Jefinho
O ar na boca do Complexo de Israel nunca era limpo. Era uma mistura de fumaça, suor e uma tensão elétrica que pairava no ambiente, mesmo nas noites mais calmas. Michel Maia estava em seu escritório improvisado, no fundo do galpão principal, um espaço pequeno e espartano, mas com uma segurança que o tornava uma fortaleza. Ele repassava números, tabelas de controle de dívidas e rotas de entrega, a mente afiada como uma navalha, cortando o caos em ordem.
A porta rangeu, e Jefinho, seu homem de confiança e um dos poucos que tinha acesso irrestrito, entrou. O gigante, que havia entregado o gás na casa de Nayla dias antes, parecia mais pensativo que o normal. Jefinho era um homem de poucas palavras, e quando falava, era porque algo exigia atenção.
— Blade”, Jefinho começou, a voz grave, mas com um tom um pouco diferente do habitual, “vim falar sobre aquelas meninas novas.”
Blade levantou os olhos dos papéis. Seu olhar era sempre de intensidade máxima, um aviso. Ele não gostava de desviar o foco de seus negócios, mas a menção de Nayla e Aylla sempre provocava uma leve, quase imperceptível alteração em sua postura.
— O que tem elas? Não estão sendo incomodadas, estão?” Sua voz era seca, um alerta.
Jefinho negou com a cabeça.
— Não, chefe. Pelo contrário. O pessoal tá respeitando a ordem. Ninguém se aproxima. Mas… a situação delas lá no barraco não é boa.”
Blade arqueou uma sobrancelha, um sinal para Jefinho continuar.
— O lugar é um buraco, Blade. Telhado com
goteira, parede mofada. Quase nada de móvel. A pequena, Aylla, ela tá se recuperando da pneumonia, né? Mas a umidade, a poeira… É um perigo. Vi a Nayla tentando estender roupa molhada dentro de casa porque não tem sol direito lá. E o rancho… é pouco. Dá pra ver que elas tão passando aperto de novo.”
Jefinho pausou, e Blade podia ver que o gigante estava incomodado. Jefinho, com toda a sua brutalidade no mundo do crime, tinha um estranho código de honra, e a vulnerabilidade de crianças o tocava de uma forma particular.
Blade ouvia em silêncio, a mandíbula travada. O que Jefinho descrevia era a dura realidade da favela para os que não tinham nada, para os que não estavam sob sua "proteção" direta. Mas Nayla e Aylla estavam sob sua proteção. Ou, pelo menos, ele havia decidido que estariam.
A imagem de Aylla, febril nos braços de Nayla, voltou à sua mente. O desespero nos olhos daquela mulher, que ele sabia ser de outro mundo. A necessidade dela, tão crua, tão real, que a levou a quase cruzar uma linha perigosa. Ele havia intervindo, sim. Havia jogado dinheiro para a situação imediata. Mas isso não resolvia a raiz do problema.
— Não é problema meu, Jefinho”, Michel disse, mas a voz não tinha a convicção habitual. Era um teste. Uma negação.
Jefinho não se intimidou.
— Com todo respeito, Blade, é problema seu sim. Você que mandou ajudar. E se a menina piorar por causa do barraco, o pessoal vai comentar. Vão dizer que você só ajudou pela metade. E o pior: a menina tá vulnerável. Se alguém de fora souber que elas tão sem nada, que a Nayla tá sozinha, pode dar problema pra você lá na frente. Pra sua ‘proteção’.”
As palavras de Jefinho atingiram Blade onde doía. Não era a reputação o que mais o preocupava, embora fosse importante. Era a imagem da fragilidade da criança, e a determinação daquela mulher, Nayla. Ele havia agido por um impulso que nem ele mesmo entendia, um resquício de algo que achou que tivesse morrido há muito tempo, soterrado sob anos de violência e perdas. A perda de Anellyse.
Ele não era um santo. Longe disso. Suas mãos estavam sujas de sangue. Mas havia uma linha que ele não gostava de ver cruzada, especialmente quando se tratava de crianças. E o que Jefinho descrevia era uma violação dessa linha, mesmo que não fosse por ação direta de seu império. Era a negligência de um mundo que as havia cuspido para ali.
Michel se levantou, caminhando até a janela de seu escritório, que oferecia uma vista parcial da comunidade. As luzes fracas dos barracos piscavam na escuridão. Em algum lugar ali, Nayla tentava manter sua irmã viva em condições miseráveis.
— Qual a situação do barraco do finado Tonhão?”, Blade perguntou, mudando de assunto abruptamente. Tonhão era um antigo devedor que havia sumido do mapa meses atrás, deixando um barraco de dois cômodos, um pouco maior e em uma parte mais seca do morro, livre.
Jefinho captou a mudança de direção.
— Tá vazio. Ninguém quis mexer. É um lugar bom, mais alto, mais ventilado. Mas precisa de um trato.”
Blade assentiu, a mente já formulando um plano. Não era caridade. Era logística. Era controle. Era evitar que um pequeno problema se tornasse um grande problema para seu território. Era cuidar do que agora, de alguma forma inexplicável, era dele.
— Arruma uns caras. Reforma o barraco do Tonhão. Sem chamar atenção. E a partir de amanhã, elas vão morar lá. Sem perguntas. Sem fofoca.” Ele se virou para Jefinho, os olhos escuros brilhando com uma nova determinação. “E o rancho delas, a partir de agora, é conta minha. Toda semana.”
Jefinho não questionou. Apenas assentiu, um sorriso quase imperceptível nos lábios. Ele conhecia o Blade. Sabia que, por trás da dureza, ainda havia o homem que havia perdido uma filha, que tinha um código próprio, ainda que distorcido.
Blade voltou-se para a janela, observando o morro. Ele não era um salvador. Não se considerava um. Mas algo dentro dele havia sido tocado. A vulnerabilidade de Nayla, a inocência de Aylla. Ele havia feito um gesto. E agora, esse gesto o arrastava para mais perto delas, para uma responsabilidade que ele não havia pedido, mas que estava disposto a assumir. O fio da navalha entre sua crueldade e seu estranho senso de proteção ficava cada vez mais tênue.