Eu não dormi naquela cadeira.
Apaguei por alguns minutos de cada vez, o que era diferente.
Toda vez que abria os olhos, a primeira coisa que fazia era olhar para a cama.
Benício dormia de lado, limitado pelos fios, pelo acesso e pelo dreno. Às vezes mexia a mão. Às vezes franzia a testa. Uma vez acordou só para perguntar que horas eram e voltou a dormir antes que eu respondesse.
Às quatro e pouco da manhã, Luana entrou outra vez.
Eu levantei imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela olhou pra mim.
— Bom dia também, senhor Vicente.
Olhei pro relógio.
— Isso é manhã?
— No hospital, depende do plantão.
Benício abriu os olhos.
— Vocês tão brigando?
A voz continuava fraca e rouca.
Meu peito apertava toda vez que eu ouvia.
— Não — respondi.
Luana foi até ele.
— Como estão as mãos?
Benício mexeu os dedos.
— Ainda formigando um pouco.
— E ao redor da boca?
Ele passou a língua nos lábios.
— Acho que não.
Ela conferiu os exames no sistema.
— Seu cálcio caiu um pouco depois da cirurgia. A equipe médica já viu e vai fazer a reposição conforme a prescrição.
Eu me aproximei.
— Caiu quanto?
— O médico vai conversar com vocês com os valores e explicar a conduta.
— Mas isso acontece por quê?
Benício virou a cabeça devagar.
— Pai…
— Eu só perguntei.
Luana não perdeu a paciência.
— Depois da retirada da tireoide, as glândulas paratireoides podem ficar temporariamente afetadas pela manipulação da região. Elas participam do controle do cálcio. Por isso esse acompanhamento é feito.
— Temporariamente?
— Em muitos casos, sim. Mas cada paciente precisa ser acompanhado individualmente.
Eu já estava pegando o celular.
Benício abriu um olho.
— Não pesquisa.
Guardei.
— Eu não ia.
— Mentiroso.
Luana riu.
Eu também, contra a vontade.
Ela preparou a medicação e explicou tudo para ele antes de administrar.
Benício perguntou:
— Isso vai tirar o formigamento?
— É o que esperamos. E vamos continuar conferindo seus sintomas e exames.
Ele assentiu.
Então olhou para mim.
— Tá vendo? Resolveram sem você ligar pra ninguém.
— Não força.
⸻
Quando amanheceu de verdade, eu estava com o pescoço doendo por causa da cadeira.
Benício acordou e me encontrou tentando esticar as costas.
— Tá velho.
— Tenho quarenta e três.
— Exatamente.
— Respeita seu pai.
— Você passou a noite torto por escolha.
— Porque você pediu.
Ele ficou quieto.
Eu percebi na hora.
— Não falei pra jogar na sua cara.
— Eu sei.
— Beni.
Ele me olhou.
— Eu fiquei porque quis também.
Aquilo pareceu tirar alguma coisa dos ombros dele.
— Tá.
A porta abriu antes que a conversa ficasse séria demais.
Minha mãe entrou carregando uma bolsa enorme.
— Trouxe roupa.
— Pra quê tanta coisa? — perguntei.
— Pro meu neto.
Benício abriu um sorriso.
— Vó, eu tô internado há um dia.
— E?
Atrás dela apareceu Carolina.
Café numa mão, pasta na outra.
— Bom dia.
Olhei pra bebida.
— Esse é pra mim?
— Não.
— Você entrou no quarto de um homem que passou a noite numa cadeira segurando café e não trouxe pra ele?
— Você continua tendo pernas.
Benício começou a rir e fez uma careta de dor.
— Não faz ele rir — falei.
— Pai, pelo amor de Deus.
Carolina se aproximou da cama.
— Como você está?
— Formigamento. Cálcio baixo. Voz de locutor falido.
— Resumo eficiente.
— A cirurgia deu certo — minha mãe falou imediatamente, como se precisasse completar a parte boa.
Benício olhou pra ela.
— Vó, eu sei.
— Eu também sei que você sabe.
Carolina percebeu o dreno.
— Helena já passou?
— Ainda não — respondi. — Disseram que vem pela manhã.
Ela colocou a pasta sobre a mesa.
— Então eu espero um pouco.
— Tem problema com o plano? — perguntei.
Benício olhou pra mim.
Carolina também.
