7 DG Narrando

1300 Words
O carro parou duas ruas antes do ponto. O silêncio entre a gente era cortante. O Rafa olhou pra mim rápido, aquele olhar firme, mas eu conseguia sentir que ele também estava no limite da tensão. Era a primeira missão dele como herdeiro sendo testado pelo próprio pai, e a minha chance de mostrar que não era só mais um encostado. Descemos do carro, e os vapores se alinharam atrás da gente. O som das armas sendo engatilhadas parecia mais alto do que qualquer barulho do morro. Cada passo que a gente dava ecoava dentro de mim como se fosse o anúncio de que não tinha mais volta. Chegamos na entrada do beco. O cheiro de maconha no ar, risadas altas e um grupo de homens armados encostados na parede, olhando com deboche. Não eram daqui. Só de bater o olho dava pra perceber que eram rivais. Um deles, alto, tatuagem no pescoço, deu dois passos pra frente. — Olha só quem veio fazer visita… o filhinho do Sombra. — a voz dele saiu carregada de ironia. O Rafa manteve a postura, mão firme na arma, mas sem puxar. — Esse território não é de vocês. O recado é simples: sumam daqui antes que a coisa fique feia. As risadas ecoaram. O clima ficou pesado, e o silêncio que seguiu parecia prestes a explodir. Foi então que vi: um dos rivais, rápido, sacou a arma e apontou direto pro Rafa. Naquele instante, o mundo parou. Eu não pensei, só agi. O som do disparo ainda ecoava na minha cabeça quando percebi o corpo do rival caindo no chão, sangue se espalhando pelo beco. A arma fumegava na minha mão. Eu… eu tinha acabado de matar pela primeira vez. O Rafa virou pra mim, os olhos arregalados, mas não de medo. Era surpresa, era choque, mas também reconhecimento. — Você me salvou, irmão… — ele murmurou, ainda atônito. Antes que a gente pudesse respirar, o caos começou. Os rivais reagiram, tiros cortando o ar, ricocheteando nas paredes. O beco virou um campo de guerra. Os vapores revidaram, e nós nos jogamos atrás de carros e muros, o som ensurdecedor de rajadas de fuzil enchendo tudo. — Cobre a esquerda! — gritou um dos vapores. — Bora, bora, não deixa eles avançarem! — outro berrou. O Rafa puxou a arma e começou a disparar, os olhos queimando em fúria. Eu ainda tremia, mas sabia que não tinha tempo pra pensar no que tinha acabado de fazer. Cada segundo podia ser o último. A gente conseguiu avançar, mas quando começamos a subir de volta pro morro, as motos dos rivais apareceram no fim da rua. O ronco dos motores veio junto com uma nova chuva de tiros. A subida virou um inferno. Balas zunindo perto da cabeça, estilhaços de vidro no ar, gritos ecoando. Corri ao lado do Rafa, atirando de volta, o coração batendo tão rápido que parecia que ia rasgar o peito. Mas, no meio do caos, uma coisa era clara: eu não era mais o mesmo Diego que desceu aquela rua. Porque agora eu sabia como era olhar nos olhos de um homem e ser o responsável por apagar a vida dele. E a sensação… era um misto estranho. O choque da primeira vez, o peso da consciência tentando me esmagar, mas também uma descarga de adrenalina absurda. Como se eu tivesse atravessado uma linha invisível que não tem volta. — Diego, vamo! — o Rafa gritou, puxando meu braço, enquanto os vapores abriam caminho na bala. Subimos correndo, os corpos ainda caídos atrás, o cheiro de pólvora queimando minha garganta. Eu sabia que a missão tinha sido cumprida, que o recado do Sombra tinha sido dado. Mas, dentro de mim, uma nova guerra tinha começado. Porque, a partir dali, eu não era mais só o contador, nem só o amigo do Rafa. Eu era o cara que matou pela primeira vez. E o morro inteiro ia ouvir falar disso. A subida de volta pro morro parecia nunca acabar. O barulho dos tiros ainda ecoava na minha cabeça, mesmo quando o silêncio voltou a dominar as ruas. O coração demorou a desacelerar, as mãos ainda tremiam no gatilho. Eu sabia que tinha passado da linha, e que não tinha volta. Quando chegamos na base, os vapores estavam todos em volta, ansiosos, querendo saber como tinha sido. O Rafa foi o primeiro a falar, a voz firme, quase gritando: — Eles tentaram me pegar… mas o DG segurou. Salvou minha vida. E deixou um no chão. Na hora, o olhar dos moleques mudou. Era como se uma cortina tivesse caído. O respeito que antes era cauteloso virou admiração. Alguns bateram no peito, outros sorriram de canto, como quem reconhece um de verdade. — Esse aí não é só contador não. Esse tá pronto pro corre. — murmurou um dos vapores, e os outros assentiram. Logo o recado chegou até o Sombra. Fomos chamados à presença dele de madrugada, e eu já sabia que aquele encontro ia marcar minha vida. Ele estava sentado na cadeira, como sempre, cigarro aceso e olhar pesado. Quando entramos, o silêncio reinou por alguns segundos. Então, ele falou: — Fiquei sabendo… — tragou fundo, soltando a fumaça devagar. — Que hoje você, DG, mostrou que não tá aqui de enfeite. Que não é só conta e número. É verdade? Engoli seco, mas firmei a voz. — É, patrão. Se eu não tivesse puxado, hoje seu filho não tava aqui. O Sombra olhou pro Rafa, que confirmou com um aceno sério. O chefe então riu baixo, mas não de deboche. Era aquele riso curto, de quem reconhece. — Primeiro sangue nunca se esquece. Agora você já sabe como é, moleque. Bem-vindo ao lado de cá de verdade. Os vapores que estavam na sala balançaram a cabeça em respeito, alguns até bateram palma de leve, como quem celebra uma vitória. Naquele instante, eu senti que algo tinha mudado pra sempre. Mas quando voltei pra casa, sozinho, o silêncio pesou diferente. Deitei na cama, ainda com o cheiro de pólvora no nariz, e encarei o teto por horas. Revivia a cena em looping: o cara sacando a arma pro Rafa, meu dedo puxando o gatilho, o corpo caindo no chão. Era estranho. Uma parte de mim estava em choque, tentando entender o peso de ter apagado uma vida. Outra parte… sentia algo que eu não queria admitir: uma descarga de adrenalina, uma sensação de poder. Como se eu tivesse provado que, de fato, eu era capaz de segurar o peso do morro. Fechei os olhos, mas o rosto do cara que eu matei me perseguiu. E, junto com ele, a voz do Sombra ecoava na minha mente: “Primeiro sangue nunca se esquece.” Eu sabia que aquilo era só o começo, e que eu ainda vou carregar bastante sangue seja ele de gente r**m ou de pessoas inocentes, eu sei que Deus não se agrada do que estou me tornando, mas essa é a minha escolha de agora, e assim com esses pensamentos eu acabei dormindo. Acordei era duas horas da manhã meu corpo suando, e os pesadelos tomando conta de mim, eu vi minha mão cheia de sangue, o buraco da cabeça do inimigo, e o chão cheio de sangue, o cheiro de ferro estava dentro do meu nariz, era como se eu tivesse bebido, aquele sulfato ferroso, onde deixa nossa boca com gosto de puro ferro, então me levantei e tomei um banho da água gelada, e depois de uns minutos sai de lá, só de cueca, acabei fumando um fininho pra pegar do sono, e assim eu consegui dormir outra vez. NÃO DEIXEM DE COMENTAR E TEM DE VOTAR COM BILHETE LUNAR, E PRA QUEM AINDA NAO COLOCOU EM SUA BIBLIOTECA ADICIONA QUE ESTARA ME AJUDANDO.
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