29. Vicente

1311 Words
Eu não dormi naquela cadeira. Apaguei por alguns minutos de cada vez, o que era diferente. Toda vez que abria os olhos, a primeira coisa que fazia era olhar para a cama. Benício dormia de lado, limitado pelos fios, pelo acesso e pelo dreno. Às vezes mexia a mão. Às vezes franzia a testa. Uma vez acordou só para perguntar que horas eram e voltou a dormir antes que eu respondesse. Às quatro e pouco da manhã, Luana entrou outra vez. Eu levantei imediatamente. — Aconteceu alguma coisa? Ela olhou pra mim. — Bom dia também, senhor Vicente. Olhei pro relógio. — Isso é manhã? — No hospital, depende do plantão. Benício abriu os olhos. — Vocês tão brigando? A voz continuava fraca e rouca. Meu peito apertava toda vez que eu ouvia. — Não — respondi. Luana foi até ele. — Como estão as mãos? Benício mexeu os dedos. — Ainda formigando um pouco. — E ao redor da boca? Ele passou a língua nos lábios. — Acho que não. Ela conferiu os exames no sistema. — Seu cálcio caiu um pouco depois da cirurgia. A equipe médica já viu e vai fazer a reposição conforme a prescrição. Eu me aproximei. — Caiu quanto? — O médico vai conversar com vocês com os valores e explicar a conduta. — Mas isso acontece por quê? Benício virou a cabeça devagar. — Pai… — Eu só perguntei. Luana não perdeu a paciência. — Depois da retirada da tireoide, as glândulas paratireoides podem ficar temporariamente afetadas pela manipulação da região. Elas participam do controle do cálcio. Por isso esse acompanhamento é feito. — Temporariamente? — Em muitos casos, sim. Mas cada paciente precisa ser acompanhado individualmente. Eu já estava pegando o celular. Benício abriu um olho. — Não pesquisa. Guardei. — Eu não ia. — Mentiroso. Luana riu. Eu também, contra a vontade. Ela preparou a medicação e explicou tudo para ele antes de administrar. Benício perguntou: — Isso vai tirar o formigamento? — É o que esperamos. E vamos continuar conferindo seus sintomas e exames. Ele assentiu. Então olhou para mim. — Tá vendo? Resolveram sem você ligar pra ninguém. — Não força. ⸻ Quando amanheceu de verdade, eu estava com o pescoço doendo por causa da cadeira. Benício acordou e me encontrou tentando esticar as costas. — Tá velho. — Tenho quarenta e três. — Exatamente. — Respeita seu pai. — Você passou a noite torto por escolha. — Porque você pediu. Ele ficou quieto. Eu percebi na hora. — Não falei pra jogar na sua cara. — Eu sei. — Beni. Ele me olhou. — Eu fiquei porque quis também. Aquilo pareceu tirar alguma coisa dos ombros dele. — Tá. A porta abriu antes que a conversa ficasse séria demais. Minha mãe entrou carregando uma bolsa enorme. — Trouxe roupa. — Pra quê tanta coisa? — perguntei. — Pro meu neto. Benício abriu um sorriso. — Vó, eu tô internado há um dia. — E? Atrás dela apareceu Carolina. Café numa mão, pasta na outra. — Bom dia. Olhei pra bebida. — Esse é pra mim? — Não. — Você entrou no quarto de um homem que passou a noite numa cadeira segurando café e não trouxe pra ele? — Você continua tendo pernas. Benício começou a rir e fez uma careta de dor. — Não faz ele rir — falei. — Pai, pelo amor de Deus. Carolina se aproximou da cama. — Como você está? — Formigamento. Cálcio baixo. Voz de locutor falido. — Resumo eficiente. — A cirurgia deu certo — minha mãe falou imediatamente, como se precisasse completar a parte boa. Benício olhou pra ela. — Vó, eu sei. — Eu também sei que você sabe. Carolina percebeu o dreno. — Helena já passou? — Ainda não — respondi. — Disseram que vem pela manhã. Ela colocou a pasta sobre a mesa. — Então eu espero um pouco. — Tem problema com o plano? — perguntei. Benício olhou pra mim. Carolina também. — Primeiro bom dia, depois processo. — Você já falou bom dia. — E