Capítulo 17

1126 Words
O relógio sobre a mesa de cabeceira marcava duas e meia da madrugada, e Elowen ainda não havia conseguido pregar os olhos. Virava-se de um lado para o outro na cama, a mente tomada pelo beijo que mudara tudo horas antes. Podia sentir, como se ainda estivesse acontecendo, o calor dos lábios de Kael sobre os seus. O gosto intenso de chocolate misturado ao dele, a força com que a segurara, a maneira como a puxara para si como se o mundo fosse acabar se não a tivesse perto. E, mais que isso, lembrava-se da forma como o corpo dela reagira — não apenas em revolta, mas em rendição. Era isso que mais a atormentava. Porque por mais que tivesse tentado resistir, em algum momento ela havia cedido. O coração acelerara não apenas de raiva, mas de desejo. Elowen se levantou de repente, incapaz de continuar deitada. Andava de um lado para o outro pelo quarto, os pés descalços fazendo pouco barulho sobre o tapete. Passava a mão pelos cabelos soltos, frustrada consigo mesma. — O que foi isso? — murmurou em voz baixa. — Por que eu... por que eu senti isso? Mas não havia resposta. Apenas a lembrança do olhar dele fixo em sua boca antes do beijo, do jeito como a voz dele soara entre dentes: Você é uma tentação que não sabe o quanto me desafia. O coração disparou novamente só de pensar nisso. Incapaz de suportar o turbilhão dentro de si, decidiu descer para beber água. Talvez um copo gelado acalmasse seus pensamentos. Colocou um casaco leve sobre o pijama e abriu a porta do quarto com cuidado, tentando não fazer barulho. O corredor estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas por pequenas luzes de emergência presas às paredes. Desceu as escadas devagar, cada degrau rangendo suavemente. A mansão dormia, silenciosa, mas havia algo no ar — uma energia que ela não conseguia explicar. Ao chegar à cozinha, parou no limiar da porta. A cena diante dela a fez prender a respiração. Kael estava lá. De costas para ela, apoiado com as mãos sobre a bancada, ele olhava para além da grande janela que dava para o jardim. O luar entrava suavemente, iluminando-lhe a pele nua. Não vestia nada além de uma calça de moletom escura, baixa no quadril. Os músculos das costas e dos ombros estavam à mostra, tensos sob a luz pálida. Elowen ficou paralisada, o coração acelerando mais uma vez sem sua permissão. Ele parecia perdido em pensamentos, tão imóvel que por um instante ela se perguntou se deveria recuar antes que fosse notada. Mas alguma coisa nela a fez ficar. Kael parecia diferente ali, em silêncio, sem o peso do comando, sem o escudo da autoridade. Vulnerável, talvez. Como se carregasse sozinho um fardo invisível. Engoliu em seco e deu um passo para dentro. O som mínimo foi o bastante para que Kael percebesse. Ele não se virou imediatamente, mas ela notou a maneira como seus ombros ficaram ainda mais rígidos. — Não consegue dormir? — perguntou ele, a voz grave preenchendo o silêncio da cozinha. Elowen respirou fundo antes de responder. — Não. — Fez uma pausa. — Achei que um copo de água ajudaria. Kael virou-se devagar. Seus olhos encontraram os dela, e por um instante Elowen sentiu que o ar rareava. A cena era quase irreal: o corpo dele à mostra, a expressão séria suavizada pelo cansaço, os cabelos ligeiramente bagunçados como se também não tivesse dormido. Ele não disse nada de imediato, apenas a observou. O silêncio prolongado fazia seu coração bater descompassado. — E você? — arriscou ela, tentando quebrar a tensão. — Também não conseguiu dormir? Kael soltou um suspiro baixo, desviando o olhar por um momento para a janela antes de voltar para ela. — O sono não costuma vir fácil para mim. Elowen caminhou até a geladeira, tentando ignorar o fato de que cada passo a aproximava mais dele. Pegou uma garrafa de água e serviu-se em um copo. O silêncio entre eles era denso, como se algo não dito pairasse no ar. Tomou um gole, mas não conseguiu evitar. Precisava perguntar: — Você está... pensando no que aconteceu antes? A pergunta saiu quase num sussurro, e Elowen odiou a vulnerabilidade em sua própria voz. Kael a encarou por alguns segundos, os olhos escuros faiscando de algo que ela não conseguiu decifrar. Deu alguns passos em sua direção, aproximando-se devagar, como um predador que não tem pressa de capturar sua presa. — Você acha que eu conseguiria simplesmente esquecer? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de intensidade. Elowen engoliu em seco. — Eu não sei o que você sente — admitiu, os dedos apertando o copo em suas mãos. — Só sei que... eu não consigo parar de pensar. Kael parou diante dela, perto o suficiente para que pudesse sentir o calor que emanava de seu corpo. — E o que você sente, Elowen? — murmurou, inclinando-se levemente, o rosto próximo ao dela. O coração dela disparou. A proximidade era sufocante, mas ao mesmo tempo arrebatadora. Os olhos dele deslizaram, quase imperceptíveis, para sua boca por uma fração de segundos. Elowen prendeu a respiração. A lembrança do beijo os envolveu como um fantasma. — Eu sinto... — começou, mas as palavras se perderam. Não conseguia confessar a confusão que a consumia. Kael arqueou um sorriso de canto, mas não havia leveza nele. Era um sorriso sombrio, carregado de desejo reprimido. — Você me tira do eixo, Elowen. — Sua voz era um rosnado contido. — E isso é perigoso. Ela estremeceu. Por um momento, o mundo pareceu encolher ao redor deles. A cozinha escura, a lua pela janela, o silêncio profundo da mansão — tudo desapareceu, restando apenas os dois, presos naquela tensão insuportável. Elowen recuou um passo, tentando recuperar o fôlego. — Kael... isso não pode acontecer de novo. Ele a seguiu no mesmo compasso, não permitindo espaço. — Não pode? — repetiu, quase em provocação. — Ou você tem medo do que sente quando está perto de mim? Elowen apertou o copo nas mãos, a respiração acelerada. — Eu não tenho medo de você. — Sua voz saiu firme, embora o coração desmentisse. — Eu tenho medo de mim mesma. Kael a observou por longos segundos, como se tentasse decifrá-la. Então, finalmente, desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos em um gesto de frustração. — Vá dormir, Elowen — disse, a voz baixa, mas firme. — Antes que eu esqueça completamente do que é certo. Ela permaneceu ali, imóvel, observando-o voltar a encarar a janela, como se a noite pudesse dar-lhe respostas. Elowen não sabia se o coração batia de medo ou de desejo. Mas tinha certeza de uma coisa: depois daquela madrugada, não havia volta.
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