Capítulo 2- O Beco

949 Words
Ana Lis Acordei tarde. São dez horas da manhã e eu ainda estou morrendo de sono. Não dormi bem à noite… tudo por culpa daquele brutamontes. Reviro os olhos só de lembrar. Por que estou pensando nele? Que raiva. Quer saber? Vou levantar, fazer minhas higienes, tomar um banho e descer para tomar café. Um cheiro delicioso invade o corredor e meu estômago resolve acordar antes do resto do meu corpo. Quando chego à cozinha, encontro uma senhora de aproximadamente sessenta anos, cozinhando com calma e delicadeza. Ela tem um semblante meigo, olhos acolhedores e um sorriso gentil. Assim que me vê, abre um sorriso ainda maior. Bom dia, minha menina. Seu irmão falou muito de você. Sente-se e tome café. Eu sou a Ana… a dona Ana. Sorrio imediatamente. Prazer, dona Ana. Convido-a para sentar comigo e tomar café. No início, ela recusa, dizendo que ainda tem muito o que fazer, mas depois de insistir um pouco, ela acaba cedendo. Pergunto pelo Bento. Ele foi para a empresa, minha menina. Mas às seis horas estará em casa. Assinto, tomando um gole do café quentinho. Conversamos por alguns minutos, sobre coisas simples, leves. É estranho como alguém pode transmitir tanto aconchego em tão pouco tempo. Depois, volto para o quarto. Vou ligar para os meus pais. Sento na cama e faço a chamada. Converso com minha mãe, com meu pai… depois com meus irmãos que estão em Los Angeles. A saudade aperta no peito, mas tento sorrir o tempo todo. Estou com saudade do Pedro. Bento comentou que ele vai chegar amanhã. Está na cidade B resolvendo algumas coisas, mas amanhã volta. Fico animada só de pensar em vê-lo. Desço novamente. Dona Maria, vou dar uma volta para conhecer um pouco a rua. Ela me olha com preocupação. Minha menina, tenha cuidado. Não vá muito longe. Você ainda não conhece a região. Sorrio, confiante. Pode deixar, dona Maria. Pego meu celular e saio. Caminho bastante. As ruas são diferentes do que estou acostumada, prédios altos, movimento mais intenso… mas, distraída com pensamentos e com a curiosidade de explorar, acabo me afastando mais do que devia. Droga. Acho que me afastei demais do apartamento. Olho ao redor. Não reconheço nada. Estou passando por um beco mais estreito quando, de repente Uma mão firme segura meu braço. Meu corpo gela instantaneamente. Pra onde vai, belezinha? A voz é áspera. Quando viro o rosto, vejo um homem feio, com uma cicatriz atravessando a face. O olhar dele não é nada gentil. Meu coração dispara. Tento puxar o braço. Tento correr. Mas ele aperta mais forte. O medo sobe pela minha garganta como um grito preso. Então eu grito. Grito na esperança de que alguém me ouça. Mas a rua está deserta. Como eu andei tão longe? Theo Acordei cansado. Não dormi bem. Passei a noite pensando naquela garota. No quanto ela é linda… e irritante. Uma combinação perigosa. Mas eu não quero esse tipo de mulher. Ou pelo menos é isso que repito para mim mesmo. Levanto, tomo um banho rápido e gelado, como sempre. Um café igualmente rápido. Hoje tenho reunião na empresa e não posso me atrasar. Estou no meu apartamento. Não voltei para a casa dos meus pais. Ainda estou chateado com eles desde a conversa de ontem… esse negócio absurdo de casamento arranjado. Ninguém decide minha vida. Pego o carro e, em vez de seguir pelo caminho habitual, escolho o mais longo. Preciso clarear a mente. No meio do trajeto, paro em uma cafeteria para comprar um mate gelado. Enquanto caminho de volta para o carro, escuto algo que faz meu corpo inteiro ficar alerta. Uma voz feminina. Pedindo socorro. Não penso. Corro na direção do som. Viro o beco e a cena faz meu sangue ferver: uma moça se debatendo, tentando se soltar, enquanto um sujeito nojento segura seu pulso com força. Não hesito. Seguro o cara pelo colarinho e o arremesso para longe. Ele tenta reagir, mas não tem chance. Descarrego toda a irritação acumulada desde ontem em poucos golpes precisos. Deixo-o desacordado no chão. Chamo a polícia imediatamente. Quando me viro para perguntar se ela está bem… eu paraliso. É ela. A garota do corredor. A mesma que derramou água em mim. A mesma que me enfrentou sem medo. Linda. Mas agora… apavorada. O olhar dela está cheio de medo, os lábios tremem levemente. Aquilo me provoca algo que não sei nomear. Raiva. Proteção. Algo primitivo. Sem pensar muito, a pego nos braços e a levo até o meu carro. No início, ela não parece me reconhecer. Está em choque. Coloco-a no banco do passageiro com cuidado. Fecho a porta. Dou a volta e entro no carro. No caminho, compro uma água para ela. Entrego a garrafa. Beba. Ela segura com mãos ainda trêmulas. Então nossos olhos se encontram de verdade. Vejo a confusão no rosto dela. Ela me reconheceu. O que você estava fazendo ali? pergunto, tentando manter o tom neutro. Ela explica que é nova na cidade, que saiu para conhecer um pouco e acabou se afastando demais de casa. Inconsequente. Corajosa. Ingênua. Onde você mora? questiono. No condomínio Jardins Laranjeiras. Olho para ela por um segundo antes de responder: Eu também moro lá. O silêncio que se instala dentro do carro é diferente de todos os outros que já vivi. Não é tenso. É… carregado. Ficamos nos olhando por alguns segundos a mais do que deveríamos. Eu levo você, digo por fim. Ela ainda está abalada. E, pela primeira vez em muito tempo, não estou fazendo isso por estratégia, interesse ou obrigação. Estou fazendo porque a ideia de deixá-la sozinha agora me incomoda profundamente. E isso… me irrita mais do que deveria.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD