Capítulo 14

2947 Words
Sabryna deixou Olívia e Sarah para trás quando correu para se encontrar com o seu pai biológico. Assim que chegou perto, viu que ele dormia por conta da embriaguez. Ela o admirou, ele era n***o, barbudo e tinha cabelos lisos. Alguém cuidava do homem, ele usava umas roupas que não parecia de mendigo, mas estavam bastante sujas. A garota agachou-se para observá-lo melhor, o homem roncava e a luz do sol não lhe incomodava. A sua aparência não lembrava ela em quase nada, mas o formato dos olhos com certeza era genética dele. Ela pegou o litro de cachaça qual ele se agarrava, mas ele acabou despertando quando não sentiu a garrafa na sua mão. — Hei! — protestou o homem bastante ébrio. — O que está fazendo? Me dê isso aqui... — ele parou de falar assim que olhou para a garota, ficou deslumbrado e imediatamente esqueceu-se da bebida. — Oh, meu Deus, Olívia? — Não... — Sabryna tentou falar, mas ele a interrompeu. — Olívia, por que está aqui? Você me disse que não queria me ver nunca mais. — Eu não... — a garota se interrompeu novamente, pois, as outras haviam chegado. — Mas... — Érico ficou atônito. — Tem duas Olívias? — Parece que sim — brincou Sarah. — Sabryna, você não tem nada do seu pai, a não ser o formato dos olhos. No resto, você é a sua mãe são idênticas. — Olívias, por que vocês estão aqui? — perguntou Érico, a sua mente estava afetada pelo álcool. — Eu amo vocês. — Então, Sabryna, este aí é o bêbado do seu pai biológico — disse Olívia. — Ele foi o meu primeiro cliente a vinte anos atrás, eu só tinha quatorze anos e era inexperiente, tanto que engravidei de você, e pari com quinze — enquanto ela falava, uma mulher saía de um bar para falar com elas e Érico tocava o rosto e os cabelos de Sabryna com as suas mãos sujas por tanto admirá-la. — Quando ele soube, me procurou para ter a sua posse, só que ele demorou um pouco por causa da cachaça. Chegou um dia depois que te dei para adoção. E quando ele foi atrás de você para te adotar, já estava longe, com outra família. Os seus pais adotivos até me procuraram depois, queriam saber quem eu era e fizeram um acordo comigo depois de um tempo. Érico veio atrás de mim algumas vezes, mas eu tive que dispensar ele, da primeira vez, o meu chefe o espancou tanto que pensei que ele ia morrer. — Boa tarde, cidadãs — saudou uma mulher, ela usava avental, o seu cabelo castanho-claro tinha um corte estilo década de oitenta, era gorda e tinha uma pele bronzeada, bochechas rosadas e olhos azuis. As meninas responderam à saudação. — Meu nome é Germana, trabalho naquele bar ali — ela apontou para o estabelecimento —, eu vivo cuidando do Éris desde que ele apareceu por aqui há muito tempo. Vocês conhecem ele? — O nome dele é Érico — corrigiu Olívia. — A gente conhece ele como Éris, minha senhora. — Sua Senhora é Aparecida. Eu sou a Olívia, esta é a Sarah e esta minha cópia aqui é a Sabryna. — Ele é o meu pai — respondeu Sabryna e a mulher Germana ficou boquiaberta. — Vixe, Maria! Eu nem sabia que Éris tinha uma filha. — E eu estou sabendo hoje quem é ele. Germana ficou ainda mais espantada com aquela informação. — Ai, não. Me desculpem pela inconveniência. — Não está sendo. — Você cuidou dele — Sarah tomou a fala —, ficamos muito agradecidas, a partir de agora nós tomaremos conta. — Mas não é só eu, ele tem uma irmã que aparece aqui quase todos os dias, Elvira. O curioso é que ela não veio hoje para trazer o seu almoço. Sarah e Sabryna olharam para Olívia. — Não olhem para mim, eu não sabia dessa Elvira — disse a mulher da vida. — Sarah, quero levá-lo embora e deixar um recado para a irmã dele — avisou Sabryna. — Sabryna, não dá — rebateu Sarah. — Sinto muito, mas não tem espaço no carro, Terázio está no banco dá frente, exceto caso ele vá ao porta-malas, mas o caminho é longo e seria muito desconfortável. — O que vamos fazer? — Sabryna olhou para o homem caído no chão, ele voltou a dormir, pelo menos não estava