Acordamos cedo, ainda com sono, consequência das risadas e conversas intermináveis da noite anterior. Márcio e Laura passaram quase a madrugada inteira discutindo por causa de um lençol — um simples lençol — como se fosse questão de vida ou morte. Eu nunca ri tanto.
Estou amando eles.
Apesar da bagunça boa, eu não dormi bem. Minha mente insistia em voltar para o mesmo ponto.
Theo.
O jeito como ele me olhou. A intensidade daqueles olhos verdes. A forma como parecia me observar mesmo quando fingia não estar interessado.
Saí de lá de um jeito estranho… nem me despedi dele.
Será que ele ficou chateado?
Ah, eu nem ligo.
Ou pelo menos é isso que tento convencer a mim mesma.
Levantamos, fizemos nossa higiene, tomamos banho e fomos para a cozinha. Hoje Pedro iria nos levar à universidade. Márcio e Laura ainda não o conheciam pessoalmente, e só de imaginar a reação da Laura eu já começava a rir sozinha.
— Laura…
— Oi, amiga — respondeu ela, ainda com a xícara na mão.
— Hoje meu irmão Pedro vai nos levar para a faculdade.
Ela arregalou os olhos.
— E tem outro que você não me falou? É solteiro? É bonitão também?
Revirei os olhos, rindo.
— Calma, mulher. Ele é solteiro, é bonitão… e é delegado.
Laura levou a mão ao peito dramaticamente.
— Delegado? Será que ele quer me prender? Porque eu aceito ser presa por ele, amiga!
Eu, Márcio e dona Ana começamos a rir alto.
— Vai, Laura, termina teu café. Deixa de ser doida e baixa esse fogo que você tem no meio das pernas — provocou Márcio.
Rimos ainda mais.
A campainha tocou.
Era ele.
— Maninho! — falei, correndo para abraçá-lo.
— Oi, meu amor. Como você está?
— Bem, irmão.
Ele entrou, e percebi o olhar curioso que lançou para Márcio… e para Laura, que estava completamente vidrada nele. Eu quase explodi de tanto rir.
— Maninho, esse é o Márcio, meu amigo, e essa é…
— Prazer, irmão gato da Ana Lis! Eu sou Laura! — ela se adiantou.
Pedro sorriu daquele jeito provocante que ele sabe usar muito bem.
— Muito prazer, Laura.
Ele fez de propósito. Tenho certeza. Laura quase desmaiou.
Rimos novamente.
Fomos para o carro, e antes que eu pudesse reagir, Laura já estava correndo para o banco da frente, ao lado de Pedro.
— Essa menina é maluca — murmurei para Márcio, que ria ao meu lado.
O caminho inteiro foi Laura fazendo perguntas: sobre o trabalho, sobre perigos, sobre prisões, sobre armas. Pedro respondia com paciência, claramente se divertindo.
Eu e Márcio apenas trocávamos olhares cúmplices.
Combinamos de ir a uma balada no sábado.
— Sem bebidas, tá, Ana Lis? — Pedro falou sério pelo retrovisor.
Pisquéi para Márcio.
— Tá certo, maninho.
Que nada. Vou beber um pouco. Não vai me matar.
Chegamos à universidade, e Laura ainda falava sobre Pedro… e sobre Bento.
Empurrei ela de leve.
— Mulher, respira.
Rimos.
Mas o clima mudou de repente.
Quando eu estava perto da sala, ouvi uma voz firme:
— É você, Ana Lis?
Me virei.
Uma garota muito bonita se aproximava. Impecável. Elegante. Fria.
Ela me analisou de cima a baixo.
— Sou Eleonora Petrovich.
Laura murmurou baixinho:
— Quem perguntou?
Ignorei e olhei diretamente para ela.
— Algum problema?
Ela inclinou o queixo.
— Sim. Você.
— Eu?
— Fica longe do meu Enrico.
Meu?
— Seu? — perguntei.
— Vocês namoram por acaso?
Os olhos dela faiscaram.
— Só fica longe dele.
Sustentei o olhar.
— E se eu não ficar?
Ela deu um passo à frente.
— Você não sabe com quem está mexendo.
Eu mantive a calma.
— Você também não sabe com quem está mexendo.
O ar ficou pesado.
E então Enrico apareceu.
— Está acontecendo alguma coisa?
Ele nos olhou, confuso.
Eleonora se apressou:
— Claro que não.
Mas eu não ia deixar barato.
— Ela acabou de me mandar ficar longe de você.
O rosto dela ficou vermelho.
Agora eu sei.
Guerra declarada.
Enrico a encarou.
— Com que direito você pede isso?
Não fiquei para assistir.
Puxei Laura e Márcio.
— Que se resolvam.
Quando chegamos à sala, o burburinho já tinha começado. Comentários sussurrados. Olhares curiosos.
— Pela primeira vez alguém enfrentou a Eleonora — ouvi alguém dizer.
Márcio e Laura começaram a bater palmas discretamente.
— Seremos seus amigos para sempre!
— Você colocou aquela cobra no lugar dela!
Eu ri, mas por dentro senti algo diferente.
Não era medo.
Era pressentimento.
Durante a aula, tentei me concentrar, mas percebia olhares sobre mim. Alguns admirados. Outros cautelosos.
Eleonora não estava acostumada a ser contrariada.
E pessoas assim não deixam barato.
No intervalo, senti meu celular vibrar.
Mensagem desconhecida.
“Você gosta de provocar ou foi só hoje?”
Meu coração deu um salto.
Não tinha nome salvo, mas eu sabia.
Theo.
Olhei ao redor instintivamente.
Ele não estava ali.
Respirei fundo.
Respondi?
Não.
Bloqueei a tela.
Minutos depois, outra mensagem:
“Cuidado.”
Só isso.
Cuidado.
Meu estômago apertou.
Era sobre Eleonora?
Ou sobre ele mesmo?
Levantei o olhar.
E lá estava ele.
Encostado do outro lado do corredor.
Observando.
Aquele olhar verde intenso fixo em mim.
Não era ameaça.
Não era raiva.
Era algo mais perigoso.
Posse.
Meu coração acelerou sem pedir permissão.
Ele não desviou.
E, dessa vez, eu também não.
Se isso é guerra…
Eu não vou correr.
Mas, no fundo, eu sei.
Isso é só o começo.
Derrepente senti
O mundo ao redor pareceu diminuir por alguns segundos. As vozes ficaram distantes. O corredor, silencioso.
Até que Eleonora passou entre nós, quebrando o momento.
Ela me lançou um olhar carregado de promessa.
Não era ameaça vazia.
Era aviso.
Theo acompanhou o movimento dela com os olhos, depois voltou para mim.
Havia algo ali.
Proteção?
Ou controle?
Eu não sabia.
Mas eu sabia de uma coisa: ele não tinha gostado da cena.
E, estranhamente, isso mexeu comigo.
Laura me cutucou.
Ele está olhando para você de novo.
Eu sei.
Amiga… isso não é normal.
Normal definitivamente não era.
A aula seguinte passou arrastada. Eu sentia a energia pesada no ar, como se algo estivesse prestes a acontecer.
Quando saímos da sala, Enrico se aproximou.
Está tudo bem?
Está — respondi.
Ele suspirou.
Desculpa pela Eleonora.
Você não tem culpa.
Ele hesitou por um segundo.
Mas eu resolvo isso.
Resolvo.
A palavra ecoou na minha cabeça.
Ninguém resolve nada por mim.
Eu me resolvo.
Antes que eu pudesse responder, senti novamente aquele olhar.
Theo estava ali.
Mais próximo agora.
Silencioso.
Observando.
Ele não falou nada.
Mas a tensão entre nós dizia tudo.
Enrico percebeu.
Claro que percebeu.
Os dois irmãos se encararam por um instante.
Não foi agressivo.
Foi… silenciosamente competitivo.
E, pela primeira vez, eu entendi.
Não era só Eleonora declarando guerra.
Havia outra disputa começando.
E eu estava no meio.
A gente se vê mais tarde, Enrico disse se despedindo.
Assenti.
Theo continuou parado.
Você devia ter ignorado ,ele falou finalmente.
A voz baixa. Controlada.
Ignorado o quê?
Ela.
Cruzei os braços.
Eu não ignoro quem vem me ameaçar.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Isso pode complicar sua vida aqui.
Isso é um aviso?
É um conselho.
Nos encaramos novamente.
O corredor estava quase vazio agora.
Você sempre tenta controlar tudo? perguntei.
O maxilar dele tensionou.
Eu protejo o que importa.
A frase ficou suspensa entre nós.
Protege o que importa.
E eu não sabia se aquilo incluía a mim.
Eu não preciso de proteção — respondi.
Ele deu um passo mais perto.
Não invasivo.
Mas próximo o suficiente para que eu sentisse o perfume dele.
Todo mundo precisa de proteção em algum momento.
Meu coração acelerou outra vez.
Inclusive você?
Ele ficou em silêncio por um segundo.
Principalmente eu.
Aquilo me pegou desprevenida.
Havia algo ali.
Algo além do homem frio, controlador, dono de metade da universidade.
Algo que ele não mostrava para ninguém.
Laura apareceu atrás de mim.
— Ana, a gente vai se atrasar!
Quebrou o momento.
Theo se afastou um passo.
Mas antes de sair, disse:
— Não responda mensagens de qualquer um.
Arqueei a sobrancelha.
— Isso é sobre Noah?
Ele não respondeu.
Só me olhou daquele jeito intenso outra vez.
E saiu.
Fiquei parada ali por alguns segundos.
Laura me puxou pelo braço.
Mulher! O que foi isso?
Eu nem sabia explicar.
Não era briga.
Não era flerte simples.
Era algo mais profundo.
Mais perigoso.
No caminho para a próxima aula, senti meu celular vibrar novamente.
Dessa vez, mensagem de Noah.
“Foi um prazer te conhecer ontem. Posso te ver hoje?”
Olhei para a tela.
Pensei em Theo.
Pensei no olhar dele.
Pensei na palavra cuidado.
Sorri de leve.
Não por Noah.
Mas pela sensação de que, sem perceber, eu tinha mexido com algo que não deveria.
Guardei o celular sem responder.
O dia seguiu, mas a energia continuava diferente.
Alguns cochichos no corredor.
Alguns olhares de Eleonora atravessando a sala.
E, vez ou outra, os olhos verdes de Theo encontrando os meus.
Não era imaginação.
Era tensão real.
Quando finalmente fui embora, senti que algo tinha mudado.
Não era só o começo de uma rivalidade com Eleonora.
Era o início de algo maior.
Mais intenso.
Mais imprevisível.
E, pela primeira vez desde que cheguei à universidade, eu senti.
Não medo.
Mas expectativa.
Se isso é guerra…
Eu não vou recuar.
Mas, no fundo, uma certeza começava a se formar:
Não é só Eleonora que pode ser perigosa.
Theo também é.
E talvez…
Eu esteja começando a gostar disso.