Capítulo 20

1398 Words
Nunca cheguei a acreditar em pagar pecados de outras vidas, mas agora, quando o som do motor do carro desliga e tudo que ouço é o som de nossas respirações, eu penso se por um acaso eu não joguei pedra onde não deveria em algum momento de uma suposta vida passada, e agora estou pagando por isso nessa. -Você sabe que assim que você me tirar desse carro eu vou berrar o máximo que meus pulmões aguentarem, e correr com todo o vigor que conseguir em direção a saída, não sabe? Ele dá uma risadinha.-Boa sorte procurando a saída. Boa sorte com os gritos também, você vai precisar. Ele desce o carro e vem para o meu lado, e ao invés de me desamarrar, o que eu imagino que seria algo fácil demais pra eu conseguir só com uma ameaça dessas, ele só solta as partes dos nós que me prendem ao banco e me pega no estilo noiva dessa vez, ainda amarrada como uma boa vítima de sequestro ou talvez até um Chester natalino. -Se eu prometer não correr, você me desamarra? -Acabou de dizer que é exatamente o que você ia fazer. Por favor, tudo bem você querer se fazer de difícil, mas escolha de uma vez qual abordagem você vai usar pra tentar me enganar, todas de uma vez só torna isso mais difícil pra você. Faz parecer o quanto está confusa, vulnerável e desesperada, e de alguma forma isso só te deixa ainda mais atraente. Eu fico quieta, não tenho muito o que dizer.Ao invez disso estou pensando no seu maldito corpo quente na minha pele nua, enquanto sinto as cordas apertando em alguns lugares certos de mais pra não ter sido de propósito. Desisto de gritar, desisto de chorar e de espernear tentando sair correndo. Se você tá no inferno, abrace a p***a dto capeta. Se ele for fazer alguma coisa r**m comigo (coisa que ele já teve muita chance de fazer), mesmo que ele FAÇA alguma coisa r**m mesmo, então vou ter muito tempo pra me arrepender e me lamentar depois por não ter tentado o suficiente. Por agora eu me entrego ao meu destino nas mãos desse maluco perseguidor, que eu ainda não entendo o que quer de mim, mas também me faz querer coisas dele que não tenho coragem de dizer em voz alta. Talvez isso seja uma via de mão dupla, e eu seja o sujo falando do m*l lavado. Talvez eu tenha um parafuso a menos por não ter ligado pra polícia no dia seguinte em que ele esteve na minha casa, talvez a última coisa que eu devesse ter feito era fingir que aquilo não aconteceu e ter jogado meus problemas pra minha eu do futuro resolver. Seja o que for, estou pronta para pagar o preço por cada um dos meus atos, seja lá quanto isso for. Não é como se eu já não pagasse todos os dias por atos de outras pessoas.Há aquele ditado popular muito conhecido, de que cada um colhe o que planta.Bom, faz um tempo que eu tenho certeza que o que eu tô colhendo não fui eu quem plantei não.Sabotaram minha horta mais de uma vez, e pelo menos dessa vez, eu vou ter tido certeza que o que sair dessa terra foi o que eu plantei. Sou levada pra dentro de um elevador todo espelhado, e as portas se fecham. -Vou ter que te colocar no chão por alguns segundos, estamos dentro de um elevador, confio que você não vai tentar abrir essas portas com a sua super força. Ele me coloca de pé, mas com uma das mãos apoiando as minhas costas, o que me dá equilíbrio, levando em conta que meus pés estão amarrados juntos, e um leve peteleco me levaria ao chão. Ele mexe no bolso e tira o que parece ser um cartão de acesso, coloca em um compartimento acima dos botões do elevador, e ele faz um barulhinho, começando a subir mais ainda em seguida. Eu finjo não notar os seus dedos nas minhas costas fazendo o que parece ser uma leve carícia. Ele não me parece o tipo de homem que faz esse tipo de carícia, mas parando pra pensar, eu não tenho mais nenhuma ideia de que tipo de