Carol Nunca pensei que voltaria a ver a sirene tão de perto. O estático azul e vermelho refletia nas paredes grafitadas da viela, pintando de urgência cada detalhe do meu mundo. A polícia chegara com sua arrogância institucional, cercando o entroncamento das ruas que pertenciam ao morro. E, pela primeira vez, eu me senti dividida em três partes: filha, esposa e, por um instante curto, simples cidadã sob a lei. Tudo começou no momento em que ouvi o ronco dos motores. Gabriel saiu da escuridão — a silhueta larga, braços cruzados — e caminhou até onde os policiais faziam barricada. Do outro lado, Henrique manteve-se firme, farda impecável, gravata ajustada, postura de quem acredita que pode controlar o mundo com um caneta. Eu, Carol, estava no limiar dos dois universos, sem saber para qual

