28. Benício

1336 Words
A primeira coisa que eu percebi depois de falar que tinha voltado foi que minha voz não parecia minha. A segunda foi a cara do meu pai. Ele ainda segurava minha mão, inclinado perto da cama, como se aqueles poucos segundos em que eu demorei pra falar tivessem durado uma hora. Tentei engolir. Ardeu. Fiz uma careta. — Dói? — ele perguntou na mesma hora. Assenti. Minha garganta parecia arranhada por dentro, e o pescoço estava pesado de um jeito estranho. Não era uma dor absurda. Era como se aquela região inteira tivesse deixado de pertencer ao resto do meu corpo. Tentei levantar a mão. Meu pai segurou meu braço. — Calma. — Para… — falei. A voz saiu baixa, rouca. Ele congelou de novo. — O quê? — De… mandar. Carolina riu baixinho atrás dele. — Tá bem mesmo. Meu pai me olhou indignado. — Você acabou de sair de uma cirurgia e já tá me enchendo o saco. Eu tentei sorrir. Doeu menos do que engolir. Minha avó apareceu do outro lado da cama. Os olhos dela estavam vermelhos. — Meu amor. — Não… chora. Foi horrível ouvir minha própria voz daquele jeito. Fraca. Soprada. Parecendo de outra pessoa. Celina beijou minha testa. — É de felicidade. Eu queria responder alguma coisa i****a, mas Luana entrou e acabou com minha chance. — Como estamos? Meu pai respondeu: — A voz dele tá estranha. Ela nem olhou pra ele. — Benício, como você está se sentindo? Quase ri. Meu pai fez uma cara ofendida. — Dor. — De zero a dez? Pensei. — Cinco. — Enjoo? Balancei a cabeça. — Formigamento na boca, nas mãos ou nos pés? — Não. Ela assentiu e fez algumas anotações. Meu pai perguntou: — Por que formigamento? Luana respondeu com a maior calma do mundo: — Depois de uma cirurgia de tireoide, a equipe acompanha também os níveis de cálcio e possíveis sintomas relacionados. Os exames e a avaliação médica vão orientar isso. Ele imediatamente pegou o celular. — Não pesquisa — Carolina avisou. — Eu ia anotar. — Claro. Fechei os olhos. Eu tinha acabado de voltar de uma cirurgia e os dois já estavam discutindo. Estranhamente, aquilo me tranquilizou. Algumas coisas continuavam iguais. ⸻ Não consegui dormir direito nas horas seguintes. Toda vez que cochilava, alguém entrava. Enfermagem. Medicação. Pressão. Temperatura. Perguntas. Eu entendia por que precisava. Só queria dormir por umas quinze horas sem ninguém tocar em mim. Quando consegui abrir os olhos de verdade, o quarto já estava com outra luz. Fim de tarde. A primeira coisa que fiz foi tocar o pescoço. Meu pai segurou minha mão antes. — Não mexe. Olhei pra ele. — Pai. — Foi m*l. Soltou. Toquei com cuidado acima do curativo. Não dava pra sentir a cicatriz. Só o curativo. E uma sensação estranha de tensão. — Tem dreno? — perguntei. Minha voz continuava baixa. — Tem um dreno pequeno — ele respondeu. — A Helena explicou enquanto você dormia. — Quero ver. — Pra quê? — Porque tá em mim. Ele ficou quieto. Pegou o celular e abriu a câmera frontal. — Melhor assim? Olhei. Foi a primeira vez que me vi depois da cirurgia. Pálido. Olheiras. Cabelo bagunçado. Curativo atravessando a parte baixa do pescoço. Um tubo fino saindo mais lateralmente e indo para um reservatório. Fiquei olhando tempo demais. — Beni — meu pai chamou. — Tô bem. Eu não estava exatamente. Mas também não estava desmoronando. Era só estranho. O câncer tinha estado dentro de mim naquela manhã. Agora tinham tirado minha tireoide e alguns linfonodos. E eu conseguia ver no espelho a prova de que meu corpo tinha sido aberto pra isso. — Vai ficar assim? — perguntei. — O quê? — A cicatriz. — A Helena falou que o curativo vai sair depois e que… — Eu sei. Desliguei a câmera. Meu pai sentou perto. — Se você quiser, quando estiver liberado, a gente procura o melhor médico pra cuidar da cicatriz. Olhei pra