homem ele é, então eu só acato tudo de qualquer forma.Ele me levanta de novo e eu fico frustrada. -Mas que droga, não é mais fácil só desamarrar os meus pés? -Pode até ser, mas eu prefiro desse jeito. Assim que as portas se abrem, há um amplo corredor com uma porta no fim dele, como se fosse a passagem pro juízo final. Chegamos nela, e dessa vez ele não precisa repetir o mesmo processo que fez pra pegar o cartão de acesso, ele apenas coloca um dos dedos em um espaço pra digital na maçaneta e a porta se abre, e logo em seguida já estamos dentro do apartamento, e ele bate a porta usando os pés, atrás de nós. É na cobertura, claro. Um maldito de um palacete dentro de um prédio.Com direito a janelas de vidro, pra encantar qualquer megalomaníaco que adoraria passar horas e horas observando a cidade abaixo dele como se fosse seu reino, e ele o maldito de um Rei. Talvez seja ESSE o tipo de homem que ele seja.Já tenho quase certeza da sua megalomania de toda forma. -Pronto, me trouxe aonde queria. Estou no seu covil e imobilizada, completamente vulnerável. O que vai fazer agora? Me mostrar alguma espécie de coleção bizarra de alguma coisa sombria e terrível, e insinuar que vou de alguma forma, passar a fazer parte dela? Vai me prender no seu sótão (até por que não acho que esse seja o tipo de lugar com porão macabro, então talvez um sótão seria mais provável, já que estamos no último andar), acorrentada e vestindo uma roupa de empregada pro resto da minha vida? -Acho que você está me confundindo com o tipo errado de sequestrador. Aliás, não se vê muitas pessoas por aí com uma imaginação como a sua, você passa muitas noites acordada vendo esse tipo de filme, não é? -Você deveria saber disso, não sei por que está me perguntando. Você não é o stalker que aparentemente sabe tudo de mim? Da cor da p***a da calcinha que estou usando até a hora em que fui dormir no dia anterior? -Eu sou bem seletivo com as minhas informações. Algumas coisas eu prefiro ter o trabalho de descobrir do jeito mais difícil, tipo por exemplo, a cor da sua calcinha. Não que você esteja usando uma agora. Claro que não estou usando. Ela está destruída.Esse homem estará me deixando sem calcinhas em breve. -Vai me contar por que eu estou aqui, ou eu vou ter que descobrir do jeito difícil também? Ele me coloca deitada no sofá e anda pelo apartamento, acende a luz da sala, que num passe de mágica é como se tivesse ficado ainda maior e mais bonita, com móveis de madeira que provavelmente vieram com etiqueta e selo de garantia de algum marceneiro bem prestigiado. Mas apesar disso, não tem muita personalidade. É como se alguém não tivesse se preocupado muito em querer passar isso na mobília. É masculino, tem preto e tem marrom, mas nada mais que isso.A única coisa pra mim que de fato chama atenção é a janela. Ele vem até mim e se abaixa, tirando o nó que amarrava minhas pernas uma na outra e eu já estico meus pés movimentando de um lado pro outro, quem olhasse talvez pensasse que eu estava horas com eles amarrados, a ponto do sangue nem ter conseguido circular. Ele olha pra mim e fala.-Não vou dar nenhum aviso sobre o que acontece se você tentar fugir, vou deixar pra você decidir se vale a pena o risco da mesma forma que eu gosto de decidir qual vai ser sua punição. Eu olho pras minhas mãos, constrangida. -Não vai soltar minhas mãos? -Você não vai precisar delas agora, estou sendo bonzinho e te deixando usar os pés, mas é só isso por enquanto. Vem comigo. Ele anda pelo apartamento em direção a uma porta de madeira polida. Eu vou atrás dele, sem fazer qualquer reclamação e também sem tanta fugir, apesar de ser muito tentador, eu duvido muito que tenha dado o mole de deixar a porta destrancada.
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