Capítulo 4

2004 Words
Sabryna ficou de olhos fechados, mas sabia que estava a ser carregada, não estava inconsciente, nem havia sequer engolido água da piscina. Ela abriu os olhos lentamente quando percebeu que foi colocada delicadamente no sofá. Todos os convidados e convidadas estavam ao redor dela, e quem estava bem à sua frente era o Rogério — como de praxe —, o garoto mais bonito da turma, e era nadador profissional. Era do naipe de Karen, pareciam-se tanto que não havia quem dissesse que não eram irmãos, e se gostavam como tais. A garota molhada no sofá de couro não sabia o que mais a constrangia, se era a multidão, ou o Rogério que a olhava fixamente, e a propósito, ele era namorado de uma das gêmeas. — Sai da minha frente — dizia Karen a passar pelo meio do pessoal, ela tinha uma garrafa de água na mão e um copo, ninguém sabia para quê. — Oh, meu Deus — ela colocou a garrafa e o copo na mesinha de centro e abraçou Sabryna mesmo ela a estar encharcada. — Graças a Deus você está viva, Sabryna. O que aconteceu? Todo mundo esperou Sabryna responder, mas ela ficou tão nervosa que nem conseguiu abrir a boca, então Rogério tomou a fala: — Evelyn a empurrou na água. — Amor, como pode dizer uma coisa dessas? — Evelyn, que era namorada do rapaz, falou como se fosse a vítima. — Evelyn, eu vi você empurrar ela, eu estava te observando. — Tudo bem, eu empurrei, é que pensei que ela estava mentindo quando disse que o seu cabelo não era alisado no ferro. Foi m*l. — Foi m*l? — questionou Rogério já irritado com a situação. — Você tem demência? — Ela quase morreu, sua i****a — gritou Karen. — Ela está ótima, Karen. E como eu ia saber que essa burra não sabia nadar? — berrou Evelyn. — Não precisam me ofender por isso. — Ela não é burra — respondeu Karen — e saia da minha casa. — Karen — choramingou Evelyn com os olhos cheios de lágrimas. — Sai logo daqui — Karen, em todo aquele momento, não deixou de segurar a mão de Sabryna que achou aquilo tão reconfortante, mas não expressou nada no seu rosto. — Rogério, me leve para casa — dessa vez, Evelyn falava a enxugar o rosto, pois, as suas lágrimas não podiam mais ser contidas. — Hum! — resmungou a dona da festa. — Não mesmo. O meu segurança teve que sair — ela se voltou para Sabryna —, Rogério vai te levar para casa, ouviu, meu bem? Isso, se você quiser ir. Sabryna afirmou com a cabeça. — Agora venha — continuou Karen —, você vai trocar de roupa, não vou deixar você ir embora nesse estado. Enquanto Karen levava Sabryna para o seu quarto, as gêmeas foram embora envergonhadas e a festa voltou à ativa. ¶ No quarto, Karen entregou a Sabryna umas toalhas para se enrolar e mesmo sendo extremamente tímida, ela obedeceu. Sentou-se na cama da anfitriã e esperou ela jogar vários vestidos para escolher qual usaria. — Você gosta de estampa, não é? — Karen mostrou um vestido lindo para Sabryna que não havia demonstrado interesse por nenhum. Ela arfou. — Você é difícil de agradar. Sabryna deu de ombros. Karen pegou o vestido estampado que era o mais longo até então. — Anda, experimenta este. Sabryna pegou o vestido e foi para o banheiro vestir-se. Não faria aquilo na frente da anfitriã, já bastava estar seminua, havia chegado no seu auge. Quando saiu do banheiro, ainda de cabelo molhado, Karen a analisou dos pés à cabeça e pediu para que ela deixasse arrumar o seu cabelo, mas Sabryna ficou nervosa e negou o pedido. Karen suspirou, tinha um d****o enorme de arrumá-la, deixá-la bonita, fazer com que ela se envolvesse nas coisas de menina, de mulher, mas tudo a seu tempo. Sabia respeitar o espaço pessoal das pessoas... Até onde queria. Finalmente, Sabryna foi embora levada por Rogério no