mais com o litro de cachaça na mão. — Germana — falou Sarah —, você entregaria um bilhete nosso para a irmã deste homem por nós? — Claro, fico feliz em ajudar vocês, estou feliz que alguém mais se importa com o Éris, na verdade, estou feliz porque ele tem uma família. A irmã dele é sozinha no mundo, mulher batalhadora. — Nós estamos muito gratas pela sua ajuda. No fim, Sarah foi até o bar para escrever o bilhete e disse que voltariam no dia seguinte para resolver aquele dilema. Entraram no carro e partiram. ¶ A volta foi mais tranquila, apesar de terem ficado caladas durante o percurso. — Olívia — Sabryna não era disso, mas decidiu puxar assunto com a sua mãe biológica —, como era o Érico naquela época? — Ah, Sabryna, era tão bonito. Érico e eu morávamos na mesma rua desde pequenos — relatou Olívia. — Ele já era apaixonado por mim, eu só tinha quatorze anos, ele já tinha dezoito. — Que absurdo — comentou Sarah, mas não olhava para elas, observava o percurso de volta para casa. — Érico vivia pedindo aos meus pais para deixarem ele casar comigo, mas ele era tão p***e quanto eu, e com dezoito anos começou a se envolver no mundo da bebedeira. Óbvio que os meus pais não deixaram, queriam me entregar para um homem que tivesse condições de me sustentar — Olívia fez uma pausa antes de continuar. — Depois te um tempo, os meus pais pegaram dengue e morreram na casa onde a gente morava. Naquele momento, eu implorei para o Érico aparecer e me levar dali, ninguém podia ficar comigo, a pobreza assolava a nossa comunidade. Daí que uma mulher conhecida apareceu, eu me lembrava dela, era amante do meu pai, e ela me levou para a sua casa que era bem perto da minha. Ela era p********a e me obrigou a me vender com quatorze anos. Eu era virgem, não sabia de nada da vida. Quando Érico soube, a praga só chegava atrasado, ele foi atrás de mim e implorou para a amante do meu pai me entregar para ele. Ele tinha colocado a melhor roupa e disse ter muito dinheiro e que queria me sustentar, a mulher cobrou a ele um valor absurdo, contou que as virgens eram mais caras, então, ele disse querer comprar a minha virgindade. Sabe, ele foi muito gentil comigo, fez de tudo para não me machucar, falou que eu teria a melhor experiência que ele podia dar, e cumpriu. Mas ele não tinha dinheiro nenhum, e quando descobriram, a mulher chamou o dono e os capangas espancaram o Érico. Ela precisava de dinheiro, e eu seria a sua galinha de ovos de ouro, disse ela, a única virgem que existia naquele lugar. Érico quase morreu, eu que não deixei, prometi a ela que seria a sua melhor p********a se deixassem ele viver, aquela mulher confiou nas minhas palavras e eu também cumpri com o que disse. Depois de um tempo, eu descobri estar grávida, fiz aniversário de quinze anos em vinte e dois de janeiro. Eu pensei que a mulher faria de tudo para que eu perdesse você, Sabryna, mas foi ao contrário, ela me ajudou durante toda a minha gravidez, cuidou de mim e me levou para o hospital na hora do parto em oitenta e sete, porém, ela disse que eu não poderia ficar com você, eu não tive escolha, tive que te entregar para a adoção, Érico não apareceu e já estavam me dando pressa. Depois daí, a minha vida na prostituição começou de verdade. Umas três vezes Érico tentou me tirar de lá, mas não teve sucesso, também, começou a se afundar na cachaça e agora é isso aí que vimos hoje, um alcoólatra. — E a p********a que te acolheu? — Sarah quem havia perguntado. — Onde ela está? — Ah! Ela morreu esfaqueada. — Nossa! Nunca ouvi histórias tão horríveis assim em Uberlândia. — Só não te dou uma resposta grosseira porque você é minha chefe agora. — Por que mudou de ideia? — perguntou Sarah, mas a curiosidade de Sabryna que seria sanada. — Por que veio atrás da Sabryna? — Porque depois daquele dia que ela foi lá, eu senti uma coisa dentro de mim que não sei explicar, só sei que me senti mais viva, creio que não morrerei agora, tenho fé. Acredito