Capítulo 3

2090 Words
Sabryna passou a tarde inteira lendo. Era o seu hobby dos domingos e nunca mudou desde que começou a trabalhar. Nada acontecia na sua vida simples e ela nem queria que acontecesse, afinal, estava muito bem. A festa da Karen começaria às seis horas da tarde, mas Sabryna sabia que era o motivo para os convidados chegarem cedo, nenhuma festa começava exatamente às seis. Ela checou o endereço novamente, teria que pegar um ônibus para ir, mas a volta seria complicada, se se apressasse, pegaria o último ônibus, ou então teria que dormir por lá para evitar ter que voltar a pé, sobretudo, preferia voltar a pé. Então, foi tomar um banho na expectativa de que se arrependeria amargamente por ir a uma festa daquelas. Não era o seu povo, o seu ambiente, o seu tipo de evento, apesar de não ter estipulado nenhum dos três, nem sabia por que estava tão ansiosa por aquilo. Talvez o fato de Karen ter insistido tanto pela sua presença a deixou um pouco animada, mas somente uma fração de ânimo, a sua expressão de desânimo era corriqueira. A jovem escolheu um vestido com babados coloridos abaixo dos joelhos, bem década de oitenta, de mangas cumpridas e era um pouco apertada no b***o, colocou sapatilhas pretas com meias longas, e amarrou o cabelo como se fosse ir para o trabalho. Se sentia muito ousada a mostrar um pouco dos seus ombros e do pescoço. Quando a sua mãe a viu, ficou admirada, pois, achou a sua filha incrivelmente linda. Disse que o seu pescoço não podia ficar nu e emprestou-lhe um colar bonito que ela usou no dia do seu casamento. Sabryna não colocou brincos porque não tinha as orelhas furadas, nem pulseiras porque a sua mãe vendeu as que tinha para comprarem coisas mais importantes. A menina estava pronta, não se parecia em nada com as meninas da sua geração, era antiquada e sem vaidade. Antes de sair, se olhou no espelho e não gostou de mostrar tanto o rosto, fazia aquilo devido ao trabalho, era obrigada, então soltou o cabelo e deixou que cobrisse um pouco a face, nem os penteou direito. "Parecia uma doida." Dona Fátima a considerou linda do mesmo jeito, mas ela nem saía de casa, praticamente não conhecia o mundo novo. Sabryna estava acostumada a ser olhada e julgada, pouquíssimas pessoas a ignoravam da maneira que ela queria. Dentro do ônibus, um homem inconveniente chegou a perguntar de ela estava fantasiada, e ela nem respondeu. A garota estava tão m*l-encarada que ninguém se sentou do seu lado no ônibus, sendo que alguns estavam em pé. Até o inconveniente não sentou, ela percebeu que ele ficou apreensivo quando ela apenas olhou para ele calada depois da pergunta. Ela não era assim de propósito, era o seu jeito. Na sua mente se passavam tantas coisas. Apenas conversando com ela se podia saber o quanto era doce e amável. Nunca foi de agredir ninguém, muito pelo contrário, sempre foi agredida. Sofria de várias maneiras em várias áreas da sua vida, um desses sofrimentos estava relacionado ao seu interior, tinha uma síndrome, por isso era um pouco bipolar, não se reconhecia como tal porque nem ela própria tinha conhecimento, jamais passou pela sua cabeça se consultar com um psicólogo, ou psicóloga, a única pessoa no mundo qual conversava abertamente era a sua mãe que era tão "atrasada" quanto ela. Ao saltar em determinado ponto, Sabryna andou para uma casa não muito grande, nem muito pequena, e bateu no portão do muro por trinta segundos até alguém abri-la, era um homem n***o, bem alto e careca, estava de roupa social. O homem a mediu com os olhos, de baixo para cima, então ela mostrou-lhe o convite e ele desfez a expressão de confuso. Mandou que ela entrasse. Depois do portão, havia uma área gramada com uma piscina, Sabryna ficou deslumbrada, foi a primeira vez que viu uma piscina bem de perto. — Não sabia que a festa era a fantasia — disse o homem que até agora Sabryna não sabia quem era. Ao ver que ela não respondeu, ele disse, com muita simpatia: — A senhora pode aguardar na sala — ele conduziu-a para a sala de estar, algumas paredes eram de vidro, e todas as cortinas foram arrastadas para um canto. Aquela foi a primeiro vez que Sabryna foi chamada de senhora, ela sentou-se no longo sofá de couro branco e ficou a admirar o lugar que para ela era de gente muito rica, mas ela sabia que a Família Brunoni não era tão rica assim. As fofocas rolavam soltas. — Adolfo! — gritou uma voz aguda e irritante. — Quem é? — Quando ela parou no meio da escada ainda a colocar os brincos, Karen viu a única convidada no momento sentada como uma múmia no seu sofá, então abriu os dentes e correu saltitante para ela. — Sabryna, que maravilha, você veio — disse a abraçá-la. — Mas tão cedo, por quê? — Não começa às seis? — questionou Sabryna quase como um sussurro. — Sim, meu amor, mas ninguém chega nesse horário... A não ser você. É muito pontual. Karen a tratava com bastante naturalidade, quem sabe, Sabryna a desse um voto de confiança, o que jamais deu a qualquer outra pessoa que não fosse a sua mãe. A anfitriã falou para Sabryna ficar à v*****e na sua casa, em minutos chegaria os outros convidados. Adolfo era o segurança particular da casa, mas não teria aquele emprego por muito tempo, aquela família queria passar-se por rica para os vizinhos, mas o dinheiro acabaria, depois teriam que esconder da sociedade a vida medíocre. Um por um dos convidados foi aparecendo até encher a casa com trinta e seis pessoas, incluindo a Karen, excluindo o Adolfo. A festa começou às sete e meia, mas antes, Karen fez um discurso como se não fosse vê-los nunca mais. — Meus amigos e amigas e colegas de classe, eu me encontro muito feliz neste momento, e grata por todos vocês estarem aqui comigo para relembrarmos os velhos tempos da escola que foi a quatro anos atrás. O meu pai juntou bastante dinheiro para pagar a minha faculdade, mas por tanto estudar, finalmente consegui entrar numa faculdade pública e o dinheiro que ele investiria em mim, ele me concedeu metade para eu comemorar do jeito que eu quisesse, e eu quis fazer uma festa de recordações do ensino médio. O ensino superior será uma nova fase para mim, para a minha evolução, e eu queria sentir mais uma vez essa força que vocês me deram no tempo da escola. Eu tive a melhor turma de todas, quero me lembrar de cada um para sempre... — É isso aí — gritou alguém e puxou uma salva de palmas. Ele fez isso porque sabia que Karen não iria parar de falar tão cedo, ela sempre foi a tagarela da turma, ao contrário de Sabryna, que sempre foi a calada. A festa começou. Enquanto todos e todas estavam espalhados pela área da piscina iluminada a conversarem e a beberem e a dançarem, Sabryna ficou num canto do muro isolada dos demais, apenas assistia ao movimento e esperava pelo horário certo para dizer estar na sua hora de ir embora. De repente, aproximaram-se duas garotas, eram a Evelyn e a Emily, as irmãs gêmeas caucasianas da turma, seguravam copos com bebida e pararam de frente para Sabryna. — Olha só Emily, quem apareceu — disse Evelyn. Começaram a falar m*l de Sabryna como se ela não estivesse lá. — A esquisita — respondeu Emily. — Ouvi dizer que ela trabalha no Supermercado Miranda, estão contratando animais agora? — Aquele supermercado é um zoológico, a dona parece um hipopótamo de tão gorda — Evelyn a mediu com os olhos dos pés à cabeça. — E que porcaria é essa que ela está vestindo? Será que ela achou no lixo? — Foi pior, Evelyn, a mãe dela quem fez. As duas começaram a rir de Sabryna, a única reação da garota foi olhar-lhes com indiferença, depois ficar cabisbaixa. — Me diga, Sabryna — perguntou Evelyn —, por que você esconde que alisa esse cabelo no ferro? — Já está na hora de alisar de novo — disse a outra —, está ridículo, parece que ela carrega um gato morto na cabeça. — Feliz seria ela se tivesse um gato morto na cabeça, estaria muito