O eco da conversa com Kael ainda queimava na mente de Elowen quando ela subiu para o quarto. Cada palavra, cada olhar, parecia pesar em sua pele como uma marca invisível. Fechou a porta atrás de si e tentou se convencer de que a distância seria a única forma de recuperar algum equilíbrio.
Mas a noite tinha outros planos.
Primeiro, veio a chuva, suave, como um murmúrio contra os vidros da janela. Em seguida, o vento começou a açoitar as árvores do jardim, e relâmpagos cortaram o céu com uma fúria crescente. Então, finalmente, o trovão — forte, abrupto, tão alto que pareceu estremecer os alicerces da mansão.
Elowen enrijeceu.
Não era apenas o som que a assustava. Era tudo o que aquele som carregava consigo. As lembranças, vivas e dolorosas, que retornavam sem pedir permissão.
Ela tinha dez anos. O carro deslizando na estrada molhada. A mãe tentando manter o volante firme enquanto a tempestade castigava. A luz branca de um relâmpago cegando por um instante. O estrondo, o impacto, o mundo girando em desordem. E então… o silêncio cortado apenas pelo som da chuva e o corpo inerte de sua mãe ao lado.
Elowen sobreviveu. A mãe não.
Desde aquele dia, cada trovão era como um punho batendo contra o peito dela, lembrando-a da impotência, da perda, do vazio irreparável.
Outro trovão explodiu, e Elowen levou as mãos aos ouvidos, recuando até encostar na parede do quarto. Respirava rápido demais, os olhos marejados, o corpo inteiro trêmulo. Queria ser forte, queria ser indiferente — mas o medo a paralisava, devorando-a viva.
Mais um relâmpago iluminou o quarto e, sem pensar, Elowen abriu a porta. Saiu pelo corredor como se estivesse fugindo da própria sombra.
Os passos ecoavam apressados contra o piso de madeira. Cada estrondo a fazia acelerar ainda mais. O coração parecia prestes a saltar pela boca. E antes mesmo de se dar conta, estava diante da porta de Kael.
Empurrou-a sem bater.
O quarto dele estava iluminado apenas por uma luz quente de abajur. O ar cheirava a madeira e algo fresco, misturado ao perfume amadeirado dele.
Kael estava de costas, diante do espelho. Os cabelos ainda úmidos pingavam pelos ombros largos, e ele os secava com uma toalha. Estava sem camisa, revelando a musculatura definida, marcada por cicatrizes que falavam de batalhas vencidas. Vestia apenas uma calça de moletom escura, caída de forma despreocupada no quadril.
Ele a percebeu pelo reflexo e virou-se devagar, franzindo o cenho.
— Elowen? — A voz soou grave, carregada de surpresa. — O que está fazendo aqui?
Ela não respondeu. Outro trovão ribombou, e um soluço escapou de sua garganta. O pavor era nítido em seus olhos, a respiração descompassada.
Kael deu um passo à frente, a toalha esquecida sobre a poltrona.
— O que houve?
Elowen sacudiu a cabeça, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu… eu não consegui ficar sozinha. — A voz saiu embargada, quase um sussurro. — É a tempestade.
Kael franziu mais o cenho, mas não havia julgamento em seu olhar. Apenas atenção.
— Tempestades te assustam?
Ela respirou fundo, tentando se manter firme, mas outro relâmpago iluminou o quarto e o trovão seguinte a fez estremecer de novo. As palavras escaparam como uma confissão arrastada:
— Minha mãe… ela morreu em uma tempestade. Estávamos juntas no carro. Eu sobrevivi. Ela não.
Kael parou diante dela. O silêncio que seguiu foi denso, mas não vazio. Ele absorvia cada palavra, como se pesasse o significado por trás daquilo. Então, sem hesitar, ergueu a mão e afastou os fios molhados do rosto dela.
— Você não está sozinha agora.
Elowen piscou rápido, as lágrimas caindo sem controle.
— Eu não queria… que você me visse assim.
— Assim como? — A voz dele era baixa, firme, quase um murmúrio.
— Fraca.
