Sabryna e Leiane voltaram para casa, chegaram ao meio-dia e trinta e um minutos. Assim que se aproximaram da porta, ouviram a voz de Sarah a perguntar se a Allogaj havia chegado. Sabryna imaginou que, o motivo da pergunta devia-se ao fato de que voltariam para Baraúna atrás de Érico, o seu pai biológico, porém, elas marcaram para uma hora da tarde.
— Acabou de chegar — anunciou Fabiana assim que Sabryna, calada, entrou na casa.
— Graças aos céus, você está aqui — disse Sarah ao se virar para encarar a garota. — Estão todas aqui, não é? Muito bem, feiticeiras, vocês terão que partir, agora — Sarah olhou fixamente para Fabiana, que era a líder daquele g***o de mulheres.
— Hã? — indagou Fátima. — Precisa mesmo ser agora? — ela ficou profundamente entristecida.
— O que houve? — perguntou Sabryna por causa do tom de voz da telepata.
— Lembram quando vocês relataram que luvas-de-prata sobrevoavam por esta área? Bem, a pessoa que eles procuravam tinha ido para a minha casa e está lá fora esperando Sabryna permitir que ele entre. A sua magia de p******o é muito forte, Sabryna, até para ele. E ele não consegue entrar aqui de não for por meio de magia.
— Quem é ele? — quem perguntou fora a Dona Fátima, as demais já sabiam de quem se tratava.
— Dona Fátima, lembrei agora que a senhora n******e testemunhar mais nada a partir de agora, mentes de Immunus não são seguras. Sinto muito.
A mulher começou a chorar.
— Não chore mãe, eu volto para a senhora — disse Sabryna.
— Eu não quero que você vá, por que você tem que ir? — soluçou Dona Fátima.
— Eu também não quero ir agora, tenho pendências aqui. Mas esta é a hora de eu enfrentar o meu destino.
— Eu não posso ir com vocês?
— n******e — respondeu Sarah para Dona Fátima. — É perigoso para uma senhora Immunus como tu. Eu também não vou com elas, Sabryna e eu já conversamos sobre isto, estarei sempre aqui para lhe fazer companhia. Svenante — Sarah lançou um feitiço na mulher que ficou fraca até desmaiar.
As meninas apressaram-se para segurá-la e repousá-la tranquila no sofá.
— Sarah — repreendeu Fabiana —, você nem deixou elas de despedirem.
— Agora é tarde, não temos mais tempo, Sabryna, agora é com você — sem mais, nem menos, Sarah deu às costas e saiu da casa. Ela foi procurar o pai biológico de Sabryna, cuidaria de tudo enquanto ela estivesse longe.
Daí esperaram. Sabryna se concentrou para permitir que a casa fosse desbloqueada, e de repente, um homem muito grande e muito forte entrou a atravessar a parede como se não houvesse nada ali, ele usava uma roupa de couro de mamute, tinha cabelos pretos e longos penteados para trás e usava uma máscara branca oval e sinistra. Ele era tão grande que não passaria na porta de maneira não mágica.
Oito mulheres encaravam o homem que, de repente, fez uma reverência e as mulheres o copiou, exceto Sabryna. Não conhecia os costumes.
Elas disseram em uníssono antes de levantarem:
"Salve, Grão-Mestre.
Ele apenas levantou a mão direita, a qual segurava o seu bastão mágico.
— Salve, feiticeiras — ele olhou para Sabryna. — Então, você é a Allogaj Sabryna — afirmou o Feiticeiro Mascarado, ele tinha uma voz tão grave que fez as paredes da sala vibrarem, porém, estava abafada devido ao uso da máscara. — Estou surpreso, mesmo a Sarah já ter me relatado algumas coisas mais importantes — como Sabryna não disse nada, ele encarou a porta-voz Fabiana. — Por que vocês demoraram para voltarem? Pensei que tinha perdido vocês e pelo visto, estão há um bom tempo na companhia da Allogaj.
— Grão-Mestre — respondeu Fabiana —, nós julgamos melhor ensinar algumas coisas para a Allogaj antes de voltarmos. Me perdoe.
— Não há o que perdoar, filhas, vocês fizeram muito bem, mas precisamos voltar para Dorbis imediatamente. Ao consultarmos o futuro através da Magia do Porvir, descobrimos que os Vinte e Quatro Anciões fecharão os portais interplanetários, o único modo de vir para cá seria através do portal, não mais clandestino, da Caverna de Agolar que está sob o predomínio da própria Organização agora.
