Fome, Medo e a Promessa no Olhar

1455 Words
Nayla Os dias no barraco do finado Zé Padeiro eram uma sucessão de calor abafado, cheiro de esgoto a céu aberto e a constante sinfonia de tiros distantes que Nayla estava, assustadoramente, começando a se acostumar. Duas semanas haviam se arrastado desde o incidente do Danoninho no mercado, e cada amanhecer trazia a mesma pergunta: como sobreviver? O pouco dinheiro que Daniel Albuquerque não havia limpado desaparecera. Nayla vendera o que restava de suas joias e algumas roupas de grife para comprar comida e colchões velhos para ela e Aylla. O orgulho, antes um manto, agora era um luxo que ela não podia se dar. Aylla, com a resiliência assombrosa da infância, tentava se adaptar. Brincava com pedrinhas no chão de terra batida da "sala", desenhava com carvão nas paredes. Mas Nayla via a fome silenciosa nos olhos da irmã, o desejo por algo mais do que o arroz e feijão ralos que ela conseguia cozinhar no fogareiro a gás. O biscoito e os Danoninhos que chegaram misteriosamente dias atrás haviam sido um alívio, um pequeno oásis, mas a fome real logo retornou. Nayla havia tentado de tudo. Bateu de porta em porta oferecendo para lavar roupa, limpar casas. As mulheres do morro a olhavam com uma mistura de curiosidade e pena. A "menina rica" estava aprendendo a dureza da vida. Alguns trabalhos surgiam, faxinas rápidas que m*l davam para o dia. A mão de Nayla, antes acostumada com teclados de computador e tecidos finos, agora doía com o sabão e o esfregão. — Mana, tô com sede”, Aylla murmurou, interrompendo os pensamentos de Nayla enquanto ela tentava remendar uma calça rasgada. A água da torneira do barraco tinha um gosto estranho, metálico. A água mineral era cara. Nayla suspirou. Ela precisava de mais dinheiro. Muito mais. As frases sussurradas pelos meninos na viela, "dinheiro fácil, só um corre, novinha", começaram a ecoar em sua mente com uma tentação perigosa. Ela balançou a cabeça, espantando o pensamento. Não. Jamais. Não enquanto Aylla a tivesse. No dia seguinte, a situação piorou. Aylla acordou com febre e uma tosse seca. O corpo de Nayla congelou. O posto de saúde da comunidade era distante, superlotado, e ela não tinha dinheiro para remédios caros. O medo, um companheiro constante, agora sufocava. Com Aylla aninhada em seu colo, Nayla olhou para as paredes pichadas do barraco. Uma pequena fresta na parede de madeira podre lhe deu uma visão do mundo lá fora. Ela viu os rapazes de Michel em suas motos, as armas evidentes, a rotina implacável do tráfico. Um deles, um garoto novo de rosto sardento, a pegou observando e desviou o olhar rapidamente, como se não quisesse ser notado. Aquele mundo, brutal e sem lei, era a nova realidade de Nayla. E o homem que o controlava, Michel Maia, era uma força quase mitológica. Ela havia sentido o olhar dele no mercado, a estranha mistura de poder e algo mais, algo quase humano. Mas ela sabia que não podia confiar nisso. Ele era Blade. O homem que fazia as regras ali. A febre de Aylla subia. Nayla a deitou em um colchão velho no chão, molhou um pano e o colocou na testa da irmã. As lágrimas, que ela jurara não derramar, começaram a escorrer livremente pelo seu rosto. Era um choro silencioso, de puro desespero. Ela estava sozinha. Completamente sozinha. Mas enquanto o desespero ameaçava engoli-la, um pensamento teimoso surgiu. Ela não podia se dar ao luxo de desistir. Não enquanto Aylla olhasse para ela com aqueles olhos cheios de confiança, aquela promessa de um futuro que Nayla precisava construir. Com um novo fôlego de determinação, Nayla se levantou. O morro era perigoso, sim. Mas ela era uma Machovane, mesmo que agora fosse uma Machovane sem nada. Ela sobreviveria. E Aylla também. Ela olhou para a viela, onde a vida fervilhava em seus perigos e oportunidades. Havia um jeito. Tinha que haver. E para sobreviver, ela faria o que fosse preciso. A "princesinha da Barra" estava morta. Agora, nascia uma Nayla do morro. E seu caminho, ela sabia, fatalmente a levaria de volta para perto daquele que observava de longe, o homem que era a chave para a sobrevivência, ou talvez, o maior de todos os perigos. O homem que, por algum motivo, havia comprado um Danoninho para sua irmã. O relógio de parede do barraco, um objeto velho e empoeirado que Nayla havia encontrado jogado em um canto, parecia zumbir mais alto que o normal. Cada tique-taque era um martelo batendo em sua cabeça, em sincronia com o ritmo da febre de Aylla. A testa da menina ardia. Os olhos estavam vermelhos e cansados, e a tosse, antes seca, agora vinha com um chiado preocupante. — Mana… dói”, Aylla sussurrou, a voz fraca, enquanto Nayla trocava o pano úmido em sua testa pela décima vez. O desespero de Nayla era um punho apertando seu peito. Ela havia tentado de tudo que estava ao seu alcance: banhos mornos, chás de ervas que uma vizinha mais velha, Dona Sônia, havia ensinado. Mas nada resolvia. Aylla estava piorando, e a cada minuto que passava, Nayla sentia o chão ruir sob seus pés. Ela havia ido ao posto de saúde da comunidade na manhã anterior, arrastando Aylla a tiracolo. A fila era interminável, o cheiro de desinfetante misturado a corpos suados e a impaciência de outros pacientes. Depois de horas, a enfermeira m*l olhou para Aylla, murmurando algo sobre "virose" e receitando um paracetamol genérico. O remédio não havia feito efeito. — Aguenta firme, meu amor. A mana vai dar um jeito”, Nayla prometeu, mais para si mesma do que para Aylla. Mas como? Não havia mais nada para vender. As últimas moedas m*l dariam para um pão amanhecido. A dor da fome, que ela vinha ignorando em si mesma, agora se manifestava no corpo frágil da irmã. Nayla se levantou, os joelhos doendo. Olhou para a viela através da pequena janela. O sol já se punha, pintando o céu de um laranja e roxo vibrantes, contrastando brutalmente com a sujeira e a desolação abaixo. Os sons do morro começaram a mudar. A música alta das caixas de som, os gritos de crianças brincando, e, mais ominoso, o ronco de motocicletas e as vozes graves dos homens de Blade. Um pensamento, que ela vinha sufocando com todas as suas forças, começou a se infiltrar em sua mente. O "corre" que os meninos ofereciam. Era rápido. Era dinheiro na hora. Era sujo, perigoso, mas daria para comprar os remédios, para comprar comida de verdade, para tirar Aylla daquela situação. Ela balançou a cabeça. Não. Ela não podia. Não depois de tudo o que havia perdido, de tudo o que tinha prometido a si mesma. Mas Aylla tossiu de novo, um som gutural que a fez cambalear. O que é pior, Nayla? Morrer de fome ou arriscar a alma por quem você ama? A voz de Daniel Albuquerque zombava em sua memória: “O mundo é dos espertos, Nayla. E você passou tempo demais vivendo de aparências. Agora, é hora de aprender a sobreviver.” A escuridão caía sobre o morro, e com ela, uma urgência desesperadora. Nayla pegou o casaco mais velho de Aylla, enrolou-a firmemente, e a pegou no colo. A febre fazia o corpo da menina pesar como chumbo. Ela precisava de um médico de verdade, de remédios de verdade. Ela saiu do barraco, a porta rangendo como um lamento. A viela estava mais movimentada agora. Jovens com bonés virados para trás, olhos atentos, alguns fumando cigarros suspeitos, outros conversando em voz baixa. — E aí, gatinha? Perdida?” Um rapaz magro, com o cabelo descolorido e um sorriso torto, se aproximou. Ele era um dos que vivia oferecendo "corres". “Tá precisando de uma ajuda? Uns trocados?” Nayla sentiu um arrepio. Aquele era o momento. Ela precisava do dinheiro. — Minha irmã… ela tá doente. Preciso de um médico, de remédio”, ela disse, a voz embargada. Ela odiava a si mesma por estar ali, implorando. O sorriso do rapaz se alargou. “Ah, entendi. Causa nobre. Tem um corre bom pra você hoje. Coisa leve. Rápida. Cem contos, na mão, assim que entregar.” Ele estendeu um pequeno pacote embrulhado em plástico preto. O cheiro de maconha era sutil, mas inconfundível. Nayla olhou para o pacote. Para a febre de Aylla. Para o desespero em seus próprios olhos. O cheiro do lucro ilícito. A chance de salvar Aylla. Era isso ou ver a irmã definhar. Sua mente gritava "não", mas seu corpo, impulsionado pelo amor, estendia a mão. Ela estava prestes a pegar o pacote, a se render àquela nova realidade, a cruzar a linha que jurou jamais cruzar.
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