caminho de volta para casa pareceu mais longo do que o habitual. Eu estava no banco de trás do carro de Pedro, observando pela janela as ruas conhecidas, tentando organizar o turbilhão que ainda ecoava dentro de mim. O cheiro de cloro ainda impregnava meus cabelos, misturado ao perfume doce que eu não queria lembrar. Meu pulso ardia levemente onde ele havia segurado. Não doía de verdade. O que doía era o resto.
Laura e Márcio conversavam baixo no banco ao meu lado, comentando algo sobre a mansão, sobre a piscina enorme, sobre como dona Elena era simpática. Eu respondia com pequenos sorrisos, fingindo normalidade. Aprendi cedo que, às vezes, sobreviver é fingir que nada aconteceu.
Pedro dirigia em silêncio. Ele sempre fora assim quando percebia que algo estava fora do lugar. Como delegado, desenvolveu um olhar que enxergava além das palavras. Não precisava que alguém gritasse para entender que havia algo errado. Bastava um silêncio diferente.
Quando chegamos em casa, Laura e Márcio se despediram rapidamente. Bento ainda não havia voltado do trabalho. Pedro estacionou na garagem, desligou o motor e permaneceu alguns segundos parado, as mãos firmes no volante.
Ana.
Ele não elevou o tom. Não precisava.
Desci do carro sem responder, entrei e deixei a bolsa sobre o aparador da sala. Tirei a saída de praia que ainda vestia sobre o biquíni e caminhei em direção à cozinha para beber água. Minhas mãos estavam frias. Meu coração, não.
Pedro entrou logo depois. Tirou o distintivo da cintura e o colocou sobre a mesa. Ele fazia isso sempre que queria falar como irmão, não como delegado. Um gesto simples, mas carregado de significado.
O que aconteceu?
Peguei o copo, enchi de água e bebi devagar.
Nada.
Ele encostou os braços na bancada e me observou com atenção.
Você sabe que não mente bem.
Suspirei.
Foi só um m*l-entendido.
Com o Theo?
O nome dele no tom firme de Pedro me fez engolir em seco.
Por que você acha que tem a ver com ele?
Pedro inclinou levemente a cabeça.
Porque, desde que aquele garoto apareceu na sua vida, você anda diferente. Porque hoje, na casa dos pais dele, quando eu entrei pelo portão, você evitou olhar para um lado específico da piscina. E porque ele estava com a expressão de quem fez algo que não devia.
Fechei os olhos por um instante. Pedro não tinha visto nada. Ele não sabia do banheiro, do puxão, do beijo roubado. Mas ele sentia.
Não aconteceu nada demais ,repeti, mais para mim do que para ele.
Pedro respirou fundo.
Existe alguma coisa entre você e o Theo?
A pergunta pairou no ar como uma sentença.
Eu pensei no beijo. No desespero nos olhos dele. Na raiva. No tapa. Pensei na forma como ele exigiu que eu o desbloqueasse, como se eu fosse uma extensão da vontade dele.
Não respondi, finalmente. Não existe nada.
Pedro sustentou meu olhar.
E já existiu?
Meu silêncio foi resposta suficiente.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse organizando pensamentos e emoções.
Ana, eu não estou perguntando como delegado. Estou perguntando como seu irmão. Ele te machucou?
Meu coração disparou.
Machucar não era só deixar marcas na pele. Machucar era invadir, confundir, dominar. Era beijar alguém sem permissão e depois agir como se o mundo girasse ao redor do próprio orgulho.
Não falei, firme. Ele não me machucou.
Não da forma que Pedro entenderia.
Pedro se aproximou um pouco mais.
Eu conheço o tipo dele.
Você não conhece.
Conheço, sim. Homens que estão acostumados a ter tudo. Que não sabem ouvir não. Que confundem sentimento com posse.
As palavras de Pedro bateram fundo demais.
Ele não é assim retruquei, rápido demais.