— Então vamos — disse Fabiana —, sem demora. Vamos para o quarto para ficar mais fácil de fazer o ritual.
— Depressa, o tempo está curto, peguem tudo o que for necessário — ordenou o Grão-Mestre.
Tudo acontecia tão rápido, retiraram do quarto todos os móveis e objetos para aproveitarem o máximo de espaço. O Feiticeiro Mascarado fez um círculo de areia no chão e todas as mulheres entraram. Depois o Grão-Mestre começou o ritual para fazerem a travessia.
Sabryna ficou nervosa, era o momento mais esperado da sua vida desde que conheceu a magia e soube que havia um mundo onde ela era praticada com toda a liberdade. O Grão-Mestre bateu a ponta inferior do seu bastão mágico no chão e um vórtice de fumaça cinza tomou, praticamente, todo o quarto, já que o círculo de areia no chão era bastante largo para caber todo mundo, fora que o Feiticeiro Mascarado era tão grande que a sua cabeça praticamente encostava no teto quando ele caminhava.
¶
— Tchauzinho — gritou Karen para o seu motorista. Como de costume, ela visitava Sabryna pela tarde, às vezes trazia algumas guloseimas para ela e para a Dona Fátima.
Ela fez amizade com algumas feiticeiras, mas não lembrava o motivo de a casa de Sabryna estar cheia de mulheres, mas jamais saberia que fora enfeitiçada e as suas memórias foram alteradas.
Toda vez que chagava lá, batia na porta e chamava por Dona Fátima ou por Sabryna, mas dessa vez, inconscientemente, ela pôs a mão na maçaneta e a abriu.
— UÉ? — sussurrou para si própria. — A porta está aberta.
Karen entrou na casa e encontrou a Dona Fátima a dormir no sofá, então fechou a porta bem devagar para não acordá-la, mas sentia alguma coisa estranha no ambiente, a casa estava curiosamente quieta e não se via as mulheres que ficavam diariamente espalhadas pela casa. Ela caminhou na ponta do pé e ao virar-se para a esquerda, viu os móveis e objetos do quarto de Sabryna todos espalhados e fora do lugar.
"O que será que estão aprontando?", pensou Karen.
Ela caminhou com bastante cautela para o quarto da garota e começou a ouvir alguns murmúrios, então encostou o ouvido na porta e percebeu que os murmúrios eram palavras quais ela não compreendia, fora que soava de uma voz masculina e muito grave.
"Que palhaçada está acontecendo aí?", por impulso, tomada pela curiosidade, Karen abriu a porta e entrou no quarto com toda a determinação para questionar sobre o que ouvia, mas ela entrou num vórtice de fumaça acinzentada.
Karen levantou o dedo indicador para o alto e abriu a boca para falar alguma coisa, mas se sentiu debaixo d'água e não conseguia falar nada, sem ouvir, nem ver, apenas fumaça havia ao seu redor. Os seus cabelos e roupas flutuaram como se ela estivesse submergindo para as profundezas do oceano. Depois, a fumaça se esmaeceu e tudo voltou ao normal, porém, ela estava numa pequena clareira no meio de uma floresta de árvores gigantes e diante dela estava a Sabryna, as suas sete amigas novas e um homem enorme que usava uma máscara sinistra.
— Mas... — foi tudo o que Karen pôde dizer para expressar a sua confusão, por fim, ela revirou os olhos antes de fechá-los e caiu desmaiada no chão.
— Quem é essa? — perguntou o Grão-Mestre.
Sabryna nem teve tempo para se deslumbrar com a sua primeira travessia de um portal para outro mundo, teve que correr para socorrer a sua amiga. Ajoelhou-se no chão e repousou a cabeça dela no seu colo.
— Gente — falou como um pedido de socorro.
— Acalme-se, Sabryna, ela está viva e está bem — respondeu Fabiana. — Esta é a reação de uma pessoa não mágica quando passa por um portal desta magnitude — Fabiana voltou-se para o Feiticeiro Mascarado. — Grão-Mestre, esta Immunus é a Karen, já era amiga da Allogaj antes de nós, a única.
— Esta Immunus tem um espírito muito forte — falou o Grão-Mestre —, ela permaneceu consciência por alguns segundos após ter atravessado o seu, provavelmente, primeiro portal interplanetário.
— Foi o que observei — disse Gisele. — Temos um recorde aqui.