que ainda tenho o que fazer na Terra, Sabryna me trouxe um novo propósito para permanecer. — Olívia olhou para Sabryna com muito apreço. — Obrigada, Sabryna, você me salvou. — Ai! Que lindo — Sarah secava as lágrimas do rosto com a mão. Sabryna contentou-se muito com as palavras da sua mãe biológica, e a abraçou com muita força. — Sabryna, eu sei que não estou curada — disse Olívia —, mas eu lembro que você me disse que me trariam a cura. Como? — Não posso dizer, sinto muito. — São traficantes? É por isso que a Sarah é tão rica? Sarah gargalhou com a ideia de Olívia. — Não, mulher — respondeu Sarah. — O melhor que você precisa fazer agora é o seu trabalho, não se preocupe com mais nada. Nós podemos tudo, até onde a nossa mão pode alcançar. Agora, você devia parar de fumar. — Aí, já pediu demais. Não consigo parar de fumar. Sabryna olhou nós olhos de Olívia e disse: — Pare! Olívia abriu a boca para explicar que já tentou, que teve reações da abstinência, que surtou, e vez ou outra voltava a fumar, porque deixar um vício não era tão fácil, mas não conseguiu dizer nada, apenas sentir as palavras da sua filha entrarem no seu interior e mexerem com o seu ser. Olívia uniu as sobrancelhas a se perguntar: "O que são essas meninas?" Sarah voltou a gargalhar. ¶ Em casa tudo estava normal, Sarah voltou para a loja e levou a Olívia consigo, ajeitaria tudo para ela começar a trabalhar. Felizmente, Olívia tinha todos os documentos necessários, exceto histórico escolar, chegou a concluir apenas o ensino fundamental. Mas Sarah a ajudaria nessa questão também. No dia seguinte, elas iriam voltar para onde deixaram o Érico, pai biológico de Sabryna, estavam em pendência com ele. De qualquer maneira, Sabryna sentia-se realizada. Finalmente conheceu o seu pai biológico. Sarah havia voltado depois que anoiteceu, tinha um assunto inacabado com a Allogaj e chamou todas as feiticeiras para se reunirem no quarto. — Sabryna — disse Belisa depois que a Allogaj contou o seu sonho peculiar para todas —, o seu dom da projeção astral te levou até ao Reino de Sabanth, na Prisão Dimensional, atrás do Obelisco dos Vinte e Quatro Anciões. Você teve o seu primeiro contato com os nomes dos Allogajs, isso pode significar que o seu destino está traçado com os deles. — Concordo — disse Leiane —, mas ela foi questionada por um Ancião antes de despertar. Isto é importante ponderar, o Ancião a viu, ela pode se encontrar com ele também futuramente. — Agora — Gisele tomou a fala —, ela conseguiu ver o Cesar, mas não viu a Valéria. Isso significa alguma coisa? — Pode ser que o Cesar seja aliado de Sabryna — sugeriu Aurira que nunca deixava de estar do lado da Allogaj, causava até mesmo ciúmes na irmã —, já que Valéria era adepta dos Treulimas. — Gente — Sarah chamou atenção das garotas —, para que tanta teoria? Foquem mais na questão dos Anciões, porque se Sabryna tiver que enfrentá-los, eu tenho oitenta por cento de certeza que ela vai perder. — É impressão minha ou você está fazendo com que a gente não pense no lixo da sua amiga Valéria? — questionou Leiane de maneira debochada. — Deixe de besteira, garota. — Garota não, o meu nome é Leiane. — E Valéria tinha este mesmo comportamento. — Não interessa, se ela aparecer na minha frente, eu derrubo ela num golpe só. — Você não seria páreo para ela, ela é uma Allogaj, esqueceu? — E daí? Ela desarmada é só uma humana inútil. — Não queira pagar para ver, Leiane. — Você continua defendendo ela. Se ela algum dia sair da Prisão, que apodreça lá, aposto que você vai correndo atrás dela e nos deixar de lado. — Agora você está me julgando. Eu não sou traidora. — Diga isso para Kanahlic. — Do que é que você está falando? Você nem estava lá, não sabe o que aconteceu, não sabe o que eu passei. — Sou renegada há muito mais tempo que você, fui convertida contra a minha própria v*****e pelos meus pais quando eu era criança, e quando me tornei das cinzas, os meus pais me