia deu às costas para Sabryna e a deixou sozinha na esquina. Felizmente, a garota sabia como voltar, tinha uma boa memória. Ainda estava cedo, então decidiu procurar a Professora Linda para tentar uma segunda chance na esperança de que ela entendesse a sua história. Ela, com certeza, não contaria uma mentira.
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