5 Cont Dg

1529 Words
Já faz um mês que estou aqui, e a minha rotina já tá marcada. Acordo cedo, arrumo-me, quando estou saindo o Rafa bate na porta junto com a Yasmin. Então a gente desce para a padaria tomamos o nosso café da manhã, e depois vamos do galpao para treinar: luta, arma, corrida, resistência. O Rafa leva isso a sério, porque sabe que o trono do morro já tem o nome dele. A Yasmin não fica atrás — ela não é só a filha da esposa do Sombra, ela não vive de título. Ela treina pesado, aprende tudo, porque sabe que uma hora pode precisar se defender, apesar que ela meio que se finge neh, porque quando estamos sozinhos só nos dois ela me dar aula viu, mas como a mesma falou ela precisa deixar a mãe e o padrasto como todos os outros que ela não sabe fazer, que está aprendendo, mas esses dias fomos lutar entre nós, e ela ganhou de mim e do Rafael, que ficou todo bravinho já que os vapores riram dele coitado, tem dias que os dois é só amor, mas tem dias que tudo eles brigam, melhor a Yasmin briga com ele, e o mesmo tem sabe o porquê, mas eu já ganhei a cena toda, isso acontece quando ele sai ou deixa alguma garota chegar perto dele. E eu tô ali, no meio dos dois, aprendendo também. Não posso ser o elo fraco, não tem espaço para isso. Se eu quero caminhar ao lado deles, tenho que segurar o mesmo peso, até o meu corpo já mudou, a única coisa que eu não tenho ainda é tatuagens, como o Rafael tem algumas já, a Yasmin tem umas três, mas ela fez quanto morava da Itália com seu pai, o mesmo permitiu para ela fazer. Na boca, o meu papel é outro. Faço a contabilidade, por enquanto divido a sala com o Rafael, que cuida da parte da gestão, o tio Sombra já está lhe ensinando como tem que cuidar do morro, dos moradores, da segurança e tudo mais, já eu cuido do que entra, do que sai, e não pode ter erro. O dinheiro do crime precisa ser organizado. Um número errado pode custar vida. Eu gosto disso, da responsabilidade. Me dá a sensação de estar no controle, mesmo sabendo que, no fundo, ninguém aqui controla nada além do agora. Os vapores tratam a gente com respeito. O Rafa é o herdeiro, todo mundo sabe que logo mais é ele que vai mandar, então qualquer palavra dele já tem peso de ordem. A Yasmin é respeitada também, como filha do Sombra, mas principalmente porque mostrou que não é de enfeite. E comigo, o respeito vem porque eu tô na confiança deles — e, no morro, confiança é moeda rara, só que eu quero e vou conquistar o meu espaço sem pisar em ninguém. Morar aqui mudou a forma como eu enxergo tudo. Do lado de fora, o morro é visto só como violência. Mas, estando dentro, eu vejo as crianças indo para a escola, as mães batalhando, os moleques que viram vapores porque não tem outra chance. E vejo também a força que o Rafa e a Yasmin carregam nos ombros, como se fossem feitos para isso, vejo a luta da tia Iara lá da ONG, indo até as escolas daqui, e da upa daqui vendo o que precisam, o tio Sombra protege todos, e aqui todos os moradores adoram eles, e fora o respeito que cada um tem aqui, o tio Sombra é um dos bandidos mais procurados, só perde para os chefes da facção. Eu? Eu sigo no meu papel. Entre o luxo da casa e a dureza do morro, tentando entender onde exatamente eu me encaixo. Só sei de uma coisa: daqui para frente, não tem mais volta. Morar no morro mudou tudo para mim. Antes eu era só mais um, agora eu sou alguém que a galera olha diferente. No começo, até tinha aquele olhar desconfiado dos vapores, como se eu fosse só o amigo do Rafa, um rebelde encostado aqui. Mas não demorou muito para eles perceberem que eu não vim para brincar, e logo mais vamos sair em missã, os moleques da boca veem que eu tô no mesmo pique, que não sou peso morto. Na parte da contabilidade, o respeito veio rápido. Eu faço os números fecharem, organizo cada centavo, e mostro que comigo não tem erro. Quando o caixa bate, o pessoal comenta. "Esse aí é ligeiro, não deixa nada passar." E no morro, ser confiável é o que abre as portas, já que eu vou me tornar o Sub daqui eu preciso estar da altura, e sim todos os dias eu falo com meus pais. Hoje, quando eu passo na boca, os vapores-me cumprimentam com firmeza. Não é mais aquele olhar de "quem é esse cara?". Agora é “salve, DG, com respeito de quem reconhece. Eu conquistei o meu espaço. Eu sei que muito disso vem porque tô colado no Rafa, mas também sei que não é só por causa dele. O Rafa pode abrir a porta, mas quem sustenta sou eu. E eu tô sustentando. A verdade é que eu gosto dessa vida. Do jeito que o morro respira, da sensação de ser alguém importante aqui dentro. Não sou dono de nada ainda, mas já tenho a minha parte. Já sei que a minha voz vale mais do que valia ontem. E, olhando para a frente, eu sei que esse respeito só vai crescer. Porque no morro não tem espaço para quem não luta. E eu tô lutando, todo o dia, para deixar claro que eu não tô de passagem: eu vim para ficar. O respeito no morro cresce rápido quando você mostra serviço. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, isso ia chamar a atenção de quem realmente importa. Não demorou muito para acontecer, estava aqui trabalhando revisando alguns números da boca e fechar tudo sem erro, recebi o recado: — O Sombra quer falar contigo, assim que você acabar aqui- Vapor me avisa e sai Na hora, senti o peso dessas palavras. O Sombra não é homem de perder tempo com qualquer um. Se ele quer falar, é porque notou. E quando ele nota, pode ser coisa boa… ou teste, aqui ele não me trata com privilégio só porque sou amigo do Rafa, o mesmo já me falou que se eu não consegui fazer o que preciso, ele não vai me deixar virar o sub, pois ele não precisa de alguém emocionado, e sim de alguém que queira proteger e lutar pelos seus aqui. Fui até a casa dele. O portão abriu devagar, e a sensação que deu foi de estar entrando numa fortaleza. O morro inteiro respeita aquele espaço. Entrei, e lá estava ele, sentado, cigarro na mão, olhar firme, como quem já sabe a resposta antes mesmo de perguntar — Diego… — ele começou, soltando a fumaça devagar. — Tenho escutado o seu nome na boca. Dizem que você fecha as contas direitinho. Que não deixa nada escapar. E está conquistando o respeito de todos, assim como meu filho, mas por agora vamos falar de você- ele me fala Engoli seco, mas mantive o olhar firme. — É, patrão. Comigo não tem erro. Número que não fecha é dinheiro perdido. E dinheiro perdido, o senhor sabe… é problema, e bom estou lutando para conquistar o meu lugar- Respondo firme e olhando nos seus olhos Ele soltou uma risada curta, mas sem humor, não é sempre que ele sorrir, sempre se mantém sério em tudo. — Inteligente você. Mas não é só de conta que vive o morro. Quero ver se, além de fazer os números bater, você segura a pressão quando a coisa aperta, porque logo mais teremos uma guerra para enfrentar - ele fala e eu engulo em seco. O meu coração acelerou, mas eu não deixei transparecer. Aqui, fraqueza é sentença. — Pode testar. Sombra. Se eu tô do lado do Rafa e da Yasmin, não é à-toa. Eu sei aonde tô-me metendo, e eu sei o que fazer, quero ajudar a proteger todos aqui- eu falo. Ele me encarou por longos segundos, como se tentasse atravessar o meu peito com o olhar. Depois, assentiu devagar. — Gosto disso. Coragem. Você já conquistou respeito entre os moleques… agora quero ver se merece o meu respeito também. Fica esperto, Diego, ou melhor, Dg. O morro não é só glamour. Aqui, quem vacila, some. _ Eu sei chefe, só agradeço pelo, oportunidade respondo _ É isso garoto, eu tenho uma missão para você e para os outros, mas depois eu falo sobre isso, pode ir descansar- ele fala e faz um toque comigo Saí dali com a sensação de ter passado numa prova, mas sabendo que aquilo era só o começo. Se o Sombra me colocou no radar, é porque ele vai querer-me ver na prática. E, dentro de mim, cresceu uma certeza: eu não vou ser só “o amigo do Rafa”. Eu tô trilhando o meu próprio caminho aqui. NÃO DEIXEM DE COMENTAR MENINAS E TEM DE VOTAR COM BILHETE LUNAR.
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