Acordei no dia seguinte sem ter dormido de verdade. O corpo estava cansado, mas a mente não desligava. A cena da noite passada não saía da minha cabeça: o barulho seco do tiro, o corpo caindo, o sangue no chão.
Eu tinha matado pela primeira vez.
No espelho do quarto, encarei meu próprio reflexo. Olhos vermelhos, rosto pesado. Uma parte de mim se sentia culpada, como se tivesse cruzado uma linha sem volta. Mas, ao mesmo tempo, outra voz ecoava dentro de mim: “Ou era ele… ou era o Rafa.”
E eu sabia que era verdade. Se eu não tivesse puxado, meu amigo, meu irmão de vida, estaria morto agora. Ainda assim, a culpa queimava por dentro.
Mais tarde, desci até a área de lazer, tentando respirar. Foi quando encontrei a Yasmin. Ela estava de short de treino, cabelo preso, mas o olhar sério mostrava que já sabia de tudo.
— Então… foi você. — ela disse, sem rodeios.
Assenti, evitando encarar direto.
— Foi. Eu não queria… mas se eu não tivesse puxado, o Rafa não tava aqui agora.
Ela se aproximou, apoiando as mãos na mesa, me olhando firme, como se quisesse atravessar minha alma.
— Diego, essa é a vida que você escolheu. Não existe meio-termo. Ontem você salvou meu irmão, mas apagou um inimigo. E isso vai se repetir. Quantas vezes forem necessárias, eu sei que a primeira morte a gente não esquece mas vai por mim, deixa ele enterrado lá do fundo, e segue com a vida- ela me fala serio
Baixei a cabeça, sentindo o peso daquelas palavras, mas espera como assim a primeira morte a gente não esquece, será que ela já passou por isso.
— Eu me sinto culpado. Parece que o rosto dele tá colado na minha mente.E como assim Yasmin a primeira morte não esquecemos- perguntei e ela mordeu os lábios e depois me olhou
Yasmin respirou fundo, depois falou com a frieza de quem já entendeu essa realidade há muito tempo:
— Culpado você estaria se o Rafa tivesse morrido. O que você fez foi o que qualquer homem que segura o morro precisa fazer: escolher. E, daqui pra frente, vai ter que escolher muitas vezes. E sobre mim, eu tenho meu passado Dg, eu não sou uma garota boba ingênua, mesmo meu pai me protegendo, cuidando de mim, e me amando, acabei passando pelo inferno, e ainda não quero falar sobre isso, mas pesadelos e remorso pelo que fizemos, todos nós temos, só precisamos saber como vamos levar isso pra frente, um dia um conto o que eu guardo, mas por agora prefiro enfrentar meus demônios sozinhas-ela me fala e eu concordo
Engoli seco.
— Então é isso? Eu vou carregar isso pro resto da vida? E quando você estiver pronta estarei aqui por você parceira
Ela assentiu.
— Vai. Cada morte, cada decisão. Isso nunca some. Mas é isso que separa os que mandam dos que obedecem. Você não é mais só o amigo do Rafa. Você tá assumindo, mesmo sem perceber, a posição de sub-dono. Isso quer dizer que, a partir de agora, vai ter que se impor. Ser justo, mas duro. Mostrar que você não tá pra brincadeira.
As palavras dela caíram como martelo na minha cabeça. Era como se me arrancassem a última chance de voltar atrás.
— E os inimigos? — perguntei, quase num sussurro.
Yasmin não hesitou.
— Eles vão vir. Quanto mais espaço você conquista, mais gente vai querer te derrubar. Isso é inevitável. O que vai definir se você sobrevive é a forma como você vai se portar. Se for firme, se impor, ninguém vai ousar vacilar contigo. Mas se hesitar, se mostrar fraqueza… vão te engolir.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso da responsabilidade. Eu não tinha escolhido conscientemente ser o “sub-dono”, mas a vida tinha me jogado nessa posição. E agora eu entendia: não dava mais pra recuar.
A Yasmin colocou a mão no meu ombro, com um olhar que misturava dureza e cuidado:
— Você entrou nessa, Diego. Agora vai ter que carregar. Não quero jogar nada em sua cara, só que você escolheu sair da igreja, do que era certo, pra ficar desse caminho errado, e agora vai ter que assumir as consequências, agora não é mas seus pais que assume suas escolhas, é você que faz isso.Mas lembra: ser justo é o que vai manter sua moral. Se impor é o que vai garantir seu respeito. E nunca esquecer que cada morte tem um preço.