Pedro arqueou a sobrancelha.
Tem certeza?
Eu não tinha.
Lembrei da forma como Theo me segurou. Do tom autoritário quando falou para eu desbloqueá-lo. Do olhar escurecendo ao ver a notificação de Luan no meu celular.
Ciúme.
Controle.
Orgulho.
Mas também lembrei da expressão dele depois do tapa. Perdido. Quase… quebrado.
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos.
Não tem nada entre nós, Pedro. E não vai ter.
Ele me analisou por longos segundos.
Ele gosta de você?
Demorei a responder.
Não sei.
E você?
Essa pergunta foi a mais difícil.
Eu poderia mentir. Poderia dizer que sentia nada. Seria mais fácil. Mais seguro. Mas diante de Pedro, eu nunca consegui mentir completamente.
Eu não sei.
Pedro respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
Ana, eu confio em você. Mas se ele ultrapassar qualquer limite, eu quero saber. Eu não me importo com o sobrenome dele, com o dinheiro da família, com influência nenhuma. Eu sou delegado. E antes disso, sou seu irmão.
Um nó se formou na minha garganta.
Eu sei.
Ele se aproximou e segurou meu queixo com delicadeza, fazendo com que eu o encarasse.
Você não precisa ser forte o tempo todo.
Eu quase ri.
Preciso, sim.
Porque se eu não fosse forte, eu cederia. E eu não podia ceder.
Pedro suspirou.
Bento também já percebeu que tem algo estranho. Ele não comentou porque acha que você falaria quando estivesse pronta. Mas nós dois estamos atentos.
Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa.
Não tem nada para vocês ficarem atentos.
Tem, sim. Tem você.
O silêncio voltou a se instalar entre nós, mas não era pesado. Era protetor.
Pedro pegou o distintivo novamente e o prendeu à cintura.
Só me responde mais uma coisa.
Assenti.
Ele te respeita?
A pergunta ecoou dentro de mim.
Eu pensei no beijo forçado.
Pensei na exigência para desbloqueá-lo.
Pensei na maneira como ele me olhava, como se eu fosse algo que ele precisava conquistar a qualquer custo.
Respeito não deveria doer.
Eu ainda não sei respondi, honesta.
Pedro assentiu devagar.
Então descubra antes de dar qualquer passo.
Ele se afastou, mas antes de sair da cozinha, parou na porta.
Ana… cuidado com homens que dizem amar quando, na verdade, querem vencer.
Fiquei sozinha na cozinha, com o coração acelerado.
Subi para o meu quarto e fechei a porta. Apoiei as costas nela e deslizei até o chão.
Eu não estava apaixonada. Não podia estar.
Mas também não estava indiferente.
O que Theo fazia comigo não era simples. Ele me irritava. Me desafiava. Me confundia. Me fazia querer distância e, ao mesmo tempo, querer respostas.
Passei a mão pelos lábios, lembrando do beijo. O gosto ainda parecia ali, como uma memória teimosa.
Eu não podia permitir que aquilo me abalasse.
Levantei, fui até o banheiro e encarei meu reflexo no espelho.
Você não é fraca sussurrei para mim mesma.
Não seria manipulada.
Não seria um jogo.
Se existisse algo entre mim e Theo, teria que ser construído com respeito. Não com imposição. Não com ciúmes. Não com ameaças veladas.
E, naquele momento, eu não tinha certeza se ele sabia amar sem tentar controlar.
Deitei na cama e olhei para o teto, ouvindo os sons da casa. A presença de Pedro ali embaixo me dava segurança. Saber que ele estava atento me dava força.
Mas a verdade era que aquela batalha não era dele.
Era minha.
E, pela primeira vez, eu percebi que talvez o que mais me assustava não fosse o jeito intenso de Theo.
Era o fato de que, apesar de tudo, uma parte de mim ainda queria acreditar que ele podia ser diferente.