30. Carolina

1391 Words
CAPÍTULO 30 CAROLINA Eu ainda estava no quarto 702 quando o telefone de Vicente voltou a vibrar. Ele olhou a tela. Depois guardou. Aquilo, vindo dele, já começava a parecer uma habilidade adquirida. — Não vai atender? — perguntei. — Não. Benício, deitado, ergueu uma sobrancelha. — Quem é você e o que fez com meu pai? — Descansa. — Essa parte continua igual. Celina arrumava pela terceira vez uma bolsa que não precisava ser arrumada. A expectativa de alta tinha deixado todo mundo inquieto, embora Helena tivesse sido clara: antes de qualquer decisão, precisavam repetir os exames e ver como o cálcio reagiria à reposição. Benício queria sair. Vicente queria levá-lo. Celina queria sair com ele protegido por umas seis camadas de algodão. Eu queria que todos esperassem o médico. — Quando sai o exame? — Vicente perguntou. Olhei para ele. — Você acabou de prometer que ia aprender a esperar. — Não prometi nada. — Verdade. Seria avanço demais. Benício riu baixo. A voz ainda estava rouca. Toda vez que ele falava, percebia Vicente prestar atenção. Não era discreto. Benício também percebia. — Para de analisar minha voz. — Eu nem falei nada. — Sua cara fala. — Essa família tem obsessão com a minha cara. Celina respondeu da bolsa: — Porque sua boca mente mais. Eu abaixei o rosto para esconder o sorriso. Foi quando meu celular tocou. Aline. Atendi. — Oi. — Carolina, o hospital entrou em contato com o escritório porque você deixou seus dados como advogada da família. Levantei. — O que aconteceu? Vicente ficou atento imediatamente. — O plano tinha autorização inicial da internação e cirurgia, mas o hospital pediu prorrogação da diária por causa do acompanhamento pós-operatório. Está em análise. Olhei para Benício. — Houve negativa? — Ainda não. Consta pendência de análise técnica. — Alguma justificativa formal? — Não. — Então por enquanto não chama de negativa. Me encaminha tudo. — Já mandei. Desliguei. Vicente já estava de pé. — O que foi? — O hospital pediu extensão da internação. — E? — Está em análise. — Eles querem mandar meu filho embora? — Não. — Mas se não autorizarem— — Vicente. Ele parou. — O hospital não está dando alta ao Benício por causa do plano. A equipe médica vai decidir quando ele pode sair. O que existe agora é uma questão administrativa sobre a cobertura da permanência. — Então eles podem negar a diária enquanto ele precisa ficar? — Podem tentar questionar alguma coisa. Se fizerem isso, eu respondo. A mandíbula dele endureceu. — Eu pago. Benício fechou os olhos. — Lá vem. Virei para Vicente. — Se for necessário para não prejudicar o atendimento, a família pode tomar a decisão que considerar adequada. Mas não vamos desistir da cobertura antes de sequer existir resposta. — Eu não quero que alguém entre aqui dizendo que ele tem que sair porque o plano não liberou. — E ninguém vai decidir a alta dele no setor financeiro. Ele me encarou. — Tem certeza? — A decisão clínica é da equipe assistente. Se houver problema administrativo, o hospital trata com a operadora e eu trato juridicamente do que for necessário. Benício levantou a mão. — Posso votar pra ninguém discutir plano na minha frente por cinco minutos? Eu parei. Vicente também. — Pode — respondi. — Obrigado. Ele virou para o pai. — E você senta. Vicente sentou. — Tá mandando muito. — Aprendi com o melhor. ⸻ O exame de sangue saiu pouco antes do almoço. Helena voltou ao quarto acompanhada de outro médico da equipe. — Melhorou — foi a primeira coisa que disse. Benício se animou. — Então eu vou embora? — Melhorou não significa normalizou do jeito que eu quero para te liberar agora. A animação morreu. — Ah. — O formigamento está como? Ele mexeu os dedos. — Menor. — Isso é bom. Vamos manter a reposição e repetir o controle mais tarde. — Hoje ainda? — Sim. Benício afundou no travesseiro. — Eu já sei que vai terminar com “talvez amanhã”. Helena sorriu. — Talvez amanhã. — Odeio hospital. — É um sentimento permitido. Vicente perguntou: — Tem risco se ele for pra casa hoje? Helena respondeu sem rodeio: — Eu prefiro mantê-lo internado enquanto ajustamos isso e observamos a evolução. — Então ele fica. Benício olhou para o pai. — Eu ia reclamar. — Pode reclamar ficando. — Ditador. — Adolescente. A troca terminou ali. Helena ainda examinou o pescoço, conferiu o dreno e explicou que a retirada dele dependeria da evolução e do débito. Benício fez uma careta. — Isso dói? — Quando chegar a hora eu explico. — Tradução: vai doer. — Tradução: você quer sofrer antecipado. Olhei para ele. — Ela te conhece há pouco tempo e já entendeu. — Todo mundo contra mim. ⸻ Quando Helena saiu, meu celular vibrou de novo. Aline. Dessa vez havia um documento. Li. O pedido de prorrogação continuava sem autorização, mas a operadora solicitava complementação do relatório médico com justificativa para permanência hospitalar. Não era uma negativa. Ainda. Mostrei para Vicente. — Pediram complemento. — A Helena acabou de falar que ele precisa ficar. — E isso precisa constar formalmente no relatório enviado. — Ela não falou em português suficiente? — Medicina falada no quarto e documento enviado à operadora são coisas diferentes. Ele passou a mão no rosto. — Isso é surreal. Benício falou da cama: — Eu oficialmente virei um PDF. Olhei para ele. — Quase. — Nome, carteirinha, diagnóstico, cálcio… — Não esquece protocolo — falei. — A pior parte. Vicente não achou graça. Eu me aproximei da cama. — Isso não muda o cuidado que você está recebendo. — Eu sei. — E você não precisa resolver. — Essa parte eu gostei. Peguei o telefone. — Vou falar com Helena pra complementar o relatório. Vicente levantou junto. — Eu vou. — Você vai ficar. — Carolina— Benício apontou para a cadeira. — Senta, Nero. O quarto ficou em silêncio. Foi a primeira vez que ouvi Benício chamar o pai pelo apelido. Vicente também percebeu. O rosto dele mudou. — Não me chama assim. Benício pareceu surpreso. — Ué. — Aqui não. A resposta saiu baixa. Sem raiva. Eu fiquei parada. Celina também. Benício encarou o pai por alguns segundos. — Tá. Vicente se sentou. — Aqui eu sou seu pai. Ninguém fez piada. Talvez porque todos tivéssemos entendido o tamanho daquela frase. ⸻ Helena complementou o relatório em menos de vinte minutos. Diagnóstico. Pós-operatório imediato. Hipocalcemia sintomática em acompanhamento. Necessidade de reposição e monitorização. Ausência de condições clínicas para alta naquele momento. Encaminhei tudo. Aline protocolou. A operadora confirmou recebimento. Agora restava esperar. De novo. Voltei para o 702. Benício estava tirando uma foto pela janela com a câmera. — Você levantou? — perguntei. — Com autorização. Vicente confirmou da poltrona: — A enfermagem deixou. — Estou impressionada que você perguntou antes. — Eu aprendo. Benício enquadrou a janela. — Fica quieto. — Por quê? — Você entrou na foto. Vicente imediatamente se mexeu. — Apaga. — Não. — Beni. — Agora é minha. Ele olhou a imagem e sorriu. — Ficou boa. Aproximei-me. Na tela, aparecia parte da janela, o reflexo da cama e Vicente sentado ao fundo, olhando para o filho sem perceber que estava sendo fotografado. Não havia nada de Nero naquela imagem. Só um homem cansado numa poltrona de hospital. — Essa eu vou guardar — Benício disse. Vicente não insistiu para apagar. Meu telefone vibrou mais uma vez. Autorização da prorrogação. Mostrei para os dois. — A diária foi autorizada. Vicente soltou o ar. — Finalmente. Benício fez uma cara péssima. — Então o plano acabou de autorizar que eu fique preso aqui mais uma noite? Eu ri. — Tecnicamente, autorizou o tratamento de que você precisa. — Péssima forma de comemorar vitória. — Não é vitória — respondi. — É continuidade do cuidado. Ele apontou para mim. — Gostei disso. Também gostei. Porque naquela história ninguém precisava transformar doença em guerra para dar importância ao que estava acontecendo. Às vezes, conseguir que o tratamento continuasse sem interrupção já era grande o bastante. E, naquele dia, o quarto 702 continuaria ocupado. Não por decisão de uma operadora. Nem pela vontade de Vicente. Mas porque o corpo de Benício ainda precisava de tempo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD