Capítulo 12- Quando o Delegado é Seu Irmão

704 Words
Voltamos da delegacia em silêncio. O peso do que tinha acontecido parecia maior agora que tudo estava oficial. Não era mais só um susto. Existia um boletim, uma investigação, um rosto chorando pedindo desculpas. Entramos em casa e cada um se jogou na cama do meu quarto. Laura estava inquieta. Márcio parecia sério demais. — Eu ainda não acredito que ele fez isso — Laura murmurou. — Eu acredito — respondeu Márcio. — Homem rejeitado vira i****a com facilidade. Revirei os olhos, mas no fundo sabia que aquilo era verdade. Algum tempo depois, ouvimos o som da porta se abrindo. Laura e Márcio se sentaram imediatamente. Pedro. Ele não bateu. Não precisou. A chave girou na fechadura com firmeza, e o silêncio da casa mudou de atmosfera. Passos firmes pelo corredor. Meu coração acelerou. Ele parou na porta do meu quarto e nos encarou. Não estava gritando. Não estava descontrolado. Mas o olhar… O olhar era de delegado. — Vocês dois — ele disse, firme. — Sala. Agora. Laura e Márcio se levantaram quase em posição de sentido. Antes de saírem, Laura me lançou um olhar de “boa sorte”. A porta se fechou. Pedro entrou e ficou parado por alguns segundos me observando. — Senta — ele disse. Eu já estava sentada. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo. — Ana Lis, eu não estou aqui como delegado agora. Estou aqui como seu irmão. Mas você precisa entender uma coisa. Engoli em seco. — Você correu um risco enorme ontem. — Eu sei. — Não. — Ele me interrompeu. — Você não sabe. A firmeza na voz dele não era raiva. Era medo contido. — A boate acionou a polícia porque a situação ficou estranha. Quando o nome apareceu no relatório, era o seu. Você acha que eu descobri por fofoca? Meu coração apertou. Então foi isso. A própria boate. Ele continuou: — Se o Enrico não tivesse chegado rápido… se o Theo não tivesse levado você imediatamente… — Ele travou o maxilar. — Eu nem quero terminar essa frase. Fiquei em silêncio. Ele se aproximou e abaixou um pouco o tom. — Você é adulta, sim. Eu nunca te impedi de viver. Nunca. Mas liberdade não é descuido. — Eu não fui descuidada. Ele arqueou a sobrancelha. — Você deixou seu copo sozinho no balcão. Aquilo me atingiu como um tapa. Ele sabia. Claro que sabia. — Eu… — Minha voz falhou. — Eu só fui ao banheiro. — E voltou para o mesmo copo. O silêncio pesou entre nós. Ele respirou fundo novamente, tentando controlar o próprio temperamento. — Eu prendi o rapaz. Ele vai responder pelo que fez. Mas isso poderia ter terminado muito pior. Meus olhos encheram de lágrimas. — Eu fiquei com medo, Pedro. A rigidez dele quebrou um pouco. Ele se aproximou mais e segurou meu queixo, me fazendo olhar para ele. — Eu também. Aquilo me desmontou. Ele soltou devagar. — Hoje à noite nós vamos conversar todos juntos. Eu, você, Laura e Márcio. Não para brigar. Para estabelecer limites. Assenti. — E outra coisa — ele acrescentou. — Não esconda nada de mim de novo. — Eu não escondi… Ele me interrompeu com um olhar. Eu desviei. Ele estava certo. Eu teria escondido. Ele suspirou. — Eu não vou te prender em casa. Não vou virar seu carcereiro. Mas você precisa ser mais inteligente que isso. — Eu vou ser. Ele ficou me observando por mais alguns segundos, como se quisesse ter certeza. Depois saiu do quarto. Ouvi a voz dele firme na sala conversando com Laura e Márcio. Não estava gritando. Mas estava deixando claro que eles tinham responsabilidade também. Deitei na cama. Meu corpo ainda estava cansado. Minha cabeça, mais ainda. Peguei o celular. Uma mensagem de Theo. “Você está bem mesmo?” Fiquei olhando para a tela. Algo dentro de mim estava diferente. Ontem eu estava furiosa com ele. Hoje… Eu lembrava do pânico no olhar dele. Fechei o celular sem responder. Preciso organizar minha própria cabeça primeiro. Mas uma coisa era certa: Nada mais estava simples. E eu tinha a estranha sensação de que aquela noite na balada tinha sido só o começo de algo muito maior.
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