abandonaram, quem me acolheu foi o Feiticeiro Mascarado. Eu moro com ele em Dorbis há muito tempo, eu sei de toda a história. — Não sabe não, ingrata. Se não fosse por minha ajuda, Kanahlic estaria até hoje no trono, muito mais pessoas teriam morrido, vocês me devem respeito. Por causa da minha ajuda estão aqui, eu sempre ajudo e é isso que eu recebo em troca. Se não fosse por mim, Valéria seria muito pior do que é, por isso eu falo dela com todo o direito que tenho. Se vocês estão desconfiadas de mim, então, digam logo que não me querem com vocês, eu simplesmente vou embora. — Ela tem razão — disse Fong. — E você só está defendendo ela porque são amigas de dons, duas insuportáveis — gritou Leiane. — Gente, que contenda é essa? — comentou Gisele a segurar o riso. — Já chega! — gritou Fabiana. — Chega, vocês. Agora, sim, perdemos o foco. Meninas, por favor, estamos todas do mesmo lado, lutando por uma mesma causa... Ai! Que preguiça de fazer um discurso otimista e motivacional. Olha só, eu sou a líder, sou a porta-voz deste g***o de feiticeiras, então sou eu quem dá as ordens por aqui e digo que acabou o assunto, e da próxima vez, eu levo tudo para o Feiticeiro Mascarado e vai ser pior ter que ouvir sermões dele. Vocês sabem como ele é — depois disso, ninguém mais ousou falar nada. — Acho bom. Sarah, não vá embora, precisamos de você, somos muito gratas. — Obrigada! — agradeceu Sarah de nariz empinado. — E o resto de vocês, vão dormir logo, porque pressinto que amanhã será um dia cansativo. — Ainda são oito horas da noite — protestou Leiane. — Vão dormir! — gritou Fabiana e encerrou o assunto e cada uma se ajeitou para tentar pegar no sono. Sabryna acompanhou Sarah até a porta da casa. — Sabryna — disse Sarah —, você confia em mim, não é? — Sim — Sabryna nem hesitou em responder. — Mesmo depois de ter me bloqueado para não usar o meu dom com você, mas não vamos falar sobre isso. Olha, a minha história no mundo mágico não começou muito bem. Eu sei que me envolvi em alguns assuntos que acabou acarretando o desequilíbrio do Cosmos por causa da supremacia das trevas, mas houve momentos em que eu não tinha muitas opções boas, eu tive que tomar muitas atitudes julgadas indignas, porém, tudo foi para um bem maior. Nem sei porque estou me justificando, você conhece toda a minha história, eu já te contei tudo. Eu sei que ninguém disse nada contra Leiane porque concordam com ela, e a Fong é tão passiva que até esquecem que ela existe, ela só fala com audácia quando é o próprio dom que a briga a isso. Olha, quando vocês forem para Dorbis, eu não vou com vocês, estou cansada do mundo mágico, cansada de lutar, estou há mais de dois anos entrando e saindo de guerras desde que me envolvi com o Reino de Ic, já perdi tantos amigos e amigas e conhecidos, eu mesma já morri duas vezes... E agora que tenho estabilidade de vida, não quero trocar por nada. Eu só quero paz, você me entende? Não deixe que me julguem pelo meu passado... E presente. O que eu quero dizer é que eu sei o que está em jogo e eu nunca fiz nada que não fosse para um bem maior. Mas agora estou fora desta guerra, não vou com vocês, mesmo que desconfiem de mim, não posso mais fazer isto. — Tudo bem, fique aqui e ajude as minhas mães e o meu pai. Eu confio em você. — Ai! — Sarah se emocionou. — Sabryna, você é ótima — ela a abraçou. — Como é bom falar com você. Faça o seguinte, vá para o mundo mágico e o salve do que quer que precise salvar, já faço até ideia do que seja, e volte aqui com a cura para a sua mãe, certo!? Fique viva, enquanto você viver, ela viverá. Sarah e Sabryna se despediram. Para a Allogaj, seria perfeito que Sarah ficasse por lá, a sua mãe não teria mais ninguém além dela quando partissem, ou quem sabe da Karen, como estudava a noite na faculdade, sempre que podia, apareceria por lá pela manhã ou tarde, Dona Fátima e ela tornaram-se muito amigas.
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