Theo
É hoje, hoje ela sai do hospital. Eu decido não ir, não mandar mensagem, não ligar. Preciso tirar Ana Lis dos meus pensamentos, preciso me obrigar a seguir em frente. Sei que não sou bom para ela. Cada vez que penso nisso, sinto que só a machuco, que minha presença é uma ameaça disfarçada de cuidado. Respiro fundo, tento me convencer de que seguir é o caminho, mesmo que o coração reclame. Volto ao trabalho. A empresa exige atenção, as reuniões não param, os relatórios se acumulam, e eu tento afogar a lembrança dela no caos diário. Mas por mais que me concentre, cada risada que ecoa nos corredores me lembra dela. Cada mesa, cada sala vazia parece ter a sua sombra.
O telefone toca. Olho a tela. Tábata, minha ex ficante. Ela está na cidade para umas gravações. Sinto um impulso de sair, distrair minha mente, deixar de lado qualquer sensação de responsabilidade emocional. Decido encontrá-la. Não por desejo, não por carinho. Apenas para esquecer Ana Lis, apenas para sentir algo diferente, apenas para tentar calar a voz da minha consciência que não me deixa em paz.
Saio da empresa, o trânsito pesado quase me irrita, mas eu ignoro. Chego em casa, tomo um banho rápido, me visto, escolho roupas que parecem distantes de mim, roupas que escondem a vulnerabilidade que sinto. Sigo para o Fenômenos Bar. Quando entro, encontro Tábata deslumbrante, já sentada, curtindo a música. Ela me vê, sorri, e algo dentro de mim se contrai. Sorrio de volta, mas é um sorriso mecânico, calculado. Vou até ela. Abraçamo-nos. O contato desperta algo que eu queria esquecer. Ela tenta me beijar. Me afasto. Digo com firmeza, sem deixar espaço para dúvidas: não sinto nada. Apenas sexo. Nada mais. Ela aceita.
Bebemos algumas bebidas, a música nos envolve, mas não há conversa real, apenas o som e o movimento do bar. Saímos dali, seguimos para um motel. O sexo é intenso, mas vazio. Há desejo, sim, mas sem conexão. Quando ela, de repente, diz eu te amo, meu peito dispara. Sento-me na cama, me visto lentamente, olho para ela com frieza e digo, firme: não, Tábata, sem sentimentos. Eu não te amo e nunca vou te amar. Ela fica parada, a respiração pesada, os olhos brilhando de uma emoção que não compartilho. Peguei a chave do carro, saí do quarto, saí do motel. E enquanto dirijo na madrugada, a única imagem que me persegue é a de Ana Lis.
Acordo no dia seguinte com o telefone tocando. É Enrico. Atendo de imediato. Sua voz é séria, cortante, quase me acordando de qualquer resquício de sono. É impossível ignorá-lo. É impossível mentir para ele. É impossível negar a realidade.
É sério, Theo? você e a Tábata? Ele pergunta, a irritação evidente, a voz carregada de raiva. Fico confuso, como ele sabia? Antes que eu pudesse raciocinar, continua: está em todos os sites. Theo, fotos de vocês entrando no bar, saindo do motel na madrugada, já estão espalhadas. Estão falando que o casal do ano voltou. A raiva na voz dele é palpável, como uma lâmina afiada cortando o ar.
Sinto meu estômago apertar, a culpa me atingindo de repente. Tento me explicar, gaguejo: Eu... Enrico, eu não... Mas ele interrompe, quase gritando: Não tenta se justificar, Theo! Você não percebe o que está fazendo? Não percebe que Ana Lis sente algo por você ,e você ainda insiste em se mostrar para o mundo de forma irresponsável? Ela acabou de sair do hospital, e você faz isso? Fotos, motel, madrugada! Você enlouqueceu?
Eu respiro fundo, tentando manter o controle, mas as palavras dele reverberam no quarto, ecoam na minha mente. Cada acusação é como um soco silencioso. Sinto raiva de mim mesmo, do impulso que me levou a sair com Tábata, e medo do quanto isso pode afetar Ana Lis.
Ele continua, a voz tremendo de frustração: Você não tem ideia do que significa vê-la frágil, Theo! E você está aí, se envolvendo em... em qualquer coisa! Eu te protejo e você insiste em se colocar em posição de erro! Você é inconsequente, sabia? Isso não tem nada de normal, nada de justificável.
Sento na cadeira, as mãos apertando o rosto, tentando absorver o ataque de Enrico, mas não consigo. Tudo que consigo pensar é em Ana Lis, no hospital, no olhar dela, no cansaço dela. Sei que ele está certo. Cada palavra dele é um espelho mostrando minha falha. Mas ao mesmo tempo, uma parte de mim se recusa a se entregar totalmente à culpa. E a vontade de protegê-la é maior do que qualquer impulso e******o que eu possa ter tido.
O silêncio toma conta por alguns segundos, mas a tensão ainda paira no ar. Enrico respira fundo, tentando se recompor, mas a raiva ainda brilha nos olhos dele. Sinto meu corpo tenso, cada fibra dele alerta. Sei que ele tem razão, sei que errei, mas não posso apagar Ana Lis da minha mente. Ela domina meus pensamentos, minhas emoções, minha respiração.
Depois da ligação, fico sentado, olhando para a janela. A cidade desperta lentamente, mas eu permaneço imóvel. O que eu fiz, os erros, os impulsos, tudo me persegue, mas também reforça uma certeza: Ana Lis não pode sofrer por nada. Ela não merece. E eu não posso permitir que nada, ninguém, e nem mesmo eu, cause dor a ela.
Meu pensamento volta para a imagem dela no hospital, respirando tranquila, cercada de todos que a amavam, Pedro e Bento atentos a cada gesto, Noah, Laura e Márcio tentando aliviar a tensão. Eu queria estar ali de verdade, perto dela, e não apenas remoendo meus erros sozinho.
E enquanto o dia vai passando, percebo que não posso me distrair mais com nada, nem com Tábata, nem com o que foi exibido nos sites. Minha mente, meu corpo, minha atenção inteira pertence a Ana Lis. Cada decisão futura precisa girar em torno dela. Cada pensamento precisa lembrá-la que eu existo para protegê-la, para estar ao lado dela, para não repetir erros.
Fecho os olhos, respiro fundo e deixo a culpa e a raiva de lado por um instante. Ana Lis merece paz, merece segurança. Eu prometo a mim mesmo que tudo que vier pela frente, seja escândalo, distração, ou tentação, será menor do que a responsabilidade que sinto por ela. Ela não é apenas uma presença na minha vida. Ela é o centro, a prioridade. E qualquer passo em falso meu será revisto e corrigido imediatamente.
O dia termina, mas a tensão permanece. Ana Lis continua em meus pensamentos, minha culpa é pesada, mas necessária. Enrico tem razão em me cobrar. Eu sei disso. Não posso falhar com ela. Nunca mais. E no silêncio do apartamento, consigo finalmente admitir que nada me distrai mais, nada me distrai daquilo que realmente importa. Ana Lis. Sempre Ana Lis.