Kael inclinou levemente a cabeça, estudando-a com aqueles olhos escuros que pareciam enxergar mais do que deveria. Então, aproximou-se ainda mais.
— Elowen… isso não é fraqueza. É dor. E dor não diminui ninguém.
Outro trovão. Ela se encolheu instintivamente, agarrando o braço dele. Kael não se moveu para afastá-la. Pelo contrário, envolveu-a num gesto firme, trazendo-a contra o peito.
O mundo pareceu parar naquele instante.
O coração dele batia constante sob a pele quente e nua, o cheiro de sabonete e whisky impregnava o ar, e a força com que a segurava transmitia algo que ela não sabia como nomear. p******o. Certeza. Refúgio.
Kael passou a mão devagar pelos cabelos dela, num gesto que contrastava com toda a dureza habitual.
— Respire comigo — murmurou, perto de seu ouvido. — Inspire… expire.
Elowen tentou acompanhar, mas o choro ainda escapava em soluços. Mesmo assim, cada respiração no ritmo dele parecia puxá-la de volta à superfície, afastando-a do abismo do medo.
Minutos se passaram. A tempestade continuava lá fora, mas, dentro daquele quarto, ela já não estava sozinha diante dela.
Quando se afastou um pouco, os olhos dela encontraram os dele. O olhar de Kael não era frio, tampouco carregava o sarcasmo que ela conhecia tão bem. Era intenso, sim, mas de um jeito que parecia conter algo que ele raramente deixava escapar.
— Obrigada — sussurrou ela, a voz quase inaudível.
Kael segurou o rosto dela com firmeza, o polegar afastando uma lágrima.
— Não precisa me agradecer.
O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era carregado, denso, quase palpável. Cada respiração parecia aproximá-los mais.
Do lado de fora, os trovões ainda rugiam, mas dentro daquele quarto Elowen encontrava, pela primeira vez, um lugar onde não precisava fingir força.
Ela hesitou, mas não se afastou. Pelo contrário, deixou-se ficar perto, sentindo o calor que emanava dele. Kael também não rompeu o espaço. Apenas a observava, como se lutasse contra algo invisível.
— Fique aqui esta noite — disse ele, por fim, a voz baixa, mas firme.
Elowen piscou, surpresa.
— No seu quarto?
Kael ergueu uma sobrancelha, como se a pergunta fosse desnecessária.
— Sim. Você não vai conseguir dormir sozinha, e eu não vou ignorar isso.
O rosto dela corou, mas antes que pudesse protestar, outro trovão soou, e o corpo dela reagiu sozinho, buscando novamente a proximidade dele.
Kael a guiou até a cama. A colcha escura contrastava com a pele clara dela quando ela se sentou na beira, ainda trêmula. Ele puxou uma manta e a colocou sobre os ombros dela, o gesto simples carregado de cuidado.
— Deite — ordenou, mas a voz não tinha a dureza costumeira. Soava quase como um convite.
Elowen obedeceu, acomodando-se entre os travesseiros. Kael apagou a luz do abajur e se sentou na poltrona ao lado, como se vigiasse cada suspiro dela.
— Você não vai deitar? — a voz dela saiu hesitante, baixa.
Ele a encarou na penumbra, os olhos brilhando como brasas.
— Se eu me deitar, não prometo manter a distância.
O coração dela disparou. A resposta dele era um aviso, mas também uma confissão.
E, ainda assim, sem pensar muito, ela estendeu a mão na direção dele.
— Fica comigo.
Kael não hesitou dessa vez. Levantou-se, largou a toalha de lado e deitou-se ao lado dela. O colchão afundou sob o peso de seu corpo, o calor se espalhando instantaneamente.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu. O silêncio era quebrado apenas pelo som da chuva e dos trovões, agora mais distantes.
Então, com cuidado incomum, Kael passou o braço pela cintura dela e a puxou contra si. O corpo de Elowen se encaixou ao dele como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
Ela fechou os olhos, sentindo o coração desacelerar pela primeira vez naquela noite.
Kael não disse nada, mas o gesto falava por ele.
E, naquela cama, em meio à tempestade, Elowen adormeceu nos braços do homem que era sua ruína e, ao mesmo tempo, seu refúgio.