carro. Karen disse que depois a entregaria o seu vestido que ficou lá, mas Sabryna tinha a impressão de que nunca mais o veria, pelo menos não perdeu o colar da sua mãe. E sobre a gêmea, Sabryna soube na hora que o seu súbito ataque foi por motivo de ciúmes, viu que a Karen estava bem apegada a ela. Ninguém nunca teve ciúmes de alguém com ela até aquele dia. No carro, Rogério tentou dizer algumas palavras amigáveis, como de se esperar, Sabryna não disse nada, apenas ouviu. Rogério parou o carro em frente à casa dela, antes que ela saísse, ele segurou na sua mão a dizer que tudo ia ficar bem, mas ele era tão bonito que Sabryna ficou constrangida e puxou a mão apressadamente. Desconcertada, ela agradeceu e correu para dentro da sua casa, o rapaz entendeu o que houve, apenas deu partida no carro e foi embora a rir. Dona Fátima ouviu a sua filha chegar em casa e foi conversar com ela para saber o que aconteceu, se ela se divertiu, se teve alguém que ela se interessou, se comeu alguma coisa. Era um dia muito importante para ela. — Que roupa é esta, Sabryna? — questionou a mãe da garota com as mãos na boca, ela ainda estava de costas para a porta da casa. — Eu... Eu me molhei — respondeu Sabryna. — Karen me emprestou um vestido. — Nossa! Que vestido lindo. — Eu também achei. — Quando você vai devolver? Sabemos que não é saudável estar com as coisas dos outros. — Sim, mãe, eu sei. Eu devolvo assim que puder. — Bom, então, vá descansar, amanhã você tem que ir trabalhar. — Sim, senhora — de cabeça baixa, Sabryna foi para o seu quarto. Infelizmente teria que devolver o vestido, mesmo sentindo que o seu seria jogado no lixo. Por que as pessoas se incomodavam tanto com o seu estilo? ¶ Na segunda-feira Sabryna trabalhou normalmente. Ainda tinha dinheiro do pagamento recente e economizava para alguma coisa que ela não esperava, era para alguma emergência. Ainda bem que ela guardou dinheiro, porque na terça o gerente do supermercado a chamou para a sua sala em particular assim que todos os funcionários chegaram. — Você está demitida — disse o gerente Olavo, tudo o que Sabryna pôde expressar foi espanto, ela abriu a boca três vezes para dizer alguma coisa, mas as únicas vezes que ela falava de maneira bem audível naquele lugar era para dizer o preço dos produtos registrados no monitor do caixa para cobrança, fora isso, era difícil falar. — Você quer saber o porquê? — questionou o gerente. — Bem, ontem recebemos uma reclamação de que você desrespeitou uma cliente chamada Evelyn e este tipo de atitude é inadmissível na empresa, infelizmente, o cliente sempre tem razão. — A... — foi a única coisa que Sabryna disse, soou como um grunhido. Ela olhou para o gerente por vários segundos, que estava com as sobrancelhas erguidas a esperar que ela falasse alguma coisa, até que um homem de cabelos grisalhos entrou na sala sem mesmo bater na porta. — Você não vai demitir esta garota — disse o homem bem a*******e. Ele tinha um informante na empresa, pediu para ele ficar de olho em Sabryna, que imediatamente mandou-lhe mensagem a relatar que a garota havia sido levada para a sala do gerente de maneira suspeita. — Senhor Alceu? — o gerente ficou de pé imediatamente. — Me perdoe, mas foi a Dona Miranda, sua esposa, quem mandou que ela fosse despedida quando soube da polêmica. Se eu não obedecer posso ser demitido no lugar dela. — Ninguém vai ser despedido — disse Seu Alceu. — Fique tranquilo. — Tudo bem. Onde está a Dona Miranda? — Está em casa... — Eu estou bem aqui — respondeu a própria empresária ao entrar na sala. Era uma mulher gorda, branca e de cabelos tingidos de loiro, era tendência na época. Ela tinha uma voz grave, voz de quem consumia muito álcool. — A garota vai embora. A Dona Miranda havia seguido o marido que também não tinha o costume de descer para o supermercado. Sabryna estava perdida naquela novela. A gêmea má inventou alguma história para fazer com que ela perdesse o emprego, o pai dela, que é casado com a dona da empresa soube que ela seria demitida e foi intervir, porém, a dona do supermercado apareceu bem no momento em que o acerto de contas seria cancelado. Seu Alceu foi conversar com a sua amada, agora falava de maneira manhosa. — Ô, meu amor, não precisa fazer isto... — Por que não? Ela desrespeitou uma cliente. — Como sabemos se é verdade? — As palavras dela já basta. —Tem provas? — O que é isto, um tribunal? Chega de perguntas, ela vai embora. — Mas, amor, ela precisa do emprego. — Que ela arrume outro porque você quer tanto esta garota aqui? Você fez de tudo para ela trabalhar na minha empresa e eu só permiti porque ela tem os cabelos alisados a ferro. — Na verdade, são lisos naturais. — Dane-se. Por um acaso você tem uma dívida com esta menina? Ou... Seu Alceu hesitou antes de responder. — Sim, tenho. Uma dívida muito grande. "Óbvio que tem", pensou Sabryna. "Você é meu pai, o seu nome está nos documentos da adoção e na minha identidade. Por que ninguém sabe que ele é meu pai?" — Eu pago. Agora, você — ela olhou para Sabryna —, fora. Sabryna, simplesmente, abaixou a cabeça, como se a sua própria mãe tivesse falado com ela e saiu daquele lugar sem mais, nem menos. Mas Seu Alceu pediu para ela aguardar do lado de fora. — Coitada, amor. — Coitada? Vou te dizer o que é coitada, a minha b******a que está solitário porque você não levanta mais para ela. Amanhã, eu quero que esta menina venha pegar a rescisão e quitar a sua dívida, se eu não te amasse, você já estaria na rua da amargura, seu s****o — a Dona Miranda saiu daquela sala com pisadas tão fortes que se podia sentir o abalo. Seu Alceu, com olhos tristes, conduziu a menina, que não expressou nada até a saída e sussurrou: — Sinto muito, Sabryna, vou tentar arrumar outro emprego para você, vai ser um pouco difícil, mas... Também, vou arrancar muito dinheiro de Miranda, ela sempre teve ciúmes de você porque foi a única que escolhi para trabalhar aqui. — Ela não sabe que você é meu pai? — finalmente Sabryna teve coragem para perguntar, esperava uma deixa. — Não sabe. Eu que te contratei, falsifiquei o nome do seu pai para que ninguém soubesse. Foi necessário, senão você não iria trabalhar aqui. Só uma pessoa sabe e ele me ajudou com o trambique. Sabryna não gostou daquilo, falsificação, mentiras e omissões, já estava bastante incomodada — Pai, eu não quero nenhum dinheiro da senhora Miranda, não gosto de mentiras. — Eu sei, Sabryna, por isso não te falei nada, imaginei que você não iria concordar — agora, já estava do lado de fora. — Mas pense direito, a sua mãe não recebe muito dinheiro como... — Não. Obrigada! Adeus. Sabryna foi embora, nem esperou o seu pai adotivo falar mais nada. Ele gostava dela, ela sabia disso, mas era um homem muito mentiroso, ao contrário dela. Depois que ele saiu de casa, nunca mais demonstrou afeto, e também não demonstrou que se importava. Ela tinha uma habilidade de conter as suas emoções e os seus sentimentos de uma maneira que a deixou semelhante a um zumbi, exceto pela compulsividade de comer carne humana. A única vez que ela "mentiu" foi sobre ontem, quando foi empurrada para numa piscina funda e correu o risco de morrer afogada. Ela torturava-se por isso até aquele momento, mas a sua mãe era cheia de preocupações e tinha pressão alta, aquilo poderia a abalar. Ninguém é perfeito. ¶
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