— Ela n******e ficar aqui — disse Sabryna a se preocupar com a garota. — Não é perigoso?
— Eu a levarei de volta — disse o Grão-Mestre —, será mais rápido.
O Feiticeiro Mascarado aproximou-se de Karen e Sabryna se afastou para dar espaço, porém, assim que fez todo o ritual, ajoelhou-se ao lado dela e uma espiral de fumaça começou a se formar, de repente, o céu daquele mundo estremeceu e uma onda de luz, como relâmpago, passou pelo zênite e o nadir tão rápido que arrepiou as entranhas de cada humano mágico do planeta.
A fumaça dissipou-se e o Grão-Mestre ainda continuou lá, ao lado do corpo desmaiado da Immunus.
— Maldição — praguejou o Feiticeiro Mascarado. — Os Anciões bloquearam os portais antes do tempo previsto. Por pouco eu fico preso na Terra.
— E agora? — sussurrou Sabryna.
— Não fique preocupada, Allogaj, eu vou escondê-la no Mundo Etéreo, lá ela estará a salvo — o Grão-Mestre estendeu a mão para o alto e retirou de lugar nenhum uma gargantilha com um pingente de uma pedra que parecia uma esmeralda e tinha formato de gota. — Ponha nela — pedia a Sabryna.
Assim que Sabryna, delicadamente, colocou a gargantilha na sua amiga, o Grão-Mestre lançou sobre ela um raio cósmico que se espalhou por todo o seu corpo e começou a ficar transparente até a jovem desacordada sumir.
— Está feito, agora vamos.
¶
No Castelo do Reino de Ic o dia estava normal. As Feiticeiras Prodígios estudavam na grande biblioteca, todas sentadas numa mesma mesa redonda de madeira repleta de livros e pergaminhos. Das doze feiticeiras, restaram oito: Layra, a porta-voz, Lubini, a metamorfo, Aina, Bala, Vesta, Fama, Terza e Bris. Infelizmente, Dulca e Zera foram mortas pela Allogaj Valéria quando estava dominada pela influência dos Treumilas, já Talita tornou-se a Suma-Sacerdotisa de Dorbis, agora era uma mulher muito ocupada e pouco acessível, e Naty fugiu para ajudar o Feiticeiro Mascarado a lutar contra o reinado da atual Rainha de Ic.
Elas foram pegas de surpresa quando um estrondo muito forte abalou as estruturas do céu e da terra.
— O que foi isso? — perguntou Aina. — Pareceu obra dos Anciões.
— E foi — confirmou Layra. — Bloquearam alguma magia.
— O que será? — questionou Bala.
— Lubini, tenta adivinhar — pediu Layra —, você é a mais sensitiva de todas nós.
Com isso, Lubini fechou o seu livro e também os olhos, depois se concentrou bastante até responder:
— Eles bloquearam os portais interplanetários.
— Que novidade — comentou Terza sem ânimo algum.
— Por que eles sempre bloqueiam os portais interplanetários? — quis saber Vesta.
— Obviamente, não querem que o pessoal da Terra venha mais para cá — disse Bris. — Toda vez que eles bloqueiam alguma coisa é porque consultavam a Magia do Porvir para saberem o que acontecerá no futuro e tentam corrigir o que julgam errado. Toda vez que o pessoal da Terra veio para cá, causaram reboliço.
— O futuro está em constante mudança — disse Fama.
— Sim, Fama — continuou Bris —, por isso eles continuam com os bloqueios. Não é novidade para ninguém que eles querem controlar tudo.
— Se pudessem — comentou Layra —, cancelavam a Ordem dos Magos e os Sacerdotes do Templo dos Trealtas para atuarem sozinhos na Organização Mundial da Magia do Universo.
As outras meninas riram daquele comentário. Sem esperar, a Rainha Zadahtric entrou no recinto vestida com o seu magnífico vestido e tinha um cetro real nas mãos. As Feiticeiras Prodígios ficaram de pé e a reverenciaram.
— Layranet, venha comigo — chamou Zadahtric e deu às costas para ir embora.
Layra se apressou em segui-la, enquanto as outras apenas especulavam por que a Rainha foi pessoalmente chamar uma mera jovem aprendiz de mestre do Castelo. Devia ser muito importante.
— Layranet, ainda não conseguiram encontrar a Natybinle? — perguntou a Rainha. — Já fazem meses que ela está desaparecida.
