Capítulo 15

2815 Words
Era manhã de terça-feira e Sabryna já estava de pé às seis horas. Ela tomou um banho e tomou o seu café, agora a sua dispensa só vivia cheia. Sarah teve que comprar uma geladeira nova porque a antiga estava bem enferrujada e não tinha espaço para conter os alimentos. Sabryna se olhou no espelho da sala, as meninas garantiram que ela nunca mais permitiria que o seu cabelo ficasse desarrumado, então passou a cuidar mais dele. Assim que terminou o que tinha que fazer, em menos de trinta minutos já estava pronta para sair e encontrou a Leiane do lado de fora da casa com os olhos fechados e o rosto erguido para o leste. Por isso achou estranho a porta não estar trancada. — Bom dia! — saudou Sabryna com a voz bem fraca, soou quase rouca pelo fato de ela ter acordado e não ter usado a voz para nada. Nem a refeição aqueceu direito as suas pregas vocais, apesar de ter comido pouco. — Que o seu dia seja... — começou a falar Leiane. — Ah! É o modo dorbiano de saudar. Para onde vai? — Trabalhar. — É mesmo, esqueci. Como eu não percebi que você sumia todas as manhãs? — Porque você só acorda uma hora da tarde. — Acho que outra pessoa falaria isso de maneira negativa. — Sabryna seu de ombros e Leiane continuou: — Posso ir com você? Sabryna demorou um pouco para responder. — Pode — ela sabia que podia, mas analisou se queria que a garota a acompanhasse no dia. — Então vamos, pode ir na nossa frente. Sabryna, então, continuou o seu percurso diário e Leiane a seguiu. Andavam em direção ao ponto de ônibus, onde Sabryna pegaria o transporte e em vinte minutos chegaria ao seu destino, à residência da Professora Linda. — Acordou cedo hoje — falou Sabryna, se ela passaria algumas horas ao lado de uma pessoa, seria bom que elas conversassem, não era de puxar assunto, mas quando puxava. Pelo menos, a pessoa continuava a falar e ela não precisava dizer muito. — Olha, até eu fiquei surpresa, não sei de onde é que vem tanto cansaço. Eu aproveitei o sol para repôr as energias. O sol é a fonte de toda energia e vida, sabia? — Sim — respondeu Sabryna. — Em Dorbis, o pessoal das luzes renova as suas energias pelo dia, enquanto o pessoal das trevas renovam pela noite. Nós das cinzas repomos em qualquer hora, principalmente no crepúsculo, seja no nascer do sol, ou no entrar da lua. Apesar de tudo, infelizmente não existem muitos feiticeiros e feiticeiras das cinzas tão possantes em magia, quando surgem, são tão poucos que dá para contar no mundo todo. Somente do Reino de Ic surgiram os mais poderosos, tanto que Lidarred e Escálius foram magos reais. São nossos inspiradores. — Por que são tão poucos os feiticeiros das cinzas possantes em magia? — Dizem que é porque desequilibramos o Cosmos, então isso nos afeta, mas eu não acredito nisso. O Feiticeiro Mascarado disse que o motivo é pelo fato de dividirmos espaço no nosso cerne com as duas magias, ou seja, todo feiticeiro usa cem por cento do seu dom, esse "dom" se refere à capacidade de usar a magia que nos foi passada de geração para geração, por isso nos chamamos Admunus, e quem não tem o dom é chamado Immunus, contudo, nós das cinzas possuímos a Magia das Trevas e das Luzes, nesse caso, temos cinquenta por cento de cada uma para fechar cem por cento. O caso dos poderosos das cinzas é que eles conseguem usar cem por cento das duas magias, equivalendo a duzentos por cento de magia, por isso são tão venerados e, ao mesmo tempo, repudiados, acreditam que isso é um erro e todo erro desequilibra qualquer coisa. Apesar de Lidarred ter sido um ícone no mundo inteiro, era considerado desequilibrado, tanto que o seu melhor amigo, o Grande Rei Ic, o matou por não suportar mais as "loucuras" que ele aprontou no Reino. Sarah nos contou o que a v***a da Valéria descobriu quando conseguiu chegar ao Covil Secreto de Lidarred, que ele era autista. Depois ela própria o diagnosticou com Síndrome de Asperger. — O que é esta Síndrome? — Ela explicou