Ana Lis
Acordei e não vi ninguém no quarto. Por um instante, achei melhor. Preciso respirar. Senti uma culpa apertar o peito. Eu deveria ter saído? Deixado todos preocupados? Baixei a cabeça, respirei fundo, e as lágrimas vieram, silenciosas. Recompus-me e falei para mim mesma: reage, Ana Lis, você é adulta.
O telefone tocou. Um nome que eu não via há bastante tempo, e que eu não queria ver. Era ele, Luan. Respirei fundo antes de atender. A voz dele veio hesitante, mas firme.
Oi Ana, como você está?
Respondi, tentando controlar o tom: estou bem, e você?
Estou bem. Estou com saudades, Ana.
Engoli em seco e senti a raiva subir: você me traiu, e agora diz que sente saudades? Me poupe, Luan.
Respirei fundo, tentando me acalmar, quando ele completou: estou em Cidade Y, eu te amo, Ana Lis.
Não, Luan, você não me ama. Você me traiu, e eu nunca vou perdoar. Desliguei na hora.
Nesse instante, Pedro entrou, com Bento logo atrás, e Theo também surgiu no quarto.
Quem era? perguntou Pedro, sério, já percebendo que a tensão estava alta.
O Luan respondi, tentando controlar a voz.
Bento franziu o cenho. O que ele queria? disse, a raiva evidente. Aquele desgraçado! Por que ele não liga para mim? Que raiva daquele cara.
Theo arqueou a sobrancelha, sem entender nada ainda. Eu podia ver o incômodo nos olhos dele, misturado com uma atenção cuidadosa.
Expliquei, tentando ser direta: ele falou que está em Cidade Y.
Bento enrijeceu, os músculos do pescoço tensos. Pedro também se aproximou, cruzando os braços, pronto para proteger.
E eu continuei, com a voz firme, mesmo tremendo por dentro: ele disse que ainda me ama.
Pedro explodiu: Aquele desgraçado não tem escrúpulos!
Theo mudou levemente de posição. Vi o incômodo em seus olhos. Ele não disse nada, mas sua postura dizia tudo. Uma tensão silenciosa pairou sobre o quarto. Meu coração disparou, misturado entre culpa e frustração.
Bento respirou fundo, os punhos cerrados, enquanto Pedro continuava encarando o telefone com raiva contida. Eu podia sentir o peso da presença deles, da proteção deles, e, ao mesmo tempo, a minha própria determinação de não me deixar intimidar por alguém que já havia me machucado tanto.
Theo deu um passo à frente, os olhos fixos em mim. Havia ciúmes, preocupação e algo mais que eu não conseguia decifrar. Seu silêncio era mais eloquente que qualquer palavra.
Respirei fundo, olhei para os três, e falei baixinho: eu não vou deixar ninguém controlar meus sentimentos, nem ele, nem ninguém.
Pedro assentiu levemente, ainda tenso, mas entendendo. Bento passou a mão pelo rosto, tentando controlar a raiva. Theo permaneceu imóvel, mas eu sabia que estava observando cada detalhe, cada reação minha e dos irmãos, absorvendo cada emoção.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos, só quebrado pelo som distante do telefone desligando do outro lado. Eu respirei fundo, tentando recuperar meu equilíbrio. Aquela era minha vida, meu coração, e ninguém tinha mais direito sobre ele.
E naquele momento, mesmo cercada, mesmo vigiada, senti uma força interna crescer. Eles me amavam, me protegiam, mas eu também precisava me proteger de Luan, de qualquer lembrança, e até de mim mesma.
Theo
Chegamos à porta do quarto e eu pude ouvir a voz de Ana Lis antes mesmo de batermos. Ela falava no telefone, e o nome que saiu do outro lado fez meu estômago se apertar: Luan. Eu não o conhecia, mas a tensão que a ligação carregava era suficiente para me deixar inquieto. Ouvi a raiva crescente de Bento e Pedro antes mesmo de eles aparecerem no quarto, como se pudessem sentir a provocação do outro lado da linha.
Ela desligou o telefone com firmeza, mas o silêncio que ficou parecia pesado demais para o quarto. Logo em seguida, Pedro entrou, Bento logo atrás, seus olhares imediatamente fixos nela. A presença deles era imponente, protetora, mas carregada de raiva contida. Eu me mantive na porta, observando cada reação, sentindo meu próprio corpo reagir sem que eu pudesse controlar: o ciúmes cresceu, silencioso, incômodo. A ideia de alguém ter tocado o coração dela, ainda que fosse um passado, me incomodava profundamente.
Ana Lis ergueu o olhar para eles, tentando manter a voz firme, mas com aquele tremor que denunciava tensão e constrangimento. Ela contou rapidamente que era Luan, que ele havia ligado, e que ainda dizia amá-la. Disse também que estava em Cidade Y. A informação fez os olhos de Bento se estreitarem, o corpo se tensionar, e Pedro cruzou os braços, visivelmente furioso.
Bento respirou fundo, quase controlando a raiva, mas a explosão veio em seguida: a voz dele subiu, cheia de indignação e proteção. Pedro, igualmente irado, completou com p************s, acusatórias, chamando Luan de desgraçado sem escrúpulos. Eu senti a tensão no quarto crescer como uma tempestade silenciosa, e meu ciúmes se intensificou, misturado à preocupação. Eu precisava manter o controle, mas cada palavra deles me atingia.
Ana Lis permaneceu firme, tentando controlar a voz, tentando conter o tremor que ainda percorria seu corpo. Ela sabia que Bento e Pedro não aceitariam nada que a machucasse, mas também precisava afirmar sua própria força. Eu percebi cada gesto, cada pausa, cada respiração dela. O quarto estava carregado de raiva, amor e proteção, e eu me mantive atento, absorvendo cada detalhe, tentando compreender a intensidade daquele momento.
A cada palavra que saía da boca de Bento e Pedro, meu ciúmes aumentava. Não era apenas raiva de Luan; era a sensação de que alguém ousara se aproximar dela, mesmo que fosse passado, e eu não podia interferir diretamente, precisava apenas observar, proteger com os olhos, com a atenção, mantendo o silêncio e o controle. Ana Lis, apesar do medo contido, mantinha-se firme, olhando para eles, explicando, contando, tentando transmitir que não havia mais espaço para ele na vida dela.
O telefone desligado, a respiração controlada, mas a tensão no ar era quase palpável. Eu permaneci ali, sentindo cada emoção, cada gesto, cada mudança de expressão, pronto para qualquer movimento, qualquer reação. Pedro e Bento se entreolharam, ainda tensos, mas agora mais conscientes da gravidade da situação. Ana Lis os observava, também consciente do poder deles de proteger, mas mantendo sua determinação silenciosa.
E eu fiquei ali, entre o ciúmes, a atenção e a vigilância. Cada palavra, cada gesto, cada olhar naquele quarto contava uma história de proteção, amor, raiva e lealdade, e eu sabia que aquele momento definiria, de certa forma, como todos lidaríamos com o passado de Ana Lis e com os riscos que ainda poderiam vir.