— Sabryna, já está em casa? — perguntou Dona Fátima a olhar para trás e ver a sua filha chegar extremamente cedo do trabalho, ela estava na máquina de costura e levantou-se para conversarem melhor.
— Eu fui demitida.
— Mas... Por quê? Você é uma excelente funcionária — Dona Fátima queria chorar.
— Não chore, mãe, deixa isso para lá. Eu consigo outro emprego — disse para confortar o coração da sua mãe, mesmo tendo consciência de que teria muita dificuldade para isso.
— Vamos ter fé, minha filha. E o seu pai, ele não disse nada? Ele fez de tudo para te colocar lá dentro, até falsificou os papéis do seu contrato.
— Ele tentou impedir, mas a dona da empresa apareceu lá, depois de muito tempo, somente para garantir que ele não fizesse isso — a voz da garota morria até virar um sussurro.
— Que mulher asquerosa...
— Não tem problema. Amanhã eu vou procurar outro emprego e... — Sabryna imediatamente pensou numa coisa e encarou a sua mãe. — Espera, como a senhora sabe sobre a falsificação no meu contrato?
Dona Fátima hesitou ao olhar nos olhos da filha. Agora precisava contar a verdade.
— Querida, me desculpa, mas o seu pai e eu tivemos uma conversa muito longa sobre você, eu sei que não gosta de mentiras, mas tudo o que fizemos foi para o seu bem. Eu quem dei a ideia para ele. Ele é tão burro, não conseguiria fazer nada se eu não tivesse o instruindo. Eu não ganho muito dinheiro com costura, tenho poucos clientes fiéis, você ganhava tão pouco como caixa, então ele sempre me traz um pacote com um pouco dinheiro para mim e para você, mas não se preocupe, o dinheiro é dele...
— Por que, mãe?
— Morar aqui é caro, Sabryna...
Sabryna respirou fundo com os olhos fechados e Dona Fátima parou de falar.
— Tudo bem. Eu não estou chateada. O meu pai quer nos ajudar, eu sei. Agora, chega de mentiras, está bem!?
— Tudo bem, meu amor — óbvio que ela tinha mais segredos, metade deles foi para proteger a sua filha, ou para beneficiá-la.
— Eu também tenho uma coisa para falar — disse Sabryna. — É sobre ontem, quando voltei com outra roupa. Eu tive que trocar porque fui empurrada para dentro de uma piscina.
Sabryna não sabia dar uma notícia com cerimônia, simplesmente falava.
— Como é que é? — Dona Fátima falou de um jeito que Sabryna a desconheceu, nunca a viu como uma mulher violenta, e Fátima não era, aprendeu a ser doce como ela. — Quem fez isso? Você não sabe nadar, Sabryna. Quem te empurrou?
— Foi uma colega da escola, mas isso não tem mais importância, eu estou aqui e estou bem.
— Você vai me dar o nome dessa menina, eu vou dar uma queixa na delegacia.
— Mãe, é sério, já passou. Deixa isso para lá.
— Tudo você quer deixar para lá. Ah!
Dona Fátima ficou em silêncio por uns segundos com os punhos cerrados nos quadris, o seu coração se partia quando mexiam com a sua filha. O que ela pudesse fazer para protegê-la, ela faria.
Em seguida, a filha foi para o seu quarto, o seu refúgio, o único lugar no mundo qual ela sentia paz, se pudesse, ficaria lá trancada para sempre.
¶
No dia seguinte, Sabryna imprimiu alguns currículos com a ajuda do seu pai e na quinta, acordou de manhã bem cedo para ir arrumar um emprego.
Era apenas mais um dia normal, o sol estava escaldante e Sabryna não aguentava mais andar. Algumas empresas e lojas nem mesmo deixaram ela entrar, outras pegaram o currículo na porta. Ela saiu vestida com uma calça jeans boca-de-sino e uma blusa verde estampada e folgada no corpo. Também não penteou os cabelos, eram lisos e ela pensava que não tinha muito trabalho com eles. De qualquer maneira, vivia cheio fios rebeldes.
Ela cansou de andar e comprou uma água para se hidratar, depois do meio-dia, parou num ponto de ônibus vazio para descansar na sombra, e ainda faltava um currículo dentro do envelope. De repente, começou a pensar nos seus pais adotivos e sentiu um enorme d****o de saber quem eram os seus pais biológicos pela primeira vez. Ela temia que esse dia chegasse.
Depois de um tempo distraída, uma mulher corpulenta com o mesmo tom de pele que o seu se sentou ao seu lado, tinha uma bolsa vermelha não mãos e usava um chapéu, vestida um vestido de botões e era de cor roxa com alguns detalhes de marrom. Ela olhou para Sabryna e sorriu.
— Procurando emprego? — perguntou a mulher e Sabryna confirmou com a cabeça. — Espero que consiga, meu bem. A mulher preta sempre sofre neste Brasil, eu mesma, tive que estudar muito para ser alguém na vida, hoje sou professora, o meu salário não é igual ao de alguns colegas professores, mas é o suficiente para eu sobreviver. Eu me chamo Linda, e você? — a mulher estendeu a mão para cumprimentá-la.
Sabryna demorou em pouco para responder, nem assim apertou a mão da mulher, apenas abaixou a cabeça.
— Sabryna — como sempre, a sua voz soou bem baixa.
— Oh! Você é tímida — afirmou Linda a recolher a mão. — Isto é mau. Eu tenho uma amiga psicológica que pode trabalhar isto em você. Meu bem, mulheres negras como nós precisamos deixar a timidez de lado, precisamos ser proativas, ousadas, apesar de sermos estereotipadas o tempo todo, mas ser mulher n***a no Brasil exige que trabalhemos em dobro. Não que você deve se apressar, tudo a seu tempo, mas a timidez, infelizmente, atrasa a nossa vida — ela olhou para o envelope na mão da garota. — Você quer me entregar? Eu vejo se consigo alguma coisa para você. Pelo seu estado, parece que precisa muito de um emprego.
Sabryna entregou o envelope a mulher, obrigou-se a sorrir, sem mostrar os dentes, e agradeceu:
— Obrigada!
— Não tem por quê. Agora, isso foi um sorriso? Cruzes! Experimenta não deixar os olhos tão arregalados.
Sabryna ficou séria e cabisbaixa depois do que a mulher falou. A mulher tentou contar-lhe um pouco sobre a sua vida profissional, o quanto ela sofreu para se tornar professora, e o quanto ainda sofria, mas o seu ônibus chegou e ela teve que subir. Despediram-se e por fim, Sabryna foi para embora com a sensação de dever cumprido.
¶
Em casa, Sabryna apenas lia os seus livros no quarto, estava contente e não sabia explicar o porquê, talvez devesse se encontrar com a Professora Linda novamente, era uma mulher inspiradora.
Agora que tinha tempo, poderia ler quantos livros quisesse, acabou terminando um e já queria iniciar outro, entretanto, os seus livros novos estavam distantes da sua cama, com preguiça, ela estendeu a mão para o primeiro da filha em cima da sua escrivaninha antiga e ele mexeu-se rapidamente. Finalmente, ela expressou alguma coisa na sua face, ficou espantada.
Seguidamente, ela se empolgou com o ocorrido e ficou sentada de pernas cruzadas em cima da cama, estendeu a mão outra vez para o livro e concentrou-se, o livro mexeu-se novamente e gradualmente foi a flutuar na sua direção. Aquilo a alegrou bastante, então ela riu alto a mostrar os seus grandes dentes perfeitamente alinhados e brancos, mas passou imediatamente, pois, a sua mãe, que passava no momento, abriu a porta de surpresa e o livro caiu no chão.
Ela apenas pegou a cena, viu a sua filha a estar com o braço estendido e um livro no chão, em cima do tapete felpudo.
— Sabryna, você está bem? — preocupou-se Dona Fátima.
— Sim, mãe — Sabryna descruzou as pernas e ajeitou-se na cama.
Ela observou mais uma vez o livro no chão e encarou a filha.
— Você jogou o livro?
"Não", foi o que ela respondeu em pensamento, não queria mentir.
— Se eu te contar, a senhora acredita?
Dona Fátima entrou no quarto e fechou a porta, as suas sobrancelhas estavam unidas de preocupação.
— O que, minha filha?
— Eu movi o livro com o poder da mente — a resposta de Sabryna deixou Dona Fátima estática, não sabia o que dizer, e depois do aniversário da garota, a mulher passou a perceber que havia alguma coisa diferente com ela. — A senhora quer que eu mostre?
— Filha, você está me assustando.
Foi aquelas palavras que fizeram Sabryna se conter. Seria melhor não mostrar nada a sua mãe, ela poderia desmaiar, ou enfartar. Quem sabe ela estivesse a delirar, nunca foi a uma psicóloga antes. Agora que estava com tempo, iria para aquele ponto de ônibus no dia seguinte na esperança de encontrar a Professora Linda outra vez.
Sabryna levantou-se e pegou o livro do chão e voltou para a cama.
— Desculpa, mãe.
— Ora! Menina, você precisa de amigas — disse a sua mãe antes de sair do quarto.
¶
Era treze de julho, bem antes do meio-dia Sabryna estava pronta para ir ao ponto de ônibus, ela despediu-se da sua mãe e abriu a porta para sair, porém, quem estava bem na frente com o punho cerrado para bater na porta era o seu pai branco de olhos azuis e cabelos grisalhos.
— Pai?
— Oi, Sabryna — disse Seu Alceu. — Posso entrar?
Sabryna não respondeu, na verdade, não queria ficar, precisava encontrar a Professora Linda.
— Não sei, estou de saída.
— Não, você n******e sair agora, tenho uma notícia boa para te dar.
— O quê?
— Alceu? — perguntou Dona Fátima ao se aproximar. — O que está fazendo aqui? Espero que a sua mulher não saiba disso.
— Ela não sabe, eu não cometeria este descuido — respondeu Seu Alceu.
— Então, vai falar o que quer?
