O Fio da Navalha

950 Words
Blede O cheiro de pólvora ainda pairava no ar da favela do Complexo de Israel, misturado à fumaça agridoce do crack. Não que Michel Maia se importasse. Para ele, era o perfume da ordem, a fragrância de um império mantido a pulso firme. Dentro do barracão principal, iluminado por lâmpadas fluorescentes que zumbiam como insetos gigantes, o calor era sufocante. Longe da brisa do mar que antes Nayla sentia na Barra da Tijuca. Aqui, o ar era denso, pesado, e a gravidade das decisões de Michel parecia intensificá-lo. À sua frente, dois de seus homens, Dudu e Célio, seguravam um terceiro, um rato franzino de uns vinte anos, os olhos arregalados de terror. O tal "Olho Seco", um mero distribuidor de segunda, havia desviado uma remessa. Uma tonelada de maconha. Não era a quantidade que o irritava; era o desafio à sua autoridade. Uma pequena rachadura no concreto que ele havia erguido com tanto sangue e suor. Michel estava sentado em uma cadeira de plástico barata, que parecia um trono na sua presença imponente. Seus coturnos estavam apoiados em uma mesa improvisada, feita de compensado. Ele não precisava gritar. Sua voz era um sussurro grave, mas cada palavra carregava o peso de cem facadas. — Então, Olho Seco”, Michel começou, a voz quase um ronronar perigoso, “você achou que podia pegar o que é meu e sair impune?” O rapaz tremia tanto que seus joelhos batiam um no outro, produzindo um som patético. — Não, Blade! Juro! Foi... foi uma dívida de jogo! Eu ia repor! Juro por Deus!” Michel riu. Um som seco e sem humor. — Deus não mora aqui, moleque. Aqui quem dita as regras sou eu.” Ele gesticulou para Dudu, que apertou o braço de Olho Seco, fazendo-o grunhir de dor. “Acha que roubar uma tonelada é brincadeira? Acha que não vai ter consequência?” — Eu... eu tenho uma irmã! Pequena! Eu preciso dela!”, Olho Seco guinchou, tentando uma última cartada de desespero. A menção de uma irmã pequena fez algo em Michel. Um flash rápido, quase imperceptível. Não era a imagem de Anellyse, sua filha, nem a de Beto, seu irmão de criação. Era algo mais recente, um sussurro que a boca miúda do morro já trazia. Duas meninas novas. Uma adolescente e uma criança. Filhas de gente rica que "caiu". "Princesinhas da Barra", a boca do povo dizia. Morando no barraco que era do finado Zé Padeiro. Perto de um dos seus pontos de distribuição. A rigidez no semblante de Michel se acentuou. Ele havia dado ordens expressas para que as novatas não fossem incomodadas. Não gostava de espetáculo com civis, ainda mais crianças. Seu império era para os negócios, não para o caos desnecessário. Esse Olho Seco era um exemplo vivo de como o caos se espalhava. Seus homens esperavam, as facas afiadas no cinto, as armas destravadas. A punição padrão para desvio de carga era exemplar. Violenta. Pública. Michel inspirou fundo, o cheiro de suor e medo inundando suas narinas. Ele era Blade, o terror da favela. Mas a voz de Olho Seco, mencionando a irmãzinha, havia ressoado com um eco estranho. Não era compaixão, não a de um homem que havia visto e feito tanto m*l. Era... um lembrete de que o mundo, mesmo ali, não era feito só de monstros. De que, às vezes, um fio de algo mais frágil se entrelaçava com a brutalidade. — Olho Seco”, Michel disse, e o tom de voz mudou. Não ficou mais suave, mas se tornou mais frio, mais cirúrgico. “Você tem um dia. Um. Para trazer o dinheiro da carga e para me entregar quem te empurrou para essa merda.” Ele fez uma pausa. “E se eu souber que você encostou um dedo na sua irmã ou em qualquer outra criança pra se safar, eu te caço até no inferno.” Os olhos de Dudu e Célio se encontraram por um instante, surpresos. Uma tonelada de desvio e o cara estava ganhando uma segunda chance? Era incomum. Olho Seco, atônito, assentiu com a cabeça freneticamente, lágrimas de alívio escorrendo pelo rosto sujo. — Sai daqui”, Michel rosnou, dispensando-o com um movimento de cabeça. Olho Seco cambaleou para fora do barracão, quase tropeçando nos próprios pés. Dudu se aproximou de Michel, a voz baixa. — Blade, uma segunda chance? Esse rato vai te trair de novo.” Michel levantou o olhar pesado para Dudu. — Eu sei o que faço. Ele não vai trair. E se tentar, vai se arrepender de ter nascido. Mas eu quero saber quem está por trás dele. E quero saber sem alardes.” A verdade era que Michel não queria mais sangue desnecessário manchando o seu chão, pelo menos não hoje. A notícia das garotas da Barra, sozinhas e vulneráveis no coração do seu território, havia plantado uma semente de cuidado. Um lembrete sutil de que, mesmo o mais frio dos homens, ainda podia ter algo para proteger. E ele não queria que o rastro de suas punições respingasse nelas. Não ainda. Não enquanto ele estivesse no controle. Ele se levantou, caminhando até a saída, o olhar varrendo o morro lá fora, onde as luzes piscavam em uma promessa de vida e morte. A chuva havia parado, mas o ar ainda estava carregado. Ele era o rei daquele lugar, e isso significava manter a ordem, sim, mas também, de alguma forma, preservar o que restava de pureza. Ainda que essa pureza não fosse sua, mas sim a de duas meninas recém-chegadas, cujo mundo, ele sabia, tinha acabado de desabar. E o dele, ironicamente, estava prestes a se complicar por causa delas.
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