mais bonito do que isso. Por que você não deixa de ser esquisita, Sabryna, a Estranha? Enquanto riam da garota, uma voz grossa falou bem alto. — Parem com isso, agora — as meninas assustaram-se, quando olharam para trás, viram o segurança particular da Karen, o Adolfo. — Você não manda na gente — disse Emily, porém, vacilante por estar intimidada com o tamanho e o porte físico daquele homem. Ele deu mais um passo à frente, a sua expressão era de como se estivesse pronto para esganá-las. — Se me irritar, eu coloco vocês duas para fora. — Preto ousado — disse Evelyn, porém, as próprias afastaram-se dele às pressas por medo. Adolfo chegou mais perto de Sabryna cabisbaixa e perguntou com muito carinho: — Você está bem? Mas ela não respondeu, tudo o que queria agora era estar o mais longe possível daquele lugar, no entanto, ao levantar os olhos para observar as gêmeas irem para longe dela, e magoada, desejou que as gêmeas pagassem por aquilo, então mirou os olhos nos pés das garotas, de repente, as duas escorregaram misteriosamente e caíram no chão a derrubar as bebidas. O pessoal riu delas, poucos foram ajudá-las. A única reação que Sabryna teve foi olhar para Adolfo rapidamente. Ele ficou boquiaberto ao ver o que aconteceu. Então, sem dizer nada, ela afastou-se dele para ir falar com a Karen que estava na beira da piscina a conversar com um pessoal que fofocava sobre a queda das gêmeas. — Karen, quero falar com você — disse no ouvido da anfitriã. — O quê? — gritou Karen. — Quero ir embora. — O quê? Não estou te ouvindo, fala mais alto. Sabryna abriu a boca, até encheu o pulmão de ar, mas acabou desistindo. Karen entendeu e a levou para a sala da casa. — O que foi, amiga? Quer comer alguma coisa? "Amiga?", intrigou-se Sabryna com aquele substantivo. — Não, eu quero ir para casa. Karen demonstrou o seu grande desalento. — Por que, Sabryna? A festa m*l começou. Não está gostando? É por que está só? Fique ao meu lado. Desculpa-me se estou te ignorando, são muitas pessoas para conversar... — Não, não é isso... — Sabryna interrompeu-se, na verdade, não queria falar que sentiu uma energia negativa no ambiente, bem antes de ser importunada pelas meninas quais ela teve a certeza de que havia provocado as suas quedas. — Eu preciso pegar o último ônibus para casa. — Para — Karen riu. — Adolfo te leva para casa, menina. Acho que ele gostou de você — ela disse essa última frase como se fosse um segredo e Sabryna ficou desconcertada. Karen pegou na mão de Sabryna. — Venha comigo, você vai ficar do meu lado agora. Sabryna nem pôde recusar, quando percebeu, já estava na beira da piscina com a Karen grudada no seu braço. Contudo, continuou a ser ignorada, pois, era tão quieta que as pessoas eram praticamente induzidas a não enxergarem-na. Depois de algum tempo, Karen soltou o braço de Sabryna e continuou com a sua calorosa conversa com alguns amigos, então, Sabryna foi observar a piscina, e as ondas da água a hipnotizaram tanto que ela chegou a pensar conseguir lê-las, porém aquilo estava tão forte que ela não se conteve, e leu "saia daí". Era como uma mensagem do Além. Sentiu um arrepio subir pela sua espinha e virou-se para trás, rapidamente viu uma garota enfurecida empurrá-la na piscina. Automaticamente, Sabryna prendeu a respiração, mas não sabia nadar, então afundou até tocar o fundo. Debaixo d'água ela pôde perceber um aglomerado de gente na borda da piscina, e alguém agitava-se em desespero. Era a Karen. A p***e da Sabryna nem mesmo reagiu para salvar-se a si própria, pensou que morreria afogada e ninguém ajudaria, ninguém se importava com a sua vida. Tudo o que pensou naquele exato momento foi na sua mãe. "Mamãe", disse Sabryna e uma bolha de ar saiu da sua boca e subiu para a superfície. Mas a bolha foi desmanchada quando uma pessoa pulou na água na sua direção, daí, a garota fechou os olhos.
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