Diretoria

779 Words
A Marca da Minha Alma Tomo meu café — ainda bem que já estava pronto — e saio praticamente correndo. Nunca fui do tipo que passa horas em frente ao espelho, mas gosto de me vestir bem. Algo confortável, bonito… e sem saltos. Saltos me irritam. O som, a pressão. Detesto. — Caramba… vou chegar atrasada. De novo — murmuro, acelerando o passo. Quase tropeço nos próprios pés ao entrar na empresa. Caminho direto até minha mesa, ofegante. Ligo o computador, ajeito o cabelo e tento parecer minimamente apresentável. Sou secretária. Consegui esse emprego para pagar a faculdade de veterinária. Não é o que sonhei, mas é o que posso ter. Pelo menos, por enquanto. Levanto para buscar mais um café — minha dose de sobrevivência diária — e então… — Ai, meu Deus! O café voa da minha mão. Outra vez. E, como uma maldição recorrente, respinga na camisa preta impecável de Frederico Molan. Pela terceira vez. Em uma semana. Terceira. Meu coração para. Engulo em seco. Levanto os olhos devagar e lá estão eles: os olhos castanhos dele. Profundos. Frios. Intensos. Olhos que me desarmam. Que me atravessam como se soubessem o que se esconde dentro de mim — até aquilo que nem eu compreendo. Ele é o dono da empresa. O homem que comanda tudo aqui. A cidade inteira, talvez. Alto. Ombros largos. Postura impecável. Tudo nele é rigidez e controle. Os cabelos pretos contrastam com a pele clara. As roupas escuras reforçam o ar inacessível. Ou talvez... perigoso. Mas há algo além do visual. Algo invisível. Uma força ao redor dele que me atinge como um campo magnético. Ele olha para mim. De verdade. Como se visse através da carne, direto para a minha alma. Ou para algo mais profundo. Mais antigo. — Isso já está ficando recorrente… — a voz dele é baixa, grave, gélida. — Toma mais cuidado, Isabela. Ou vou ter que te dispensar. Sinto a garganta fechar. Meu rosto queima. Aperto a caneca vazia nas mãos, sem saber onde enfiar os olhos. — Me desculpe… — murmuro. E então… algo muda. Ele não está mais olhando nos meus olhos. Seus olhos deslizam… para o meu ombro. A alça da blusa havia caído um pouco. E a marca ali — aquela marca que sempre tentei esconder — estava visível. Uma lua crescente entrelaçada a asas douradas, como se tivesse sido esculpida com luz e fogo sobre minha pele. Seus olhos se fixam ali. O mundo parece parar por um instante. Ele fica imóvel. O rosto, antes austero, agora é só surpresa. Espanto. Reconhecimento. — Senhor Frederico… — a voz cortante de Martina invade o momento. O encanto quebra. Ela entra com seus saltos altos e sorriso falso. Seu perfume forte invade o ar, junto com sua presença carregada. E como sempre, fingindo que eu sou invisível. Frederico desvia o olhar da minha marca, recolhe sua frieza como uma capa e segue com ela sem dizer mais nada. Me deixa ali. Plantada. Coração em descompasso. — Nossa… até o cheiro dela me incomoda — murmuro, mais alto do que deveria. — Hã? — Rita arregala os olhos, quase derrubando o próprio café. — Você se incomoda até com cheiro agora? Pisco. Paro. E me dou conta. — Sim. Sempre senti cheiros antes de todo mundo. Sempre me incomodei com barulhos altos… saltos, gritos, ruídos. Sempre fui assim. Sensível. Estranha. Mas agora… começo a me perguntar: até que ponto isso é apenas uma sensibilidade? E até que ponto é um sinal? Olho para a porta por onde Frederico desapareceu. Aquela marca no meu ombro. A forma como ele a olhou. A tensão nos olhos dele. Ele sabia o que era. Ele reconheceu. E, de alguma forma… eu também reconheci algo nele. Algo que não tem nome. — Isa! Vai ter uma festa hoje à noite, na fazenda dos irmãos Costa! Vai, por favor — Rita implora com aquele jeito animado dela. Minha vontade é recusar. Mas algo dentro de mim — talvez aquela parte que acordou depois do olhar de Frederico — me cutuca. Me inquieta. — Tá bom. Eu vou — digo, antes que me arrependa. Quando o expediente quase termina, Luiz aparece. — Isabela… o senhor Frederico quer te ver. Sala dele. Disse que é pra pegar os documentos das reuniões. Meu corpo inteiro se arrepia. — Só… documentos? Luiz dá de ombros. Mas eu sei que não é só isso. Meu coração sabe. Respiro fundo. Caminho até a porta de madeira escura. Letras douradas gravadas nela: “Diretoria – Frederico Molan.” E por algum motivo, sei que minha vida… nunca mais será a mesma depois de atravessar essa porta.
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