Capítulo 27- Já decidi

1002 Words
Theo Ela vai assinar esse contrato. Pelo irmão, ela vai. O pensamento veio frio, calculado, quase c***l. E ainda assim, mesmo enquanto ele se formava na minha mente, havia algo dentro de mim que se revoltava contra ele. Eu sabia o que estava fazendo. Sabia o caminho que estava escolhendo. E sabia, principalmente, que se cruzasse aquela linha talvez não houvesse volta. Mas quando voltei para a área da piscina e a vi sentada na espreguiçadeira, conversando com Laura, sorrindo como se nada tivesse acontecido, algo dentro de mim endureceu. Ela estava bem. Ela estava rindo. Como se o beijo não tivesse significado nada. Como se o tapa tivesse encerrado a história. Ana Lis passava protetor solar pelos braços, pelos ombros, descendo devagar pelas próprias pernas. O movimento das mãos dela sobre a própria pele fez meu corpo reagir antes que eu pudesse impedir. O sol refletia na água da piscina e iluminava a pele dela de um jeito quase c***l para quem estava tentando manter distância. Eu desviei o olhar por um segundo, mas voltei. Sempre voltava. Enrico se aproximou dela com naturalidade. Ela levantou o rosto para ele, disse algo que não consegui ouvir, e então virou de costas. Entregou o frasco de protetor para ele. Passa para mim? Ele riu, respondeu algo leve, e começou a espalhar o protetor nas costas dela com cuidado. O ciúme veio rápido, denso, sufocante. Do meu próprio irmão. A visão das mãos dele tocando a pele dela fez meu maxilar travar. Era irracional. Enrico nunca ultrapassaria limites. Eu sabia disso. Mas o fato de ela permitir aquele toque simples, tranquilo, público, enquanto havia me afastado como se eu fosse um erro… aquilo me corroía. Os cinco se juntaram depois. Laura, Márcio, Noah, Enrico e ela. Conversavam alto demais, riam alto demais. Aquela felicidade coletiva parecia uma afronta silenciosa ao caos que estava acontecendo dentro de mim. Eu estava de fora. Pela primeira vez, eu era o estranho. O telefone dela tocou. Vi quando ela olhou a tela. O semblante dela mudou levemente, mas se recompôs rápido. Vestiu uma saída por cima do biquíni. Laura e Márcio fizeram o mesmo, como se soubessem que era hora de ir. O portão se abriu. Pedro entrou. Meus pais o reconheceram imediatamente. Cumprimentaram com educação, mas a surpresa veio clara quando descobriram que Ana era irmã dele e de Bento. Minha mãe levou a mão ao peito. Meu pai ficou sério. Eu me aproximei devagar, tentando parecer natural, mas Ana não me olhou. Nem de relance. Enrico percebeu o clima e discretamente se afastou de mim, como se quisesse evitar qualquer confronto ali. Pedro percebeu também. Ele observou tudo com aquele olhar atento de irmão mais velho, mas fingiu naturalidade. Conversamos brevemente. Educação, formalidade, sorrisos contidos. Mas havia tensão no ar. Quando eles foram embora, o silêncio ficou pesado. Assim que a porta se fechou atrás deles, Enrico explodiu. O que você fez, Theo? Por que fez? A voz dele não era só raiva. Era decepção. Não a machuque assim. Eu não respondi de imediato. Fiquei parado no meio da sala, sentindo o peso de cada olhar sobre mim. Meus pais também estavam ali. Observando. Esperando. Eu baixei a cabeça. Eu a amo. As palavras saíram baixas, roucas, quase quebradas. E, pela primeira vez em muitos anos, eu chorei. Não foi um choro escandaloso. Foi silencioso. Contido. Mas inegável. Uma lágrima caiu antes que eu pudesse impedir. Depois outra. Minha mãe levou a mão à boca. Meu pai ficou imóvel. Enrico parou de falar. Eu nunca chorava. Nunca. Meu pai se aproximou primeiro. Colocou a mão firme no meu ombro. Meu filho… ela é uma boa moça. Tem certeza que quer fazer isso? Ele não perguntou sobre o beijo. Nem sobre o tapa. Ele perguntou sobre o contrato. Sobre o plano que eu tinha começado a arquitetar nos bastidores. Minha mãe falou em seguida, com a voz suave, mas preocupada. Theo, cuidado. Ela é o amor dos irmãos. Eu sabia. Pedro e Bento fariam qualquer coisa por ela. E era exatamente por isso que meu plano poderia funcionar. Enrico estava alheio a essa parte. Ele não sabia dos bastidores. E eu não queria que soubesse. Ele já estava decepcionado demais comigo. Eu precisava dela. Mas não daquele jeito. E mesmo assim, eu estava disposto a usar o ponto mais frágil da vida dela. Meu pai suspirou profundamente. No meu aniversário vamos para a casa de praia. Se comporta, Theo. A frase foi simples, mas cheia de significado. Se comporta. Não estraga. Não manipula. Não destrói. Ele saiu da sala depois disso. Minha mãe foi atrás, ainda olhando para mim com uma mistura de carinho e receio. Enrico ficou. Ele me encarou por alguns segundos. Se você fizer algo para prejudicar os irmãos dela, eu fico contra você. A ameaça não era vazia. Ele estava falando sério. Eu apenas assenti. Quando fiquei sozinho, sentei no sofá e passei as mãos pelo rosto. Eu a amo. Repeti mentalmente. Mas amar não justificava tudo. Eu tinha duas opções. Esperar que ela me desse tempo. Ou forçar o destino a me entregar uma chance. A imagem dela rindo na piscina voltou à minha mente. A leveza. A indiferença. O tapa. Ela não tinha medo de mim. E isso me fascinava ainda mais. Peguei o celular. Abri as mensagens. O nome dela não estava mais ali. Bloqueado. Suspirei. Se eu fosse pelo caminho certo, poderia demorar meses para reconquistar a confiança dela. Se eu fosse pelo caminho errado… talvez conseguisse mais rápido. Mas a que custo? Levantei e fui até a varanda. A piscina estava vazia agora. A água calma, como se nada tivesse acontecido. Por fora, tudo parecia tranquilo. Por dentro, eu estava em guerra. Ela vai assinar esse contrato. A frase voltou. Mas dessa vez, junto com outra. E se ela me odiar para sempre? Fechei os olhos. Eu nunca tive medo de perder negócios. Mas estava começando a ter medo de perder ela. E isso era infinitamente mais perigoso.
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