— Primeiro bom dia, depois processo.
— Você já falou bom dia.
— E você sobreviveu.
Sentou.
— A internação e o procedimento estão autorizados. Até agora, nenhuma nova pendência que exija providência imediata.
Pela primeira vez, aquelas palavras me deram alívio.
Nenhuma pendência.
Quase parecia férias.
⸻
Helena chegou pouco depois.
Foi direto até Benício.
— Como passou a noite?
— Descobri que meu pai ronca sentado.
— Calúnia — falei.
Minha mãe respondeu:
— Não é.
Helena sorriu.
Depois examinou o curativo, o dreno e perguntou sobre o formigamento.
— Seus exames mostram queda de cálcio no pós-operatório. Isso é algo que nós acompanhamos depois de cirurgias como a sua. Já iniciamos reposição e vamos repetir os exames.
Benício tocou de leve os dedos.
— Isso atrasa minha alta?
— Pode atrasar se precisarmos acompanhar mais um pouco até ficar seguro ir pra casa.
Ele fez uma cara péssima.
— Eu queria ir embora hoje.
— Eu sei.
— Não tem como?
— Tem como quando seu corpo mostrar que está pronto.
Ele bufou.
— Mais um “depende”.
— Infelizmente.
Perguntei:
— E a voz?
Helena pediu que ele falasse algumas palavras.
— Oi.
— Fala uma frase maior.
Benício pensou.
— Meu pai está me irritando desde que eu acordei.
A voz saiu fraca, mas saiu.
Helena assentiu.
— Está rouca e cansada, o que pode acontecer nesse momento. Vamos continuar observando. Se houver necessidade, repetimos a avaliação específica das cordas vocais.
— Mas a senhora acha que volta ao normal?
— É cedo demais para prometer como será a recuperação completa da voz.
Benício baixou os olhos.
Eu queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Helena continuou:
— Outra coisa importante: o material da tireoide e dos linfonodos foi enviado para o anatomopatológico definitivo.
A palavra “resultado” entrou no quarto sem ser dita.
— Quanto tempo? — perguntei.
Ela me olhou.
— Alguns dias.
Fechei os olhos.
Benício riu rouco.
— Eu sabia.
— Sabia o quê? — minha mãe perguntou.
— Que ia aparecer outro exame pra gente esperar.
Helena puxou uma cadeira.
— Esse resultado vai nos ajudar a definir com mais precisão a extensão do comprometimento encontrado e o que precisamos acompanhar daqui pra frente. Além dele, os marcadores serão repetidos no momento adequado depois da cirurgia.
Benício ficou sério.
— Então não acabou.
A médica respondeu com cuidado.
— A cirurgia acabou. O tratamento e o acompanhamento, não.
Ele assentiu.
Eu lembrei do que tinha dito no dia anterior.
Essa parte.
Talvez eu estivesse começando a aprender.
⸻
Depois que Helena saiu, Carolina ficou alguns minutos conversando com minha mãe sobre os documentos da alta, caso acontecesse naquele dia ou no seguinte.
Benício me chamou com o dedo.
Aproximei.
— Pai.
— Fala.
— Se eu tiver que ficar mais uma noite…
— Eu fico.
— Nem terminei.
— Ia perguntar isso.
Ele respirou fundo.
— Ia.
— Então eu fico.
— Mesmo com a coluna acabada?
— Mesmo.
Ele olhou para a poltrona.
— Posso pedir outra?
— Já perguntei.
— Claro que perguntou.
— Disseram que aquela é a de acompanhante.
— O hospital derrotou Nero com uma poltrona.
Carolina ouviu.
— Finalmente encontramos um adversário à altura.
— Muito engraçado.
Benício começou a rir de novo.
Dessa vez eu não mandei parar.
Só fiquei olhando.
A voz ainda estava estranha.
O cálcio ainda precisava subir.
O laudo definitivo ainda viria.
A alta não estava garantida.
Mesmo assim, aquele quarto não parecia mais apenas o lugar onde meu filho tinha chegado do centro cirúrgico.
Começava a virar o lugar onde eu aprendia a esperar sem fugir.
A ouvir sem mandar.
A permanecer sem precisar resolver.
Do lado de fora, meu telefone continuava recebendo mensagens.
Dentro do 702, eu finalmente estava aprendendo que algumas presenças valiam mais do que qualquer resposta imediata.