Capítulo 01
Jade narrando
— a sua irmã é alérgica a frutos do mar, você está cansada de saber disso, sua mula — a minha madrasta feita jogando um prato de bobó de camarão em cima de mim
Aquilo me cegou de ódio, tanto quanto quela cara de sonsa da Iara, que ontem estava na beira da piscina se esbaldando em camarão, enquanto a mamãe dela estava fora de casa fazendo sei lá o que.
Eu to cansada dessas duas, eu já falei que eu não vou sair dessa casa, essa casa era da minha mãe, mas o meu pai deixou ela cheia de dívidas, o meu advogado ta tentando resolver processo de inventário, e eu não vou sair daqui enquanto essa merda não for resolvida.
Tenho outras prioridades, tenho outras casas, elas também, porque meu pai tinha outros imóveis, mas é claro que o i****a trouxe elas para a mansão da minha mãe porque é maior, mais chique, e meus avós deram duro pra construir e deixar esse patrimônio pra minha mãe e sucessivamente pra mim. Então dessa casa aqui eu não abro mão. Elas dizem ter direito porque desde que minha mãe morreu meu pai trouxe elas pra cá.
Eles já eram casados a anos, meu pai e minha mãe se separaram por culpa dessa mulher porque ela veio aqui esfregar na cara da minha mãe que estava grávida do meu pai. Meu pai assumiu, e então minha mãe não aceitou e pediu o divórcio.
Meu pai nunca aceitou a separação, vivia correndo atrás da minha mãe, implorando pra voltar, mesmo estando com essa vaca, e minha mãe nunca aceitou. Até pra empresa ela parou de ir porque ele perseguia ela até lá, ela me colocou no seu lugar eu ainda era menor de idade, eu ia resolvia tudo, passava pra ela, ela mudava o que achava necessário e assinava os documentos, mas desde nova quem assumiu toda a responsabilidade fui eu. Enquanto essas duas fuleiras só pensavam em viajar e gastar o dinheiro do meu pai.
Foram anos de brigas incansáveis quando eu descobri que elas usavam o cartão corporativo da empresa que era dos dois. Elas não tinham permissão de usar aquele dinheiro, elas não podiam mexer no patrimônio que não era só do meu pai.
Mas ele, pra afrontar a minha mãe, pra fazer ela ir falar com ele, pra fazer ela ir na direção dele continuava permitindo.
Mas a minha mãe nunca deu a ele o que ele quis, ela simplesmente entrou com um processo de violência patrimonial que arrancou metade das ações do meu pai da empresa. Ela não abaixava a cabeça pra ele em nada. Ao mesmo tempo que minha mãe era a pessoa mais amorosa do mundo comigo, que os nossos momentos juntas eram únicos, as vezes fazíamos a noite das meninas em casa mesmo, cuidávamos uma da outra com tanto carinho, nos divertíamos sem extravagância alguma, esses momentos eram sensacionais. Duas vezes por anos nós duas íamos viajar e era batata, assim que voltávamos as duas davam um jeito de ir pro mesmo lugar que nós havíamos ido. Elas queriam ser a cópia da minha mãe em tudo, elas queriam viver a vida que nós vivíamos, a diferença que nós podíamos, minha mãe não dependia do meu pai, ao contrário daquelas duas que até pra comprar uma bala precisam do cartão dele.
Eu estudei muito, me formei com honras na faculdade, fiz duas faculdades ao mesmo tempo e ainda trabalhava na empresa, eu tinha hora pra sair de casa mas nunca tive hora pra voltar. Minha mãe me ensinou a ser assim, nunca depender de homem pra nem uma agulha, porque na hora que eu precisasse sair de qualquer situação eu teria como me virar e não ficar presa a nada e a ninguém. Exatamente como ela fez com meu pai.
Quando ela morreu eu fiquei devastada, eu estava em viagem pela empresa, meu pai me ligou arrasado, ele chorava feito criança na ligação. Eu peguei o primeiro voo de volta pra casa, eu queria me tele transportar e estar ao lado dela naquele momento. Ela já estava doente, e ela fez tudo de caso pensado. Eu não precisava ter ido naquela viagem, eu poderia ter mandado um outro representante, mas ela insistiu que eu fechasse aquele negócio pessoalmente, e eu nunca deixei de atender nenhum pedido da minha mãe. O que pra mim me custou caro pois eu perdi os seus últimos dias de vida, e essa é uma dor que me consome até hoje. Por incrível que pareça o meu pai estava ao lado dela. Desde que descobrimos a sua doença, e que não tinha cura, o meu pai se afundou em álcool, emagreceu muito, ele estava devastado tanto quanto eu. Nós sabíamos que o maior arrependimento dele foi ter traído a minha mãe, só que ela não era mulher de voltar atrás, e ele perdeu pra sempre mesmo. Porque até o fim da sua vida ela nunca deu uma nova oportunidade pra ele. O atual casamento dele não era feliz, não era saudável, era cheio de brigas de desavença e por puro interesse, dela no dinheiro, e dele querendo mostrar pra minha mãe que estava bem, mesmo não saindo do seu pé.
Depois do enterro da minha mãe quando eu cheguei em casa com o meu pai, as duas cobras já estavam na minha casa, foi mais uma briga horrível, eu gritava expulsando elas daqui, meu pai não tinha forças pra nada, e eu queria quebrar elas no meio, porque elas não esperaram nem o corpo da minha mãe esfriar pra fazer inferno, elas não respeitaram a minha dor em nada. Meu pai pediu só aquela noite que elas ficassem aqui, porque nós não tínhamos cabeça pra nada, eu coloquei elas no quarto de empregada naquela noite, porque eu não queria elas dentro da minha casa, até polícia eu ameacei chamar, eu dei um tapa na cara da minha madrasta, eu não aceitava, e nem nunca aceitei aquelas duas como parte da minha família não importava o que dissessem, elas nunca seriam minha família.
No dia seguinte eu dei 24h pro meu pai tirar elas da minha casa e fui pra empresa, porque eu não pude sofrer, eu não pude viver o luto na minha casa, porque se eu ficasse mais um minuto lá eu ia tacar fogo em tudo com elas dentro. E meu pai um banana que baixava a cabeça pra elas duas pisarem, aquilo me revoltava de uma forma sem igual.
Meses se passaram e elas não saíram de lá, se sentiam as donas da minha casa, meu pai cada vez mais afogado numa tristeza que nem aparecia na empresa, eu afogada em trabalho vendo tudo sair do controle, vendo contratos sem assinar, e eu precisei tomar a frente até mesmo das ações dele na empresa, tudo virou um caos e eu só trabalhava. Quando ia pra casa o meu pai estava sempre com uma garrafa de bebida na mão, e as duas voltando cheias de sacolas do shopping. Eu tentei ajudar meu pai de todas as formas, porque as duas só o negligenciaram, eu fiz de um tudo por ele, mas meses após a morte da minha mãe, um dia que eu cheguei exausta mais de meia noite em casa, ao procurar por ele, eu encontrei ele morto, na beira da piscina, com uma garrafa de malbec do lado, e uma foto da nossa família nas mãos.
Naquele dia o meu chão terminou de se abrir, eu fiquei arrasada mais uma vez. As duas estavam viajando, em malta, de férias, férias não sei do que já que elas não faziam nada. E a Valquíria sabia da condição que meu pai estava e nem assim ficou do seu lado.
Eu fiquei destruída com tudo o que estava acontecendo, elas voltaram pro enterro fazendo um escândalo, como se tivessem perdido o próprio ar, mas na verdade era que a partir daquele momento elas sabiam muito bem que a mamata tinha acabado, que a vida boa estava com os dias contados.
O que eu não esperava foi que ao me reunir com o advogado, ele me mostrou um papel onde meu pai havia assinado tirando todos os meus bens e passado para a Iara, ela agora também era dona da empresa e de todos os bens do meu pai, e eu só tinha ficado com a parte da minha mãe, que mesmo sendo a maior parte, mas ainda me obrigava a conviver com aquela fedelha que não sabia somar 1 porcentagem de nada.