Naquele momento, percebi que o rosto do homem que eu matei nunca ia sair da minha mente. Mas, junto com a culpa, nascia também a certeza: se quisesse sobreviver — e conquistar o espaço que já estava sendo entregue a mim — eu teria que aprender a carregar esse peso, até porque foi eu que escolhi a parar de ser o filho do pastor, pra me tornar do que estou me tornando agora, o futuro Sub dono desse morro.
E, pela primeira vez, eu aceitei isso, aceitei que essa é a minha nova vida e que eu tenho que assumir ela.
_ Bom eu vou embora, tenho que fazer um serviço antes do jogo começar, guarda meu lugar, beijos, e fica de boa- Yasmin me fala, me dar um beijo da minha bochecha e sai.
Então eu pego e entro em casa, e vou até o banheiro e tomo um banho, e depois me arrumo, e saio de casa com a minha moto, eu vou ate a padaria, e assim que eu entro todos me olham e eu fico da minha, faço meu pedido pago, pego as coisas e vou até a mesa de fora comer, e quando termino saio de lá, indo pra boca.
Voltar pra boca depois daquela noite foi como atravessar duas vidas ao mesmo tempo: por um lado, o ronco do meu sangue ainda lembrava o estouro da arma; por outro, a rotina ia retomando seu ritmo como se nada tivesse acontecido. Só que eu já não era o mesmo. E eu queria que todo mundo soubesse disso.
Na primeira reunião depois do confronto, olhei direto nos olhos dos meus vapores ali estava o Rafa e o Sombra. Não foi conversa de diplomacia — vai ser mas um aviso.
Quando eu ia começar a falar chegou um vapor ali, fazendo graça me tirando de otario e todos ficaram ali pra ver o que ia acontecer.
_ Você só se acha bandido poderoso, por causa do herdeiro daqui o Rf, você era filhinho de pastor, e agora quer vim se achar aqui, quer pagar de filho revoltado, aqui é o crime e não creme- ele fala rindo
Então sem pensar duas vezes, pego meu revolve, minha ponto 40, e simplesmente atiro em seus dois joelhos, que grita feito mulher.
— Quem tentar tirar o que eu estou construindo, vai pagar do mesmo jeito que esse aí vai pagar, nãovou permitir que ninguem fale do meu pai que é pastor, sobre a minha vida só diz a respeito a mim e a mas ninguem, quem escolheu a vida errado foi eu, e so pra saberem não foi porque eu quero ser um filho rebelde, e sim porque eu escolhi. — falei, voz firme, sem tremor. — E não é papo furado, e ja que aqui é o crime e não creme, ai vai levar cinquenta maderada em cada perna. Vai saber que mexeu com quem não devia, e depois podem levar pra upa- falo e todos me olham, e os meninos saem levando ele
O silêncio que veio a seguir foi pesado. Alguns assentiram como quem aceita a ordem; outros desviaram o olhar. Aqui, ameaça que não vira ação é palavra de vento. Eu sabia disso. Então deixei claro:
— Não vou tolerar ninguém chegando pra tirar meu espaço. Quem fizer, vai ser cobrado. Igual aquele homem. E que todo mundo aqui saiba: eu não tô pra brincadeira.
O Rafa ficou do meu lado, encostado no canto, com o olhar de quem confirma sem precisar falar, assim como o Sombra. Aquilo me deu força. A sensação era estranha — misto de fúria, proteção e uma responsabilidade que pesava no peito. Eu tinha assumido uma posição e, como tal, precisava mostrar que tinha pulso pra mantê-la.
Algumas horas depois, a tensão descontraiu um pouco. A vida no morro gira em ciclos: tensão vira rotina, se transforma em festa, e de novo em tensão. Agora a noite, o Rafa me chamou para o bar do seu João — lugar conhecido, sempre cheio quando tem jogo. Era Flamengo na TV, e o bar estava lotado; a vibração do povo, o calor das torcidas, o cheiro de churrasco e cerveja.
A gente foi com alguns vapores. Os caras já me olhavam diferente — respeito era notório no jeito como se aproximavam, nas brincadeiras de chumbo e nas conversas que eu não precisaria ouvir. Sentei ao lado do Rafa, atrás da mesa que dominava o local. A televisão grande na parede soltava o hino do Flamengo, os torcedores da comunidade vibravam a cada jogada, e por um instante tudo parecia normal: risadas, palmas, gritos.
Mulheres vinham e iam, sorrisos fáceis, olhares insinuantes. Algumas se aproximaram sabendo quem eu era, assim como o Rafa era o herdeiro — pelo rosto, pela fama. Elas sorriam, pediam uma dose, faziam elogios. O Rafa recebia tudo com aquele ar despreocupado de herdeiro. Eu senti as atenções virarem de leve, gente querendo se aproximar por interesses, essas putas querendo patrocínio, querendo que eu as fodesse ali, e depois lhe dava grana, acabei rindo com isso.
