Capítulo 04

1294 Words
Heros Narrando Acordei com o sol rachando no coco e a Cecília pulando em cima de mim, como sempre. — Acorda, papai. Vamos tomar leite com Nescau. Ela tava animada, parecia até que era o aniversário dela. Abracei minha cria, beijei o rostinho dela todo, e fiquei ali deitado mais uns minutos, só ouvindo ela tagarelar. Minha paz, meu mundinho. Mas hoje era dia de movimento. Levantei, tomei um banho, coloquei uma bermuda camuflada, regata preta, corrente no pescoço, e fui deixar a pequena com a Bastiana. — Olha ela direito, tia. E nada de doce escondido, hein? Já falei. — Relaxa, Heros. Vai curtir com teu irmão, que aqui tá tudo sob controle. Dei um beijo na testa da Cecília e desci. O morro tava vivo. O calor do Rio batendo forte, o cheiro de churrasco já começando a subir das casas, e os moleque tudo no corre pra deixar tudo no grau. Hoje é niver do Fumaça, meu irmão, meu sub, meu sangue. Trinta anos, Carälho! Merecia baile mesmo, daqueles pra entrar pra história. Passei na boca primeiro. A laje já tava sendo montada com mesa de isopor, churrasqueira improvisada e os cria já puxando carne e latão. Autorizei tudo: — Churrasquinho liberado, mas nada de vacilo. Hoje é dia de festa, pörra. Um dos moleque gritou: — É ISSO, HEROS. O COMPLEXO VAI FERVER. Fiquei ali de olho, trocando ideia com os parceiro, rindo, fumando um. Clima de favela feliz, tá ligado? Fumaça colou cedo, já no pique, camisa aberta, corrente dourada no peito e um sorriso que não saía da cara. — Carälho, trintão, vïado, Já tá com a lombar doendo? — brinquei. — Vai te füder, pörra. Quem tá ficando velho é tu, que tem filha — ele respondeu rindo. A gente se abraçou forte. A conexão que eu tenho com ele é föda. Já passamos por cada parada junto, só a gente sabe. Fumaça pegou uma breja e falou: — Kelly foi buscar uma amiga no aeroporto, tu acredita? — Que pörra de amiga é essa? De onde essa doida arrumou alguém pra buscar no Galeão hoje? — perguntei já desconfiado. — É uma baiana. Vem passar um tempo aqui no complexo, parece. Tava mäl das ideia lá na cidade dela, Kelly que puxou. Dei um gole na minha breja, já com o radar ligado. — Baiana? Já vi que vai dar Mërda, Fica de olho nessa pörra aí. Já mete a visão se for biscate, aproveitadora, essas pörra. — Relaxa, irmão. Kelly é ligeira. E se a mina for vacilona, a gente corta na hora. Balancei a cabeça, mas continuei com aquilo na mente. Se tem uma coisa que eu aprendi, é que quem vem de fora sempre esconde alguma coisa. O dia passou voando. Os moleque finalizaram a montagem do som no campinho. Palco montado, camarote das cocota fechado, luz de led e até fogos. MC de nome confirmado. Balão liberado. Hoje o bagulho vai ser papo de curtição nível hard. Fiquei na quebrada mais um tempo, desenrolando umas fitas, cumprimentando a rapaziada. Fumaça tava sendo tratado como rei. Todo mundo queria brindar com ele. No finalzinho da tarde, fui pra casa me trocar. Coloquei uma bermuda jeans escura, camisa preta colada no corpo, pra mostrar o braço, né pai? tênis branco limpinho, corrente reforçada e o perfume que até as casadas se jogam. Olhei no espelho e dei aquele sorrisinho torto. — Hoje vai ter mamada no cantinho, certeza. Desci, já no pique. O céu cheio de estrelas, aquela noite bonita de ver, e o som no fundo já começando a tremer as telhas. Cheguei no campinho e tava tudo no grau. Os moleque fazendo segurança, copo girando, mina dançando no canto, e o palco pronto pra explodir. Encostei na lateral do camarote dos cria, abri uma latinha e fiquei