O som.
Um estalo lá fora. Rápido. Seco.
Congelo.
Me viro, quase sem respirar, para a janela. O vidro parece mais fino do que nunca. Do outro lado, a floresta se estende como uma boca aberta, pronta para engolir qualquer coisa... ou qualquer um.
A lua está alta. Cheia. Quase dourada. Observa como um olho vigilante.
E então... eu vejo.
Uma silhueta.
Ali. Bem na linha onde a floresta começa. Alto. Imóvel.
Humano. Ou... quase.
O vento move os galhos, mas ele não se move.
Meus olhos se estreitam. Meus ossos tremem.
O estranho levanta lentamente o rosto, como se soubesse exatamente onde estou. A luz da lua reflete. Olhos prateados. Intensamente prateados.
Por um segundo, é como se o mundo inteiro desaparecesse.
Tudo o que resta é aquele olhar.
Meu corpo grita para correr. Meu coração dispara. Mas... uma outra coisa, algo mais fundo, mais primitivo, mais... antigo... me puxa para ele.
Como se uma parte de mim o conhecesse.
Como se uma parte de mim... sempre o tivesse esperado.
— Quem é você...? — sussurro, sem perceber.
E então... ele sorri. Ou acho que sorri. Um sorriso que não chega aos lábios, mas acende nos olhos.
Dá um passo para trás. Outro. A floresta o engole.
Mas antes que suma completamente, o vento carrega.
Uma voz. Um sussurro. Um chamado.
— Nos veremos em breve... Isabela.
Meu corpo inteiro congela.
Ele... sabe meu nome.
Mas... como?
Seguro no parapeito da janela, as mãos suando, as pernas fracas, o peito apertado.
E é nesse exato momento que ela queima.
A marca.
Queima como se a lua inteira estivesse acesa dentro de mim.
E eu sei.
Algo começou.