A mansão repousava em um silêncio quase sepulcral naquela tarde. As paredes altas pareciam segurar dentro de si todos os segredos, medos e tensões que cresciam como ervas daninhas invisíveis. Elowen, ainda perturbada pelos acontecimentos da véspera, caminhava pelos corredores em busca de distração. Cada passo ecoava como se fosse vigiado por olhos ocultos, cada sombra lembrava a ela que estava presa em um mundo onde Kael era o centro, e tudo o mais orbitava em torno de sua vontade.
Mas o destino tinha planos diferentes para aquela tarde.
Do lado de fora, um dos seguranças que montava guarda na entrada hesitou ao ver uma figura se aproximando pelo portão de ferro. Reconheceu o rosto — já a havia visto antes, quando viera acompanhada por Riven até a mansão em visita breve. Não deveria deixá-la entrar, não sem ordem direta, mas havia algo no jeito como ela erguia o queixo, firme, desafiador, que o fez abrir a passagem sem questionar.
Nyra.
Ela caminhou com passos decididos, botas ecoando contra o mármore da entrada, sem se importar em anunciar sua presença. Carregava no olhar aquele brilho travesso, irritante para alguns, fascinante para outros. Assim que atravessou o saguão principal, antes mesmo de encontrar Elowen, foi interceptada.
— O que diabos você está fazendo aqui? — A voz de Riven soou como uma lâmina, cortante, carregada de irritação.
Ele havia acabado de sair do escritório, e a visão dela parada no centro do saguão lhe pareceu quase uma afronta pessoal. Alto, imponente, os olhos de aço faiscavam raiva contida.
Nyra arqueou uma sobrancelha, sem demonstrar um pingo de medo. — Ora, ora… o cão de guarda resolveu aparecer.
— Não brinque comigo. — Ele se aproximou em passos pesados, o maxilar cerrado. — Você não foi convidada.
— E desde quando eu preciso de convite para ver minha amiga? — rebateu, cruzando os braços. — O que foi, Riven? Com medo de eu bagunçar o castelinho perfeito do seu chefe?
Riven parou diante dela, tão próximo que a tensão entre os dois pareceu materializar-se no ar. — Você não entende a gravidade do lugar onde está. Pessoas como você não duram aqui dentro.
Nyra riu, curta, debochada. — Pessoas como eu? Quer dizer… mulheres que não se calam só porque um brutamontes cheio de músculos rosna na minha frente?
Os olhos dele se estreitaram. — Se continuar falando assim, vai se arrepender.
Ela inclinou a cabeça, o sorriso provocador brincando nos lábios. — Sempre com essas ameaças, não é? Me diga, Riven… você já parou para pensar que talvez eu não tenha medo de você?
Ele respirou fundo, como se lutasse contra a vontade de calá-la ali mesmo. Mas a língua afiada dela era como fogo contra a pólvora de sua paciência. E Nyra sabia disso. Ela avançou um passo, invadindo o espaço dele, olhando diretamente em seus olhos.
— Você adora fingir que não ligo importância para mim. Mas eu consigo ver nos seus olhos. — Sua voz baixou, quase um sussurro. — Cada vez que eu abro a boca, você perde o controle um pouco mais.
Foi a gota.
Em um movimento brusco, Riven a prensou contra a parede de pedra fria do saguão. Uma das mãos dele agarrou seu pulso, a outra manteve firmeza ao lado da cabeça dela, o corpo colado, impondo toda sua presença.
Nyra arfou com o impacto, mas não recuou. Os olhos dela brilharam ainda mais, desafiadores. — É isso? Vai me intimidar até eu ficar quietinha?
O rosto dele estava a centímetros do dela. O hálito quente roçava contra sua pele, e por uma fração de segundo — longa demais — o olhar dele desceu até os lábios dela. Riven piscou, tentando afastar a ideia, mas o instante já havia acontecido.
Frações de segundo que pareceram horas. Como ele queria calar aquela boca.
Ele fechou os olhos, respirando fundo, controlando-se, antes de rosnar entre dentes: — Não me provoque, Nyra.
Ela sorriu, aquele sorriso irritante e sedutor ao mesmo tempo. — Pode apostar que vou continuar.
O coração de Riven bateu forte no peito, mas ele não se permitiu ceder. Soltou-a bruscamente, como se o toque queimasse, e deu um passo para trás. — Se continuar jogando esse joguinho, eu não vou segurar minha paciência.
Nyra ajeitou a blusa, fingindo indiferença, embora o corpo ainda sentisse a pressão do dele. — Então talvez eu devesse continuar. — E se virou, dando-lhe as costas com deliberada lentidão. — Só para ver até onde você aguenta.
Riven a observou se afastar, os punhos cerrados, a respiração pesada. Odiava aquela mulher com cada fibra de seu ser… e odiava ainda mais o fato de não conseguir ignorar a presença dela.
Nyra encontrou Elowen pouco depois, descendo a escada principal.
— Nyra? — Elowen arregalou os olhos, surpresa. — O que você está fazendo aqui?
— Te resgatar desse mausoléu, obviamente. — Nyra abriu os braços em um gesto dramático. — Achei que precisava de uma visita amiga.
Elowen não pôde evitar sorrir. O coração se aqueceu em vê-la. — Você não deveria ter vindo…
— Ah, por favor! — interrompeu Nyra, revirando os olhos. — Desde quando eu sigo regras?
Elowen desceu os degraus mais rápido e a abraçou, sentindo o alívio da presença dela. Por alguns segundos, esqueceu Kael, esqueceu as sombras que a cercavam ali dentro.
— Eu senti tanto a sua falta — confessou, apertando-a mais forte.
— Eu também, florzinha. — Nyra sorriu. — Agora, que tal sair comigo um pouco? A gente pode dar uma volta, respirar ar de verdade. Você parece sufocada.
Elowen hesitou. A lembrança da advertência de Kael ecoou em sua mente: “Se tentar qualquer coisa, Nyra será a primeira a pagar o preço.”
— Eu… não sei se posso.
Nyra segurou seu rosto entre as mãos. — Ei. Você não é prisioneira, Elowen. Eles não podem controlar cada segundo da sua vida.
Elowen não respondeu de imediato. A tensão se infiltrava em cada parte dela.
E, como se o universo quisesse lembrar ambas de que nada era simples, um dos seguranças entrou apressado no saguão. O rosto dele estava pálido, os olhos arregalados.
— Senhorita… senhorita Elowen… nós encontramos isso no portão.
Ele estendeu um envelope n***o, pesado, com um selo desconhecido. O papel exalava um cheiro metálico, quase de ferrugem. Elowen pegou-o com mãos trêmulas, o coração disparado.
Nyra se aproximou para espiar por cima do ombro dela. — O que é isso?
Com cuidado, Elowen abriu o envelope. Dentro havia uma única folha, escrita em tinta vermelha. A caligrafia era firme, c***l:
"Nada dura para sempre. Nem a lealdade dos seus homens. Nem a vida dos que você protege. Em breve, todos vão sangrar.”
Elowen sentiu o estômago revirar. Nyra respirou fundo, séria pela primeira vez desde que chegara.
— Isso não é só uma ameaça qualquer — murmurou. — É um recado.
E ambas sabiam: fosse quem fosse o inimigo de Kael, não iria parar até atingir aquilo que mais importava.