— Eu recebi uma ligação para Sabryna, já que ela colocou o meu número no currículo dela para contato, uma tal de Professora Linda quer fazer uma entrevista com ela na segunda-feira. Olha, foi mais rápido do que pensei.
A notícia deixou Sabryna contente. Será mesmo que a professora conseguiu uma vaga de emprego para ela? Não sabia se tinha nome para aquilo, quando duas mulheres negras sentem a necessidade de estarem perto uma da outra e se ajudarem, era gratificante.
Seu Alceu chamou Sabryna em particular, contou-lhe onde seria a entrevista, num bairro qual Dona Fátima havia p******o de a garota ir visitar, dizia ser um lugar perigoso para ela, não saberia lidar. Mas era um emprego que estava em questão, Seu Alceu jamais permitiria que a sua filha perdesse essa oportunidade.
À noite, Sabryna entregou um envelope a Dona Fátima, tinha muito dinheiro que ela economizou para alguma emergência, não havia nenhuma, mas ela queria que aquilo estivesse com a sua mãe.
— Mas o dinheiro é seu, minha filha — disse Dona Fátima.
— É nosso — respondeu Sabryna.
— São suas economias.
— Para gastar na casa, prefiro que esteja com a senhora.
Dona Fátima nem soube mais o que falar, apenas aceitou o dinheiro e abraçou Sabryna bem forte.
A garota não fazia ideia do que a aguardava.
¶
A segunda-feira chegou, dezesseis de julho de dois mil e sete. Sabryna estava toda arrumada para ir à entrevista no horário e local marcados pela Professora Linda. Estava naquele mesmo estilo, calça jeans boca-de-sino e blusa folgada. Não sabia qual seria a sua função, nem se importava, desde que estivesse a trabalhar e a receber o seu salário.
Era umas dez horas da manhã, a entrevista começaria às onze num bairro muito longe de onde ela morava. A sua mãe não queria que ela fosse lá e ela obedeceu, mas agora era uma necessidade. Seu Alceu nem contou onde seria o local para Dona Fátima, foi um segredo entre Sabryna e ele que sabia que a mãe não permitiria.
Sabryna conhecia a sua cidade como a palma da mão, ela já andou tanto quando estava no ensino médio, e sozinha, já que não tinha amigos. Depois que ficou de maior, passou a ser mais caseira. Era tão exótica que as pessoas a evitavam, principalmente por usar roupas velhas e estar sempre com os cabelos desgrenhados.
Ela teria que passar por um beco para chegar ao seu destino, não parecia ser seguro, tinha umas pessoas suspeitas, mas era o único jeito. Andou pelo local bastante desconfortável, sentia a sua intuição gritar para ela sair dali, mas estava quase no horário, não queria se atrasar. De repente, uma mão agarrou o seu cabelo, não para machucá-la, mas firme para que ela não fugisse.
— Finalmente te achei, sua v*******a, você vai me pagar o que você me deve — dizia uma voz masculina, voz de ébrio.
O homem, quem quer que fosse, fedia a cachaça e a cigarro.
— Me solte, por favor — implorou Sabryna com a sua voz doce e fraca.
Ela tremeu de medo, qualquer coisa poderia ocorrer-lhe, se ela morresse, seria apenas mais uma jovem n***a.
— O quê? Olívia? — o homem a soltou e ficou de frente para Sabryna.
Ele era alto, magro, pálido, usava uma camisa branca sem mangas, uma calça azul, e uma jaqueta azul e vermelha, porém, suja. A sua aparência era de um usuário de drogas pronto para ter uma overdose.
— Meu nome é Sabryna, você me confundiu com alguém.
— n******e ser — o homem aproximou-se mais. — Você é idêntica à Olívia. Você é filha dela?
— Não, a minha mãe é a Dona Fátima, a gente mora em Santo Antônio dos Prazeres.
— E o que está fazendo aqui em Baraúna?
— Entrevista de empreg... — agora que a ficha de Sabryna caiu, aquele homem a confundiu com uma pessoa que muito se parecia com ela e a sua mãe nunca quis que ela fosse para aquele bairro. Era somente ligar os pontos. Sabryna ficou nervosa, era a sua chance de conhecer a sua mãe biológica, nunca se importou com isso antes, não teve o menor interesse em saber quem eram os pais biológicos, mas agora tinha uma oportunidade, e sentiu a enorme necessidade de não deixar passar. — Espera, quem é esta Olívia? Como ela é?
— É minha... Funcionária. E é exatamente parecida com você, até o cabelo, só que o dela é mais arrumado. O que aconteceu, sofreu um acidente?
Sabryna ignorou a pergunta daquele homem e ficou pensativa, até ele perguntar se ela queria que ele a levasse para ela.
Sabryna pensou na sua entrevista, seria exatamente naquela hora, mas a sua curiosidade era maior. Poderia combinar outro dia para se encontrar com aquele homem, ou então poderia pedir o endereço para procurar pela sua mãe por conta própria, mas era uma garota decidida, fora que ela não conseguiria ignorar a situação.
— Me leve até ela — pediu Sabryna.