Volto para minha mesa, mas o foco já não existe mais. Meu corpo está ali, mas minha cabeça está longe — presa no olhar de Frederico, na pergunta sobre a marca, no silêncio pesado entre nós dois. Havia algo naquela conversa que me revirou por dentro. Um pressentimento estranho. Como se algo maior estivesse prestes a acontecer.
O expediente termina, mas o peso daquilo tudo me acompanha até em casa. Mamãe me encontra escolhendo uma roupa e franze o cenho.
— Vai sair, Isabela? Não é muito sua cara, hein — comenta, parando na porta do meu quarto.
Papai abaixa o jornal. — E pra onde vai, mocinha?
Dou uma risada sem graça. — A Rita me arrastou pra uma festa. No campo.
— Festa? Você? — Mamãe cruza os braços, desconfiada.
— Só preciso... respirar um pouco — murmuro, evitando seus olhos enquanto ajusto a blusa no ombro. A marca aparece, vívida como sempre. E, por algum motivo, mais quente. Como se pulsasse com vida própria.
Sete horas em ponto, a buzina toca. Rita chega empolgada, como sempre.
— Bora, bruxinha! — grita pela janela, rindo.
Dou tchau, mas noto os olhos preocupados de minha mãe me seguindo até o carro. Na estrada, a cidade vai ficando para trás, engolida pela névoa leve que cobre as árvores.
— Você tá estranha hoje — comenta Rita, desviando de um buraco.
— Desde aquela conversa com Frederico... — começo, mas paro no meio da frase. A sensação de estar sendo observada aperta meu peito. Olho pelo retrovisor. Nada.
Chegamos à festa. As luzes no campo dançam entre as árvores, e a música ecoa ao longe. Logo encontramos Gabriel — o de sempre — já meio alto, sorriso de canto a canto.
— Isa! — Ele me oferece uma bebida, o cheiro forte de cigarro e álcool me fazendo recuar um passo.
— Você abraçou quem, Gabriel? Um cinzeiro? — reclamo, afastando o copo.
— Você ainda é igualzinha — ele ri, fingindo ofensa. — A garota que sentia cheiro de chuva antes da nuvem aparecer.
— E vocês ainda são os mesmos — retruco, pegando um suco de laranja.
Mas então, o ambiente muda. Sinto antes de ver. Um perfume familiar. Um passo calmo na grama. Me viro... e lá está ele.
Demian.
Alto, elegante como sempre, olhos âmbar que quase nunca sorriam — mas que hoje, brilham quando me vê.
— Isa — ele diz, abrindo os braços. — Como eu senti sua falta.
Corro até ele, o abraço apertado. Um calor bom me invade. Sempre foi assim com Demian. Desde a infância. Ele me entende sem palavras.
Mas atrás de mim, Rita e Gabriel se entreolham, como se tivessem visto um fantasma.
— Você não me disse que ele viria — sussurra Rita, incomodada.
— Nem sabia — respondo.
Mas, no fundo, sei que ele sempre sabe quando preciso dele.