lá, mas eu não prestei atenção, não me interessei em ouvir na hora. Eu posso não ter muita empatia por ela pelo fato de ela ter muita empatia pela v***a da Valéria, parece que ela vai nos trair a qualquer momento, mas eu não n**o que ela é muito inteligente. O signo do zodíaco de Sarah é de Gêmeos, então está explicado o porquê, mas deve ser por este mesmo motivo que eu não confio nela. Esse pessoal de Gêmeos não é confiável. Sabryna achou muito radical da parte de Leiane julgar as pessoas pelos signos do zodíaco, pensava que aquilo era muito infantil, mas não diria nada porque era muito tímida para isso, fora que também estaria a fazer um julgamento, então decidiu mudar de assunto. Chegaram ao ponto de ônibus onde havia somente dois rapazes sentados. — Lidarred era m*l? — Bem, Sabryna, Lidarred era um cientista da magia, o maior de todos e mundialmente conhecido. Tudo o que ele fazia era em prol das suas pesquisas e experiências, tanto que ele escreveu o livro mais perigoso do mundo, o Livro dos Segredos da Magia do Universo. Lidarred era tão poderoso que até fundou um clã legitimado no Reino de Ic, os Capas Vermelhas, conseguiram até mesmo patentear o uso de uma cor vermelha específica, somente eles podem usar aquela cor. É um vermelho bem vivo e quem usar e não constar que faz parte do clã, pode responder por um tipo de processo, mas isso é d no Reino. Curiosamente, aceitam pouquíssimos feiticeiros das cinzas, na verdade, se tiver, é um ou dois, o resto é tudo das trevas. Por isso são poucos os feiticeiros das cinzas que o veneram, os feiticeiros das trevas gosta mais dele. Mesmo depois de tudo, o pessoal do Castelo insiste em dizer que ele era um das luzes extremamente poderoso, apesar de ser óbvio que não era, também estar na sua linhagem. Por que a história é sempre m*l contada? Nem mesmo Lidarred conseguiu fugir do preconceito. O mundo ainda mantém a ideia arcaica de que você tem que ser ou das trevas, ou das luzes, se você for nenhum dos dois, você é isolado de todos, também sofrem preconceitos, mas se você for os dois, o seu sofrimento é dobrado. A gente ouvia cada coisa, passava por cada uma que a v*****e era de desistir da vida. Graças aos Trealtas que o Feiticeiro Mascarado existe, senão estaríamos como os antigos feiticeiros das cinzas, ou desmagnificados, ou presos, ou mortos. Sabe, Kanahlic prezava o pessoal das cinzas, mas só queria usá-lo ao seu favor, ao contrário de Zadahtric, que despreza e quer nos erradicar. Parece que o certo é o errado. Sabryna, desejava fazer várias perguntas, mas queria sentar para ouvir mais sobre o mago das cinzas que o mundo venerava, apesar de o próprio mundo menosprezar a sua categoria de humanos mágicos. — Por que o Livro de Lidarred é perigoso? — Porque contém segredos da Magia do Universo, além de vários outros fatores. Quem ler, se torna outra pessoa, adquire um conhecimento qual não existe em nenhum outro livro de magia do mundo, além disso, o Livro testa a sua lealdade para saber se você não vai compartilhar com mais ninguém o que descobrir. O livro é tão poderoso que age sozinho, ele se transforma, é indestrutível, fala com você, pode até te manipular e manipular a sua realidade. Ouvi dizer que a neta de Lidarred conseguiu usá-lo com maestria já que ela tinha o dom da Manipulação, mas o livro não revelou todos os segredos para ela porque não a considerou digna, provavelmente iria dar com a língua nos dentes, era uma espiã e a sua função era basicamente fazer fofocas para a Rainha Zadahtric, a nossa arqui-inimiga e perseguidora. Ninguém sabe como Lidarred conseguiu fabricar o Livro, somente o Grande Rei Ic, mas ele é uma estrela agora, é incomunicável, na verdade, dá para falar com as estrelas, mas não teríamos respostas satisfatórias para as nossas perguntas. Os Vinte e Quatro Anciões de Dorbis têm um grandíssimo arsenal de objetos mágicos únicos, mas nunca conseguiram ter a posse do Livro que tanto querem, ele sempre