você sobreviveu. Sentou. — A internação e o procedimento estão autorizados. Até agora, nenhuma nova pendência que exija providência imediata. Pela primeira vez, aquelas palavras me deram alívio. Nenhuma pendência. Quase parecia férias. ⸻ Helena chegou pouco depois. Foi direto até Benício. — Como passou a noite? — Descobri que meu pai ronca sentado. — Calúnia — falei. Minha mãe respondeu: — Não é. Helena sorriu. Depois examinou o curativo, o dreno e perguntou sobre o formigamento. — Seus exames mostram queda de cálcio no pós-operatório. Isso é algo que nós acompanhamos depois de cirurgias como a sua. Já iniciamos reposição e vamos repetir os exames. Benício tocou de leve os dedos. — Isso atrasa minha alta? — Pode atrasar se precisarmos acompanhar mais um pouco até ficar seguro ir pra casa. Ele fez uma cara péssima. — Eu queria ir embora hoje. — Eu sei. — Não tem como? — Tem como quando seu corpo mostrar que está pronto. Ele bufou. — Mais um “depende”. — Infelizmente. Perguntei: — E a voz? Helena pediu que ele falasse algumas palavras. — Oi. — Fala uma frase maior. Benício pensou. — Meu pai está me irritando desde que eu acordei. A voz saiu fraca, mas saiu. Helena assentiu. — Está rouca e cansada, o que pode acontecer nesse momento. Vamos continuar observando. Se houver necessidade, repetimos a avaliação específica das cordas vocais. — Mas a senhora acha que volta ao normal? — É cedo demais para prometer como será a recuperação completa da voz. Benício baixou os olhos. Eu queria dizer alguma coisa. Não disse. Helena continuou: — Outra coisa importante: o material da tireoide e dos linfonodos foi enviado para o anatomopatológico definitivo. A palavra “resultado” entrou no quarto sem ser dita. — Quanto tempo? — perguntei. Ela me olhou. — Alguns dias. Fechei os olhos. Benício riu rouco. — Eu sabia. — Sabia o quê? — minha mãe perguntou. — Que ia aparecer outro exame pra gente esperar. Helena puxou uma cadeira. — Esse resultado vai nos ajudar a definir com mais precisão a extensão do comprometimento encontrado e o que precisamos acompanhar daqui pra frente. Além dele, os marcadores serão repetidos no momento adequado depois da cirurgia. Benício ficou sério. — Então não acabou. A médica respondeu com cuidado. — A cirurgia acabou. O tratamento e o acompanhamento, não. Ele assentiu. Eu lembrei do que tinha dito no dia anterior. Essa parte. Talvez eu estivesse começando a aprender. ⸻ Depois que Helena saiu, Carolina ficou alguns minutos conversando com minha mãe sobre os documentos da alta, caso acontecesse naquele dia ou no seguinte. Benício me chamou com o dedo. Aproximei. — Pai. — Fala. — Se eu tiver que ficar mais uma noite… — Eu fico. — Nem terminei. — Ia perguntar isso. Ele respirou fundo. — Ia. — Então eu fico. — Mesmo com a coluna acabada? — Mesmo. Ele olhou para a poltrona. — Posso pedir outra? — Já perguntei. — Claro que perguntou. — Disseram que aquela é a de acompanhante. — O hospital derrotou Nero com uma poltrona. Carolina ouviu. — Finalmente encontramos um adversário à altura. — Muito engraçado. Benício começou a rir de novo. Dessa vez eu não mandei parar. Só fiquei olhando. A voz ainda estava estranha. O cálcio ainda precisava subir. O laudo definitivo ainda viria. A alta não estava garantida. Mesmo assim, aquele quarto não parecia mais apenas o lugar onde meu filho tinha chegado do centro cirúrgico. Começava a virar o lugar onde eu aprendia a esperar sem fugir. A ouvir sem mandar. A permanecer sem precisar resolver. Do lado de fora, meu telefone continuava recebendo mensagens. Dentro do 702, eu finalmente estava aprendendo que algumas presenças valiam mais do que qualquer resposta imediata.
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