Renata Narrando
Tem gente que olha pra mim e pensa: “essa daí nunca sofreu na vida”.
Só porque eu tô sempre sorrindo, solto uma piada ou outra, brinco com todo mundo e chego nos lugares de cabeça erguida.
Mas ninguém faz ideia do que eu carrego no peito.
Meu nome é Renata, tenho 25 anos, sou baiana, morena, com as costas fechadas de tatuagem, e cabelo preto, liso e longo que bate na minha cintura. Tenho 1,70 de altura, corpo de quem ama se cuidar, porque além de formada em Educação Física, sou viciada numa endorfina.
Meu jeito é leve, sou risonha, sou de dar bom dia até pro porteiro m*l-humorado do prédio. Sempre fui assim, desde menina.
Mas isso nunca me impediu de apanhar da vida.
Eu namorei com o Alex por cinco anos.
Cinco.
Não foram cinco semanas, nem cinco meses. Foram anos de planos, construção e sonhos compartilhados. A gente ficou noivo, financiamos um apartamento juntos, todo mobiliado, festa de casamento paga, vestido escolhido, convite impresso. Tava tudo certo.
Minha irmã Rosana, mais nova que eu, ia ser uma das minhas madrinhas.
Tava tudo pronto pra dar certo, até tudo desmoronar.
Quem me abriu os olhos foi minha prima, Gabi.
Ela me chamou no canto e soltou:
— Rê, escuta o que eu vou te dizer. Fala baixo. Mas abre teu olho com o Alex.
Na hora eu ri, disse que ela tava maluca. Mas ela insistiu, contou que viu umas conversas estranhas no celular da Rosana enquanto a gente tava num churrasco de família.
No começo, achei que era ciúme bobo. Só que aí meu coração apertou. Mulher sente, né?
Decidi seguir meu instinto.
Montei meu plano, discreta. Fiquei esperta. E numa quinta-feira qualquer, depois de fingir que ia dar aula numa academia nova, segui os dois.
Meu coração tava disparado, minha respiração curta.
E eu vi. Com esses olhos que a terra ainda vai comer.
Eles saindo de um motel, no carro dele, os vidros baixos e o cabelo dela molhado.
Minha irmã mais nova.
Senti o mundo me dar um soco na boca do estômago.
Foi um grito engasgado, uma raiva que veio de dentro e queimou até o último fio de cabelo.
Fui pra frente do carro, xinguei, chutei o carro, peguei um pedra e quebrei o parabrisa com uma pedrada só.
Acabei o noivado ali mesmo.
Voltei pra casa com sangue nos olhos.
Anunciei os móveis no grupo de compra e venda da cidade inteira.
Sofá, geladeira, mesa de jantar, cama box queen, tudo foi vendido em dois dias.
Fiquei só com minha dignidade. E com a dor.
Entrei com advogado, exigi minha parte no apartamento.
Eu suei pra pagar aquilo ali, e ele não ia ficar com tudo não.
Começou a guerra.
Processo, briga, audiência, ameaças.
Do lado de lá, só mentira e cinismo. Do lado de cá, só firmeza.
E a Rosana? Pra mim, morreu.
Não existe mais.
Ela sabia tudo que eu sentia, sabia da minha história com o Alex, sabia do meu sonho de casar, e mesmo assim me apunhalou com gosto.
O que mais me destruiu não foi só a traição. Foi o abandono.
Minha mãe ficou contra mim.
Disse que eu tava exagerando, que família era mais importante, que homem nenhum valia uma briga entre irmãs. Ninguém ficou do meu lado. Ninguém.
Mas eu sou acostumada com isso. Desde pequena, aprendi a engolir o choro com a cabeça em pé.
Colocar o melhor sorriso no rosto enquanto enfio a dor no bolso. Sigo em frente. Sempre.
A vida me deu muita porrada, mas nunca me arrancou a alegria.
Eu ainda sou aquela que dança ouvindo música no fone de ouvido, que ri alto vendo meme, que dá bom dia pro sol todo dia.
Mas confesso, dessa vez tá doendo mais do que eu achei que doeria.
Ver todo mundo virando a cara, me pintando de vilã, me chamando de ingrata, enquanto a traíra da minha irmã passa de santa, é um soco diário. Mas o mundo gira.
E Deus vê tudo.
Foi numa dessas noites de dor silenciosa, sozinha no quarto vazio, que decidi abrir meu coração pra uma amiga virtual que fiz nas redes sociais.
Ela mora no Rio de Janeiro, é dessas mulher favelada arretada, gente boa, conselheira, me fez rir em dias que eu só queria sumir.
Contei tudo. Cada detalhe.
Kelly ficou chocada, claro. Mas não me julgou. Me ouviu.
E no fim disse assim:
— Rê, por que tu não vem passar uns dias aqui no Complexo? Muda de ares, conhece o Rio, quem sabe até recomeça por aqui.
Eu ri. No começo achei loucura. Mas depois pensei, por que não?
A minha vida em Salvador virou um campo de batalha.
Não tem mais nada me segurando.
Meu coração precisa respirar.
E eu ainda sou jovem, ainda sou leve, ainda sou dona de mim.
Então, tô indo.
Mala feita, passagem comprada.
O que me espera no Rio eu não sei.
Mas se for pra recomeçar, que seja com sol, com mar, com alegria.
E quem sabe, só quem sabe, até com uma paixão nova no caminho.
O avião mäl tocou o solo e meu coração já tava acelerado.
Era estranho, um medo bom, sabe? Aquele friozinho na barriga que não te paralisa, mas te empurra pra frente.
Desci com a mochila nas costas, minha mala de rodinhas atrás e a alma pronta pra recomeçar.
O aeroporto do Galeão parecia um formigueiro de gente indo e vindo, e eu ali no meio, procurando um rosto conhecido.
Quer dizer, conhecido só pela tela do celular.
E lá estava ela: Kelly.
Sorriso aberto, cabelo preso no alto, brinco de argola, short jeans, top colado e uma sandália plataforma que eu juro que aumentava uns 10cm nela. Ela veio andando rápido, já com os braços abertos.
— Minha baianinhaaa! — gritou, chamando atenção até dos seguranças do aeroporto.
Eu ri alto, igual b***a.
Foi automático.
A gente se abraçou forte, tipo velha amiga que se reencontra.
Cheiro de perfume doce misturado com o calor do Rio.
— Menina, cê é ainda mais gata pessoalmente — ela disse, me olhando de cima a baixo.
— E você é uma figura — respondi, rindo.
A conexão foi instantânea. Não teve tempo de estranheza.
Pegamos um carro de aplicativo e fomos direto pro Complexo.
No caminho, Kelly foi me contando as coisas.
A voz dela é elétrica, parece que toma energético de manhã, além de lindíssima.
— Tô tão feliz que tu veio, de verdade. Aqui é quente, é barulhento, é cheio de vida. Vai gostar, Rê. E ó, já vou avisando: hoje é niver do meu namorado, vai rolar baile lá no alto. Vai ser pesadão, só os cria, som estourando, bebida, funk pesadão.
— Eita, Já fui intimada? — brinquei.
— Intimada, convocada e ameaçada, minha filha. Tu vai, sim. Vamo te arrumar, fazer aquele cabelo bater no popô, e meter dança até o chão.
Eu ri tanto que até esqueci por alguns minutos do caos que deixei em Salvador.
Chegamos no Complexo.
As ruas eram movimentadas, crianças brincando descalças, gente no portão, música saindo das janelas, cheiro de churrasco vindo de algum canto.
— Chegamos — Kelly anunciou, com a leveza de quem nasceu ali.
Meu coração disparou de novo. Era um mundo novo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não parecia ameaçador.
Parecia, vida começando de novo.