O silêncio na mansão era quase sufocante. Elowen percorria o corredor com passos lentos, os dedos roçando levemente na madeira fria da parede, como se buscasse algum apoio. Ainda sentia o peso das palavras da carta que encontrara dias atrás. Cada frase gravara-se em sua mente, ecoando sem cessar, como se Veynar estivesse sussurrando em seu ouvido a cada momento de vulnerabilidade.
“Todos têm uma brecha. E eu encontrei a dele.”
Essas palavras a corroíam mais do que qualquer outra ameaça escrita. Não era apenas a promessa de sangue ou de destruição; era a insinuação de que Kael, o homem que parecia inabalável, tinha um ponto fraco. E, embora ele nunca tivesse dito, Elowen sabia o que a carta insinuava.
Naquela noite, ela decidiu que não suportaria mais o silêncio.
A biblioteca estava com as luzes acesas, e o aroma de whisky preenchia o ar. Kael estava ali, sentado na poltrona de couro, as pernas cruzadas, o copo em mãos. A luz suave das lâmpadas iluminava apenas metade de seu rosto, deixando a outra mergulhada em sombras, como se fosse a representação perfeita da dualidade que ele carregava.
— Você está inquieta. — Sua voz grave cortou o silêncio antes mesmo que ela pudesse abrir a boca. — Vejo isso nos seus passos.
Elowen parou na entrada, respirou fundo e reuniu coragem. — Quero falar sobre a carta.
Os olhos dele, escuros e penetrantes, ergueram-se lentamente para encontrarem os dela. O silêncio que seguiu foi denso, como se ele estivesse pesando cada palavra que poderia usar. Por fim, tomou um gole lento do whisky e apoiou o copo no braço da poltrona.
— Não há nada ali que já não tenha previsto.
Elowen franziu o cenho e cruzou os braços. — Não me trate como se eu fosse ingênua, Kael. Aquele homem escreveu sobre você como se soubesse onde acertar. Como se tivesse encontrado…
Ela hesitou, a garganta travando antes de completar. Mas ele não a deixou recuar.
— Continue — murmurou, inclinando-se para frente.
— Como se tivesse encontrado sua fraqueza. — A palavra saiu quase em um sussurro, mas no silêncio da biblioteca pareceu um grito.
Por um momento, Kael não disse nada. Apenas a encarou, imóvel, o maxilar tenso, como se controlasse uma fúria prestes a escapar. O coração de Elowen disparou, mas ela manteve a postura.
— Veynar é um jogador. — A voz dele, quando veio, era fria como gelo. — Ele não precisa de verdades para causar estragos. Basta uma insinuação.
Elowen deu alguns passos para dentro da sala, aproximando-se. — Então você está dizendo que não há nada? Que ele está apenas jogando com as palavras?
Kael se levantou. O movimento foi lento, calculado, mas tinha a força de um impacto. Alto, imponente, ele a encarou de cima, caminhando em sua direção até que a distância entre eles se tornou mínima.
— O que eu estou dizendo — rosnou baixo, com o rosto a centímetros do dela — é que Veynar usa a dúvida como arma. Ele planta veneno nas mentes e espera que cresça.
Elowen sentiu o ar rarefeito entre eles, mas não recuou. — E funcionou. Porque eu duvido. Porque agora não consigo parar de pensar no que ele quis dizer.
Kael estreitou os olhos, e por um instante sua máscara de controle quase cedeu. As pupilas dilatadas, o olhar queimando, denunciaram uma emoção que ele não queria mostrar. Mas as palavras que escolheu foram frias.
— Então você está fazendo exatamente o que ele queria.
Ela se manteve firme, mesmo com o coração acelerado. — Eu quero respostas, Kael. Quero saber até que ponto eu corro perigo estando aqui. Até que ponto você está disposto a me esconder coisas.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo como se buscasse conter a impaciência. Depois, deu as costas a ela e voltou até a mesa, servindo-se de mais whisky.
— Você já está em perigo simplesmente por estar ao meu lado — disse, sem encará-la. — Sempre esteve.
Elowen fechou os punhos. — Então a carta não mudou nada?
Kael permaneceu em silêncio por longos segundos, mexendo o líquido âmbar no copo antes de levar aos lábios. Quando falou, a voz estava mais baixa, mais densa.
— Mudou tudo.
Elowen sentiu o estômago revirar. Deu um passo em direção a ele. — Como assim?
Ele se virou lentamente, e dessa vez havia algo em seu olhar que a fez prender a respiração. Não era apenas frieza, nem apenas desejo. Era uma mistura perigosa dos dois, algo que a arrebatava e ao mesmo tempo a assustava.
— Veynar quer que você duvide de mim. Quer que questione sua própria segurança aqui dentro. E, principalmente, quer que eu perca o controle tentando protegê-la.
Elowen engoliu em seco. — E vai?
A pergunta pairou no ar. Kael a observou em silêncio, aproximando-se até que pudesse sentir o perfume dela, até que os olhos dela refletissem os dele. O copo em sua mão permaneceu firme, mas sua respiração denunciava o esforço de manter a calma.
— Eu nunca perco o controle — disse, entre dentes.
Mas as palavras não combinavam com a forma como seus olhos desceram, por um instante rápido demais para ser ignorado, até a boca dela. Um reflexo involuntário, um deslize que o expôs mais do que gostaria.
Elowen percebeu. E aquele detalhe fez seu coração acelerar de uma forma estranha, desconfortável e viciante.
— Então por que não consegue me encarar sem olhar para mim como se… — Ela parou, mordendo o lábio.
Kael estreitou os olhos, e em um segundo o predador voltou à superfície. Ele deu mais um passo, reduzindo a distância até que apenas um movimento os separasse. Sua voz saiu baixa, rouca.
— Cuidado, Elowen. Você está cutucando feras que não deveria.
Ela respirava rápido, o corpo respondendo antes mesmo da mente. Mas, ainda assim, encontrou forças para sussurrar: — Talvez eu queira saber até onde essa fera pode ir.
O músculo do maxilar dele se contraiu, e por um instante parecia que ele a puxaria para si. Mas, em vez disso, Kael recuou. Apenas um passo, mas suficiente para quebrar a tensão. Levou o copo à boca e virou o resto do whisky, como se fosse o único modo de controlar o impulso.
— Vá descansar — disse, finalmente, sem olhar para ela. — Amanhã teremos respostas mais concretas.
Elowen sentiu uma mistura de frustração e alívio. Parte dela queria que ele tivesse cedido, que tivesse mostrado mais do que permitia. Mas outra parte sabia que se isso acontecesse, não haveria volta.
Ela se virou em direção à porta, mas parou antes de sair. — Você pode fugir de palavras, Kael. Mas não pode esconder o olhar.
E saiu, deixando-o sozinho com seus próprios fantasmas.
Kael permaneceu na biblioteca, imóvel. O copo vazio pendia em sua mão, e seus olhos fixavam o vazio à frente. O nome de Veynar ecoava em sua mente, misturado ao rosto de Elowen e à lembrança do toque que quase permitira.
Fraqueza. Não. Ele não tinha fraquezas. Mas, quando fechou os olhos, tudo o que viu foi ela.