fugiu deles. Já tentaram ter posse da Adaga que Fere e Cura e do Medalhão de Cronos também, ambos criados por Lidarred, mas... No ponto, a conversa foi interrompida porque duas irmãs gêmeas pararam bem de frente para elas. — Olha só quem está na rua, Emely — disse uma. — A esquisita — disse a outra. Assim que Emely ofendeu Sabryna, Leiane olhou-lhes como se fosse fulminá-las, mas foi ignorada porque as gêmeas focavam no seu alvo. Elas riam e debocharam. Acordavam cedo para fazerem caminhada, estavam de cabelo amarrado e transpiravam muito. — Percebeu que ela arrumou o cabelo? — indagou a gêmea chamada Evelyn. — O que será que aconteceu? Ela não tem dinheiro para nada, eu fiz ela perder o emprego. Provavelmente deve estar se prostituindo. — Com certeza está se prostituindo, Evelyn, tem até roupa nova, mas continua ridícula. Nessa hora, Leiane se controlou de todas as maneiras porque os seus ânimos estavam à flor da pele, tanto que cerrou os punhos com muita força. — E quem é esta outra esquisita que está com você? A sua namorada? — disse Evelyn, tudo o que Leiane queria era ser notada. — Querida, cara f**a para mim, é fome que você está sentindo — ela se voltou para Sabryna. — Você deve saber muito bem o que é isso, se não gastou todo o dinheiro da prostituição com o seu cabelo, compre um pão para a sua namorada. Quando Evelyn tocou numa madeixa do cabelo de Sabryna, imediatamente Leiane segurou o braço dela, e com muita força. — Não toque nela — disse a feiticeira a pôr-se de pé, era menor que as gêmeas, porém, era mais forte. Ela falou em tom de ameaça, mas as gêmeas eram soberbas demais e não se intimidaram. — Me solte, sua p**a — gritou Evelyn a puxar o próprio braço de maneira abrupta. — Quem você pensa que é? Evelyn usou a mão direita para desferir um tabefe no rosto de Leiane, mas a feiticeira usou o braço esquerdo para proteger o rosto e com a mão direita cerrada, socou o maxilar de Evelyn e a fez cair no chão um segundo depois com a boca quebrada. — Oh! — vaiaram os homens que estavam no ponto, eles riram e aplaudiram a cena, divertiam-se com a cena. Emely, que estava mais perto de Leiane, rapidamente puxou os cabelos cacheados dela a gritar: — Sua vagabunda... No entanto, Leiane girou o braço esquerdo em volta do braço da sua agressora e o pressionou até torcer, quando Emely gritou, com a palma aberta da mão direita, Leiane bateu no rosto dela e ela também caiu no chão com o nariz quebrado. Foi tão rápido que Leiane nem pôde desfrutar da adrenalina, assim que deu um passo para terminar o que as gêmeas começaram, Sabryna a segurou pelo ombro e quando Leiane se virou para encará-la, percebeu que ela expressou a sua tristeza pela primeira vez, e acalmou-se de uma maneira que nem soube explicar. As irmãs gêmeas levantam-se do chão lavadas de sangue e lágrimas e apressaram-se para ficar longe delas. — É por isso que eu não gosto de Gêmeos — disse Leiane por fim como trocadilho. ¶ Não demorou nada para que o ônibus chegasse e elas entrassem para irem à casa da Professora Linda. — Sabryna — disse Leiane para a Allogaj dentro do transporte, agora, Sabryna não expressava nada na sua face —, quem eram aquelas meninas, por que elas disseram aquelas coisas horríveis sobre você? Tenho certeza que você nunca fez nada contra elas. — Sim, nunca fiz. Nós estudávamos juntas durante o ensino médio — foi a única resposta de Sabryna. — Que garotas desprezíveis. Elas sempre foram assim com você? — questionou Leiane e Sabryna confirmou com a cabeça. — Já te agrediram fisicamente? Sabryna negou com a cabeça. — Elas não. — Sabryna — condoeu-se Leiane —, não deixe ninguém atacar você de maneira nenhuma, nunca baixe a guarda. Você é uma garota tão especial, tão pura, tão bonita, por dentro e por fora. Nem consigo imaginar alguém te agredindo, acho que eu mataria. — Não, por favor — pediu Sabryna. Mesmo se Leiane tivesse dito aquilo da boca para fora, Sabryna acreditaria na possibilidade, depois que viu a expressão daquela feiticeira, percebeu que o seu temperamento era muito colérico, mas a sua lealdade era inigualável. — Sabryna, nem me peça para não fazer nada. Eu jamais ficaria de braços cruzados enquanto assistiria alguém te agredir. Acho que nem vou mais deixar você sair sozinha e vou passar a te ensinar alguns golpes para um combate corpo-a-corpo. — Eu não tenho jeito para isso. — Não tem a ver com jeito, a necessidade te mudará, a prática leva à perfeição. Sabryna, é de extrema importância que você saiba se defender sozinha, não que eu esteja jogando nada na sua cara, eu te defenderia com todas as minhas forças. Mas e se eu não estiver por perto? Sabryna, o mundo mágico qual conhecemos é tão c***l quanto este, qual você vive. A necessidade de se defender é tão necessária quanto a de respirar. Você pode se tornar a feiticeira mais poderosa do mundo, mas haverá momentos em que a magia não vai te proteger, tem coisa que a força física vai constar bastante para você sair vitoriosa de uma luta. Sabryna refletiu sobre o que Leiane falava, a feiticeira tinha razão. A Allogaj sabia sobre aquilo, já havia parado para pensar no assunto e não retrocederia do caminho qual o Destino preparou para ela, queria fazer parte das vicissitudes futuras, mas ainda assim, não tinha a intenção de participar de uma luta que fosse machucar alguém ao ponto de gerar sequelas físicas ou levar à morte. Pelo menos, não queria sujar as próprias mãos. Após refletir, Sabryna olhou para Leiane e fez o que fazia de melhor, mudou de assunto: — Leiane, o que é Cosmos? — Hein? Leiane havia dado a mesma resposta que Aurira, disse que não sabia responder, e mesmo não gostando da telepata, admitiu que Sarah era perfeita para respondê-la. Sabryna gostava de Sarah, nem sabia por que ainda não havia feito aquela pergunta para ela. O problema era que Sarah falava tanta coisa, fora que Afrima tinha tantos assuntos para ensiná-la também, que Sabryna se esquecia das questões mais simples. Chegaram à residência da Professora Linda. A mulher amou a visita de Leiane e gostou ainda mais de saber que Sabryna tinha uma amiga. Leiane ficou curiosa para ver o que Sabryna fazia, qual era a função de uma diarista. Linda saía todas as manhãs para ir trabalhar e pela tarde descansava um pouco para em seguida receber mais visitas até a noite, e depois descansava de novo. Como era muito ocupada, não tinha muito tempo, ou disposição, para limpar e arrumar a casa, fora que muita gente entrava e saía de lá, então, a diarista fazia aquilo por ela. Mesmo sendo bancada por Sarah, que era uma das pessoas mais ricas de Feira de Santana, Sabryna não queria apegar-se àquilo, preferia trabalhar para ter o que era seu dignamente e não se encostar em favores, mesmo que tenham sido de bom grado, sem pedir nada em troca. Aquilo fazia com que Sabryna fosse ainda mais admirada pelas feiticeiras na sua casa. A Professora Linda foi embora e voltaria para casa na hora do almoço. O serviço que Sabryna fazia não era nada árduo, então sempre terminava vários minutos antes da hora e o seu tempo de ócio, ela usava par ler porque a casa da Professora parecia uma biblioteca, tinha livros espalhados por todos os lados. Como Leiane estava lá com ela, o serviço acabou mais rápido que o normal e as duas foram ler para passar o tempo. Leiane até preparou um lanche para elas e Sabryna ficou bastante acanhada, fora que já tinha comido antes de sair de casa e só sentiria fome exatamente por volta do meio-dia. Leiane teve que comer tudo, não que fosse um sacrifício para ela. Quando a Professora chegou, as duas garotas liam tranquilamente no seu gabinete qual a própria deu total liberdade para que elas entrassem e lessem os livros que quisessem. No fim, despediram-se e as garotas foram para casa, m*l podiam esperar para relatar os acontecimentos do dia. Há algum tempo que não contavam uma aventura.
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