— Não, Majestade. Já abordamos este assunto nas reuniões passadas. Presumimos que ela fugiu para viver a sua vida isolada de tudo, era o que sempre diziam para nós. Ela não fez diferente do Érrio — Layra falou do rapaz de propósito, sabia que aquilo iria mexer com a Rainha, já que ele era o seu único amigo.
— Há uma diferença, Érrio foi localizado, mas a Naty não.
— Feitiço de ocultamento.
— Ela não teria tanto poder, alguém mais poderoso deve der feito o feitiço.
— Pode ter sido um Potensis — Layra fazia de tudo para que Zadahtric não ligasse os pontos e chegasse a uma conclusão que fosse correta.
— Também não, senão saberíamos, todo abençoado pode ser sentido, eles têm características mágicas distintas na sua Emissão. É alguém que conquistou o seu poder ao longo do tempo.
Qualquer pessoa que tenha conquistado poder sem o auxílio de qualquer outro elemento que não tenha sido muito estudo e prática, era bastante prestigiado na sociedade.
Layra decidiu não responder mais, pensou que Zadahtric iria persuadi-la a revelar o paradeiro de Naty, pois, foi tudo ideia dela. Zadahtric não podia nem sonhar que as prodígios encontraram o Medalhão de Cronos e mandaram para o Feiticeiro Mascarado devido às especulações de Cesar sobre ele.
Depois daquele pequeno diálogo, Zadahtric apenas andou pelos corredores do Castelo e Layra a seguia, algumas pessoas a reverenciavam e ela ignorava. Chegaram até a uma área isolada e sem saída, porém, Zadahtric retirou um molho de chaves e escolheu uma bem diferente das demais, encaixou em alguma fechadura que somente apareceu quando a chave foi aproximada, e uma porta de pedra se abriu.
A Rainha ordenou que Layra entrasse. Layra estava apreensiva, com medo e sozinha com a Rainha psicopata, mas a obedeceu. O corredor escuro depois daquele porta secreta foi iluminado por várias tochas que se acenderam magicamente. Assim que Zadahtric entrou, a porta de pedra se fechou e ela ficou de frente para a porta-voz.
— Majestade? — indagou Layra preocupada com a situação em que estava.
Mas inesperadamente, Zadahtric desfaleceu, desfez aquela expressão e compostura de mulher séria e imponente e jogou-se nos ombros da garota.
— Oh! Layra, eu preciso te mostrar uma coisa. Escondo um segredo que me consome todos os dias e tenho tanto temor de ser julgada se descobrirem. Mas eu não vejo outra opção. Se o que a Lubinini me revelou sobre o futuro for verdade, vou precisar de toda a ajuda possível.
"Ela não faz ideia do quanto é julgada somente por respirar", pensou a prodígio.
— Majestade — dessa vez, o tom de voz da prodígio foi de empatia, apesar de já a ter perdido há muito tempo.
Layra entendia que a Rainha estava sem amigos, tudo o que tinha eram súditos e aliados e não sabia em quem confiar, além de tudo, as únicas pessoas quais ela poderia depositar a sua confiança estavam tão distantes quanto perto, as Feiticeiras Prodígios. A Rainha sentia que as meninas não a tratavam mais como antes, era uma formalidade tão exagerada que parecia que se viam pela primeira vez. Até mesmo para uma pessoa do naipe de Zadahtric, era frustrante.
De repente, Zadahtric pegou na mão direita de Layra e disse:
— Layranet, vincule a sua promessa com magia, você n******e quebrar. Não estou desconfiada da sua lealdade, mas o que vou te mostrar pode deixá-la confusa.
Layra não tinha escolha, ela nem queria ter contato com a Rainha, que dirás guardar um segredo dela, como se fossem bem íntimas para isso. O que quer que Zadahtric lhe mostrasse, precisaria manter o segredo, ou então morreria. Assim que a magia fluiu, a promessa foi vinculada.
— Feito, Majestade.
— Então, continue a me seguir... — a Rainha continuou a falar e lamentando enquanto Layra pensava quantas passagens secretas existia naquele Castelo. Elas pararam no fim do corredor onde havia apenas outra parede de pedras, porém, era mais arredondada. — Está preparada?
Zadahtric nem esperou a garota dizer que sim, ela fez um gesto com a mão e a parede desmanchou-se. À medida que um brilho azul-celeste iluminava o rosto de Layra, os seus olhos se arregalavam.