Cecília
Hoje eu me dei o privilégio de acordar um pouco tarde. Estou livre da faculdade por uma semana; só estão indo quem pegou recuperação no semestre e, graças a Deus, atingi a pontuação em todas as matérias.
A mãe do Palhaço dormiu aqui, mas saiu hoje bem cedinho.
Acordei, tomei café e fui ajudar minha mãe a arrumar a casa. Depois tomei meu banho e fui pro meu studio. Atendi apenas quatro meninas e encerrei o expediente por volta das três da tarde.
Recebi uma mensagem da Nara me chamando pra tomar açaí e ficar vendo o movimento na praça, e logo comecei a adiantar meus passos.
— Eai, mandada — falei me sentando junto a ela.
— Chegou rápido.
— Vi sua mensagem já no meio do caminho.
— Anham... mas fala aí sobre aquele quase beijo com o Palhaço.
— Teve quase beijo nenhum! E se tu pensa que eu não vi tua cara quando viu o Moura com aquela doninha lá, não?
— Assumo que fiquei meio balançada mesmo. Desde sempre eu flagrava ele aqui no morro, mas nunca cheguei porque fiquei com medo dele me achar oferecida e também por ele ser quem ele é.
— Mas naquele dia do baile vocês ficaram?
— Ficamos, e teve replay no dia do aniversário do Palhaço.
— Bem que tu evaporou de lá mesmo.
— Pois é... mas isso é pra eu poder largar de ser iludida. Fiquei com o bofe só duas vezes e tô aqui nessa lamentação toda.
— É fase, daqui a pouco passa.
— Tomara... mas ai, vai querer teu açaí agora?
— Vou mesmo, vai lá fazer o meu vai — falei juntando minhas mãos.
— Folgada em — falou se levantando e indo em direção à sorveteria.
Tava vendo as fofocas do morro no Twitter e percebi a Loira e uma amiga dela se sentar do lado da mesa onde eu estava com a Nara.
“Pois é amiga, tem gente que não se toca e fica se fazendo de vítima na frente dos caras, bem sonsa mesmo. Mas comigo não tem essas não...”
Nem dei ligação e continuei vendo as novidades até a Nara chegar com o açaí.
— Patati e Patatá chegou que horas? — falou fazendo careta e olhando em direção à mesa das meninas.
— Chegaram nestante — falei pegando o meu açaí.
Depois que terminei, levantei e fui jogar o copo no lixo. Quando eu estava voltando, escutei a Loira citar o meu nome. Já que ela estava de costas, não percebeu que eu estava chegando e escutei ela falando merda.
— Qual é a tua mesmo em, Loira? — falei parando na mesa que ela tava sentada.
— Eu? Nada, por quê?
— Se faz de sonsa não, porque desde a hora que você chegou tu não para de fazer piadinha.
— Não tenho culpa se você só faz passar vergonha — falou se levantando.
— Quem tá passando vergonha é você que tá criando discórdia sendo que nem me conhece direito — falei já me alterando.
— E nem quero! Se faz de amiguinha dos meninos só pra poder dar golpe que eu sei.
— Então esse é o problema? Homem? — falei rindo sarcástica.
— Você que é o problema! Tá atrapalhando tudo que eu tenho com o Palhaço.
— Pra eu poder atrapalhar alguma coisa, primeiramente vocês teriam que ter um relacionamento, o que não é o caso. Até porque ele mesmo já citou que você não passa de uma oferecida que tá querendo status em cima das pessoas — falei e pisquei pra ela.
Fui me virar pra sair, mas senti um puxão no meu cabelo. Virei logo de mão fechada e acertei um murro certinho no rosto dela. Fui criada saindo na mão com dois meninos e a garota acha que eu vou brigar dando tapinha e puxando cabelo.
A loira cambaleou pra trás mas logo veio pra cima de novo. Ela tentou agarrar meu cabelo mas eu consegui me esquivar, porém a unha da safada acabou passando pelo meu braço e tirou um pouco de sangue. Senti um ódio subir quando vi aquilo e fiquei totalmente descontrolada.
Agarrei o cabelo dela e derrubei ela de bruços. Montei nas costas da loira e comecei a esfregar a cara dela no chão enquanto ela se debatia tentando sair.
— Sua vagabunda do c*****o! Eu te avisei que se você ficasse de gracinha pra cima de mim eu ia esfregar essa sua cara cheia de cirurgia no chão!
Levantei de cima dela só para poder virar a pilantra de barriga pra cima. Segurei no pescoço da loira e quando armei meu punho pra dar um soco, senti alguém me puxar com tudo de cima dela.
— Tá louca, Cecília, c*****o? — falou o Palhaço enquanto me prendia contra o seu corpo.
— Esse projeto de Barbie que veio cheia de onda pra cima de mim!
— É mentira, Palhaço! Ela que se alterou só porque falei umas verdades — falou a loira se levantando com a ajuda da amiga dela.
— Você que puxou meu cabelo primeiro, sua p*****a rodada!
— Anda, Cecília, você vem comigo — o Palhaço saiu me puxando pelo braço.
— Tá me levando pra onde mesmo em?
— Preciso bater um papo reto contigo. Bora lá pra casa que tá vazio, minha mãe foi fazer a feira.