Olhares que Falam Demais

449 Words
Puxei Demian pela mão e o convidei a sentar à nossa mesa. Rita revirou os olhos. Gabriel, como sempre, fez aquela cara de que tinha mordido um limão azedo. Fingi não ver. Demian sorriu com gentileza, como se não percebesse a tensão. Ou talvez percebesse, mas não se importasse. Ele se acomodou ao meu lado, e o perfume dele... ah, aquele cheiro amadeirado e limpo, como terra molhada após a chuva, misturado com alguma especiaria leve — me deu vontade de encostar o rosto em seu ombro e esquecer o mundo. Ele me olhou de lado, com um daqueles sorrisos que só ele sabia dar. — Você está linda, Isa. — Você também — respondi, mais baixo do que pretendia. Gabriel bateu o copo na mesa, exageradamente. — E aí, Demian, ainda jogando charme pra cima da Isabela como quando a gente era adolescente? Demian não respondeu. Apenas manteve o sorriso calmo e firme. Rita fingia mexer no celular, mas eu sabia que ela ouvia tudo. — Não é charme. É afeto — ele disse, por fim. — O que temos... é antigo demais pra ser explicado em uma mesa de festa. Senti o calor subir pelo rosto. Demian sempre teve esse dom: falar como se as palavras viessem do coração direto para a alma. Mas antes que eu pudesse responder, senti a vibração mudar. Meu corpo reconheceu antes dos meus olhos. Virei a cabeça lentamente. Lá estava ele. Frederico Molan. Entrando no salão improvisado, os holofotes da entrada cortando sua silhueta imponente. Ao lado dele, Martina, sempre impecável em seus vestidos caros, com aquele ar de mulher que sabe exatamente o que quer — e que consegue. Ao lado do casal, vinha Alex, o diretor financeiro, com o olhar sempre calculista. Frederico parecia não me notar — mas eu sentia o contrário. Cada passo que ele dava fazia meu peito apertar. Era como se, mesmo distante, ele me atravessasse por dentro. Meu corpo inteiro se enrijeceu. Demian percebeu. — Está tudo bem? — sussurrou, se inclinando mais perto. — Ele está aqui — murmurei de volta, sem precisar dizer quem era. Demian olhou na direção dos recém-chegados. Sua expressão endureceu levemente. Só por um segundo. — Não gosto dele — falou com naturalidade, como quem comenta sobre o tempo. — O olhar dele... não é bom pra você, Isa. — Você nem o conhece — defendi, mais por reflexo do que por convicção. — Eu não preciso. — Ele tocou levemente minha mão sobre a mesa. — Às vezes, o instinto diz tudo. Gabriel pigarreou. — Que clima, hein? Rita se levantou. — Vou buscar mais bebida. Eu fiquei ali, no meio de tudo, com o coração disparado.
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