Nayla
O pequeno mercado do Complexo de Israel era um amontoado de cheiros: cebola, tempero industrializado, sabão em pó barato e a umidade persistente que vinha do concreto e do suor. Para Nayla, era um campo minado de humilhações silenciosas. Duas semanas no morro haviam apagado qualquer resquício da "princesinha da Barra", mas a cada ida ao mercadinho, a dura realidade esfregava-se em seu rosto.
Naquele final de tarde abafado, o ar condicionado do lugar roncava, ineficaz contra o calor. Aylla, com seus quatro anos, agarrava a barra do vestido desbotado de Nayla, os olhos grandes e curiosos vasculhando as prateleiras empoeiradas. Ela parou, apontou para a geladeira de laticínios, onde potes coloridos de Danoninho se empilhavam.
— Mana, posso pegar um Danoninho?”, Aylla perguntou, a voz miúda, cheia de uma inocência que Nayla queria desesperadamente preservar.
O coração de Nayla apertou. Ela olhou para o trocado amassado na palma da mão. Não dava. m*l dava para o pão e o fubá. O pouco que ela tinha, ganhado fazendo faxinas rápidas e m*l pagas em algumas casas, precisava ser esticado ao máximo. A promessa de dinheiro fácil que alguns meninos das vielas sussurravam, com olhares maliciosos, ainda não havia se tornado uma opção, mas a tentação era uma sombra constante.
— Agora não, meu amor. A gente leva um biscoito”, Nayla tentou desviar, mas a voz saiu mais áspera do que pretendia.
Aylla fez um beicinho, os olhos marejando.
— Mas eu queria tanto, mana...”
A frustração explodiu em Nayla, não por Aylla, mas pela impotência. Ela queria gritar, queria chorar, queria que Daniel Albuquerque estivesse ali para ela poder esganá-lo. Em vez disso, ela se agachou, tentando controlar o tremor nas mãos.
— Não dá, Aylla. Entende? Não dá. A gente não tem dinheiro.” A verdade era uma faca afiada.
Um homem alto e corpulento passou pela gôndola de biscoitos, o olhar varrendo o corredor. Ele parou. Nayla o sentiu antes de vê-lo. Uma presença forte, um silêncio que se impunha, mesmo com o burburinho do mercado. Michel Maia. O Blade.
Ele estava de costas para elas, os ombros largos preenchendo o corredor, a camisa escura marcando os músculos. Michel falava baixo com um dos caixas, que assentia freneticamente, com uma reverência quase servil. O rumor era de que ele era o dono de tudo ali, da paz e do caos.
Nayla puxou Aylla para perto, tentando se misturar, tentando ser invisível. A última coisa que ela precisava era chamar a atenção do rei do morro. Ele era perigo personificado, uma lenda urbana viva, e o terror em seus olhos era algo que a mídia jamais mostraria.
Mas Aylla, alheia ao perigo iminente, soltou-se da mão de Nayla e correu um passo em direção à geladeira do Danoninho, atraída pelo desejo infantil. Um pequeno e audível "Ah!" de frustração escapou dela quando percebeu que não conseguiria alcançar.
Michel, que estava prestes a se virar, ouviu o som. Seus olhos, antes focados no caixa, desviaram para o barulho. Ele viu Aylla, pequena e emburrada, e depois Nayla, pálida e tensa, puxando a menina de volta para si. A cena era um clichê de miséria, mas algo nela o atingiu.
Ele os havia visto de longe, as "meninas da Barra". Sabia que estavam no barraco do Zé Padeiro. Mas vê-las de perto, naquele desespero silencioso por algo tão trivial, era diferente. A dignidade arranhada de Nayla, a inocência ameaçada de Aylla. Não era uma cena que ele esperava encontrar na sua rotina de "negócios" no mercadinho.
Michel sentiu um nó na garganta. Lembrou-se de Anellyse, de como as pequenas vontades dela eram tão fáceis de satisfazer, e de como o mundo havia roubado essa facilidade. A dor antiga era um arrepio na espinha.
Ele se virou para o caixa, a voz baixa, mas firme.
— Pode colocar mais dois Danoninhos e um pacote de biscoito daquele de morango na minha conta. E mande entregar na casa do Zé Padeiro, agora. Sem alarde.”
O caixa assentiu, sem questionar, mas com um olhar de surpresa velada.
— Sim, Blade. Na hora.”
Nayla, que ainda estava agachada ao lado de Aylla, ouviu a ordem. Ela não havia percebido que Michel as observava. Seu coração disparou. Olhou para cima, e seus olhos se encontraram com os dele.
O olhar de Michel era intenso. Não havia raiva, nem desprezo. Havia algo mais complexo, algo que Nayla não conseguia decifrar. Era uma mistura de dureza inabalável e um relâmpago de... reconhecimento? Dor? Ela não sabia. Mas era um olhar que a perfurava, que a via de uma forma que ninguém mais naquele morro havia visto.
Ele não disse uma palavra. Apenas manteve o contato visual por um segundo, talvez dois, que pareceram uma eternidade. Depois, girou nos calcanhares e caminhou para a saída do mercado, seus homens abrindo caminho. A presença dele diminuiu, mas o peso do seu olhar permaneceu em Nayla.
Aylla, ainda alheia ao encontro tenso, cutucou o braço de Nayla.
— Mana, olha! O moço do caixa tá colocando Danoninho na sacola!”
Nayla olhou. Eram três potes. E um pacote de biscoito de morango. Exatamente o que Aylla queria. E a ordem de entrega na casa do Zé Padeiro.
O rubor subiu ao rosto de Nayla. Humilhação. Caridade. Ou talvez... outra coisa? Ela não conseguia entender. O homem que dominava aquele inferno, o temido Blade, havia acabado de comprar um Danoninho para sua irmãzinha.
Ela pegou Aylla pela mão, os olhos ainda grudados na porta por onde Michel havia saído. O mundo do morro era mais complexo do que ela imaginava. E o rei desse mundo, mais enigmático do que qualquer lenda.
O que você achou deste primeiro encontro? Ele estabelece a tensão e a dualidade de Michel, ao mesmo tempo que mostra a vulnerabilidade e a percepção de Nayla.