observando. Gosto de ver tudo antes de mergulhar. Sou da curtição, mas nunca desarmo. Fumaça me mandou mensagem, avisando que já tava chegando — Heros. A mina chegou, A baiana, vamos levar ela. Fica esperto. Dei aquele sorrisinho maroto, mas já tava afiado. — Pode deixar, irmão, Tô curioso pra conhecer essa tal de baiana aí. Se for gostosa, já sabe. Vou arrastar pro matadouro ou não me chamo Heros, quero testar se é de boa ou não. E ali, com o copo na mão e o fervo começando, eu já sabia: A quebrada ia pegar fogo. Já tava tudo fervendo. Os grave batendo no peito, os balão girando no ar, mina dançando de shortinho e copo voando de mão em mão. Eu tava ali, encostado na grade do camarote, rindo com os cria, mas com o olhar atento. Hoje era meu território, tudo tinha que passar pelo meu crivo. Aí Kelly apareceu vindo lá de baixo, com um sorrisão na cara e uma morena do lado que me fez perder o ar por dois segundos. Ela vinha de calça jeans colada no corpo, daquelas que modela até pensamento. Blusa tomara que caia, preta, realçando os peïtos no ponto. O cabelão preto batia na cintura, liso igual água de cachoeira, e quando virou de lado, vi que o braço dela era todo tatuado. Carälho. A primeira coisa que meu corpo fez foi dar aquele sinal lá embaixo, tá ligado? Meu paü se ajeitou sozinho na bermuda, como quem diz "é essa". Cheguei a rir por dentro. — Pörra, Kelly, cê trouxe uma deusa do Pelourinho ou veio direto do céu? Fumaça me cutucou rindo: — Aí, Heros, abaixa a bola, doidão. Essa aí é visita da Kelly, fica pianinho. — Visita é o Carälho. Essa aí vai visitar meu colchão se continuar me olhando desse jeito. Ela não olhou muito, não. Veio andando meio tímida, mas com pose de quem sabe que é gostosa. A calça apertada marcando tudo, a cinturinha fina, e aquele olhar de quem já sofreu na vida mas não perdeu o brilho. Quando passou perto, o cheiro da pele dela bateu no meu nariz, juro por Deus, me deu um arrepio no corpo inteiro. — Ih, füdeu. Essa Baiana vai dar trabalho. Kelly me apresentou rapidinho. — Renata, esse aqui é o Heros, dono do morro e meu cunhado. Heros, essa é a minha amiga de Salvador, chegou hoje. Estendi a mão. Ela olhou desconfiada, mas apertou. A mão dela era macia, mas o olhar era firme. A mina tem cicatriz na alma, eu reconheço de longe. — Satisfação Renata, cê já chegou e incendiou o baile. Se prepara que hoje tem história. Ela riu de canto, um sorrisinho meio debochado. O tipo de risada que mexe com ego de homem. — Tô só de passagem, vim só pra distrair. — Aqui a gente distrai de várias formas. Fica à vontade, mas cuidado, viu? Que o campo aqui é minado. Ela sorriu de novo e seguiu com a Kelly pro camarote das cocota. Fiquei observando enquanto ela subia a escadinha de madeira com a bünda rebolando sutil, mas firme. Cada passo que ela dava, meu desejo aumentava. Fumaça veio no meu ouvido: — Desencosta, Heros. A mina veio toda quebrada, Kelly me falou. Não vai na sede. — Só quero saber quem foi o filha da püta p**a que destruiu um mulherão desses, porque, parceiro, essa mulher tá transbordando dor. Eu sinto. E quando a dor é forte, o prazer é maior ainda. Fiquei ali parado, vendo a baiana beber uma latinha e dar risada com a Kelly, toda natural, toda simples, mas com uma presença que botava qualquer piriguete no chinelo. Meu sangue já tava fervendo. Hoje era baile do Fumaça, mas quem vai fazer história nessa pörra era eu e essa mulher aí. Só me restava o momento certo. E eu sou mestre em esperar a hora de atacar.
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