No entanto, havia limites invisíveis que ninguém ultrapassava: a Yasmin. Ela estava sentada na mesma mesa, mais recuada, observando com o mesmo olhar duro de sempre. Algumas mulheres passaram por ela com olhares que, na prática, não tinham respeito — sorrisos fáceis, provocações que queriam testar. A Yasmin não sorriu. Não precisava. Seu silêncio já era resposta.
Uma das moças, mais atrevida, deu uma volta e chegou perto do Rafa, encostando a mão no ombro dele como se o lugar fosse dela. Ele sorriu, mas trocou um olhar rápido com a Yasmin. A tensão aumentou.
— Relaxa, irmã. — sussurrei pra Yasmin, como se fosse preciso acalmar. — Se alguém pisar no limite, eu resolvo.
Ela me olhou de canto, com aquele olhar que mede até a alma.
— Faz o que tiver que fazer, Diego. Só não resolve tudo na violência se não for preciso, apesar que eu mesma estou a fim de resolver se caso ficarem me provocando- ela me fala calma e eu acabo sorrindo.
Eu pensei na violência da noite anterior, no sangue no beco, na sensação estranha que veio depois de apertar o gatilho. Mas ali, no bar, com música e cerveja, eu senti também que a imagem que eu precisava passar era clara: aquele espaço era nosso. Quem viesse testar ia entender na hora.
Uma das garotas abriu um sorriso e se aproximou direto de mim, querendo marcar território. Eu sorri de volta, educado, mas firme. Não era interesse; era postura. Algumas falas foram de brincadeira: convite, cuidadinho, cantada boba. Eu deixei que vinham e iam. A descontração do ambiente não tirava da minha cabeça a necessidade de deixar claro o recado.
Quando o Flamengo fez um gol, o bar explodiu em festa. Pulamos, gritamos, a galera nos abraçava, e por um momento aquilo me lembrou que eu ainda podia me permitir pequenas coisas — um gole de cerveja sem passar da conta, uma risada sem sangue no pensamento. Mas não por muito tempo.
No meio da festa, um vapor trouxe a notícia de que havia uns caras da facção rival rondando a boca das ruas abaixo do morro, que ficam foram — só provocação, diziam. O som das conversas baixou. Eu olhei para o Rafa. Ele apertou o copo na mão e sorriu aquele sorriso curto, tenso. A Yasmin permaneceu imóvel, a expressão fechada, as vezes eu penso que a Yasmin sabe mas do que a mesma fala, ela tem um olhar as vezes que deixa qualquer pessoa com medo.
— Se vierem, a gente resolve. — falei alto o bastante pra ser ouvido por quem precisava ouvir. — Ninguém aqui vai aceitar desaforo.
Alguns vapores bateram palma, outros soltaram um “é isso”, como quem endossa um juramento. A noite seguiu, mas com um sabor diferente: a posse anunciada. Eu não precisava provar mais pra mim. Precisava provar pro morro.
Antes de sair, já quase madrugada, uma das mulheres que havia passado por nós fez questão de sussurrar perto do ouvido do Rafa:
_Vocês dois tão muito poderosos hoje, será que eu e a minha amiga podemos levar voces para distrair um pouco-Ele riu e deu uma cutucada em mim:
— É, mano. Tão falando que agora o DG é o cara que manda, e querem una festinha particular- ele me fala e eu n**o com a cabeça.
Eu lembrei da Yasmin ali, quieta, e do que ela me disse: que eu ia ganhar inimigos. Pensei que, se alguém viesse tirar a gente do lugar, a resposta seria dura — e que eu teria que ser justo e calculista, não só sanguinário.
_ Estou de boa, já tenho uma acompanhante e ela está bem ali- falei apontando pra Yasmin que riu e percebi o Rafa fechar cara- Se quiser pode ir com elas- falei e ele concordou
_ Bom melhor assim, sobra mas, boa noite aí pra vocês- ele fala e sai com elas
_ E aí parceira vamos embora, hoje tu dorme lá em casa e pode ficar tranquila sem segundas intenções- falei e ela riu
_ Que pena, porque um cara desse lindo e gostoso, não é pra qualquer uma neh, mas já que não tem intenção vamos lá- ela me fala
E assim saímos pra fora, e o Rafa ainda estava ali perto do seu carro, passamos por ele e a Yasmin mandou um beijo pra ele, dei minha mão e ela subiu, e assim partimos rumo a minha casa.
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