ele. — Você já pesquisou? Silêncio. — Pai. — Só um pouco. Revirei os olhos. — Você é impossível. — Eu tô tentando ajudar. — Eu sei. Dessa vez falei sem irritação. Ele percebeu. ⸻ Carolina tinha ido embora durante a tarde e prometido voltar no dia seguinte. Minha avó ficou até quase anoitecer. Quando anunciaram que só um acompanhante permaneceria, ela olhou para meu pai. — Eu fico. Ele respondeu: — Eu também. — Só pode um. — Então eu fico. Celina colocou as mãos na cintura. — Vicente. — Mãe. Eu estava quase rindo. Luana entrou no pior momento possível. — Já decidiram quem ficará como acompanhante esta noite? Os dois falaram juntos: — Eu. Ela piscou. Eu levantei a mão devagar. — Posso… escolher? Os dois se calaram. — Pai. Minha avó fez uma cara ofendida. — Vó, amanhã você volta cedo. Ela cruzou os braços. — Por que ele? Eu pensei. Porque ele tinha prometido. Porque eu queria descobrir se ele realmente ficaria. Porque uma parte minha, que eu não gostava muito de admitir, ainda era aquele garoto que tinha esperado meu pai aparecer em coisas pequenas demais pra ele considerar importantes. — Porque eu quero. Minha avó me olhou por alguns segundos. Depois assentiu. — Tá. Beijou minha testa. — Qualquer coisa me liga. — Eu vou estar dormindo. — Então ele liga. Apontou para meu pai. — Eu ligo. — E não tenta esconder nada. — Eu sei, mãe. Ela saiu. Quando a porta fechou, fiquei olhando pra ele. — Ela manda em você. — Não espalha. ⸻ A noite no 702 começou de verdade depois das dez. O hospital ficou mais silencioso. As luzes diminuíram. A cidade continuava acesa do outro lado da janela. Meu pai tentou se ajeitar na poltrona. Eu observei por alguns segundos. — Isso é desconfortável? — Não. — Mentiroso. — Já dormi em lugar pior. — Imagino. Ele me olhou. — Não precisa imaginar. Ficamos em silêncio. Luana entrou de novo para medicação e coleta. Perguntou sobre dor, náusea e formigamento. Dessa vez, quando perguntou, percebi algo diferente. — Minha ponta dos dedos tá meio estranha. Meu pai levantou na mesma hora. — Como assim? Luana se aproximou. — Formigando? — Um pouco. Ela perguntou se sentia algo ao redor da boca. Balancei a cabeça. — Vou avisar a equipe e conferir os exames que estão programados. Meu pai ficou tenso. — Isso é perigoso? — É um sintoma que precisa ser avaliado. Por isso estamos acompanhando. Ela não dramatizou. Também não ignorou. Saiu. Meu pai continuou olhando pra porta. — Não começa — falei. — Começar o quê? — A ficar imaginando vinte coisas. — Você tá sentindo formigamento. — E ela vai ver. Ele respirou fundo. Sentou. — Tá. Pouco depois, a equipe voltou, me examinou e explicou que acompanhariam o cálcio e tratariam se necessário. Eu escutei metade. Estava cansado demais. Quando finalmente apagaram a luz principal, meu pai ficou só com a claridade do celular. — Pai. — Oi? — Larga isso. — Tô vendo mensagem. — Do morro? Ele demorou. — Também. — Vai embora se precisar. A tela apagou. — Não. — Eu tô no hospital. Tem enfermeiro, médico… — Você me pediu pra ficar. Engoli com cuidado. Ainda doía. — Pedi. — Então eu fico. — Mesmo nessa cadeira horrível? — Mesmo. Virei o rosto pro lado. A janela refletia um pedaço do quarto. A cama. Os aparelhos. Meu pai sentado perto. Pela primeira vez, o número 702 não parecia só o lugar onde tinham me colocado depois de uma cirurgia. Parecia uma espécie de fronteira. Do lado de fora daquela porta, meu pai ainda era Nero pra um monte de gente. Ali dentro, ele não podia mandar no meu cálcio, na minha voz, no resultado do anatomopatológico nem na hora em que eu sentiria dor. Só podia ficar. Fechei os olhos. E naquela primeira noite no quarto 702, foi a primeira vez que achei que talvez isso fosse suficiente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD