A cama vazia do quarto 702 mudou o ambiente inteiro.
Até poucos minutos antes, Benício estava reclamando da camisola, provocando o pai e fingindo que não estava com medo.
Depois que as portas do centro cirúrgico fecharam, ficou só o silêncio.
Vicente sentou na poltrona ao lado da cama e colocou a câmera do filho sobre as pernas.
Celina ficou de pé perto da janela, segurando o terço entre os dedos.
Eu poderia ter ido embora.
Na verdade, profissionalmente, talvez fosse até o mais lógico.
A autorização estava regularizada. A internação tinha acontecido. Não havia pendência imediata com o plano. Meu trabalho jurídico, naquele momento, estava suspenso pela única coisa que processo nenhum conseguia substituir.
Uma cirurgia.
Mesmo assim, não fui.
— Você não precisa ficar — Vicente falou sem levantar os olhos.
— Eu sei.
— Então por que tá ficando?
Olhei para a porta.
— Porque o Benício pediu que eu viesse.
Ele passou o polegar pela lateral da câmera.
— Ele gosta de você.
— Eu também gosto dele.
Vicente levantou os olhos.
— Isso me preocupa.
— Por quê?
— Porque ele começa a gostar de alguém e já coloca a pessoa dentro da vida dele.
— Diferente de você, que coloca a pessoa pra fora antes que ela tenha chance de entrar?
Celina virou o rosto devagar.
— Eu vou fingir que não ouvi.
— Dona Celina — falei.
— Não me mete.
Vicente quase sorriu.
Por alguns segundos, o quarto respirou de novo.
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A primeira hora passou devagar.
Na segunda, Vicente começou a levantar a cada dez minutos.
Na terceira, parou de fingir que não estava contando.
— Helena falou uma média? — perguntou.
— Falou que podia variar — respondi.
— Eu sei o que ela falou.
— Então por que perguntou?
— Porque já passou tempo demais.
Celina suspirou.
— Meu filho, senta.
— Eu tô sentado há três horas.
— Ficou em pé metade delas.
Ele ignorou.
Pegou o celular.
— Não liga — falei.
— Pra quem?
— Pra Helena.
— Eu não ia ligar pra Helena.
— Então pra recepção do centro cirúrgico.
Silêncio.
— Você é irritante.
— E você é previsível.
Ele guardou o celular.
Vitória pequena.
Até o aparelho vibrar.
Vicente pegou na mesma hora.
Era MT.
Ele leu e travou a tela sem responder.
— Problema? — perguntei.
— Não aqui.
A frase me fez olhar para ele.
Aquele homem tinha passado anos dividindo o mundo entre o que exigia resposta imediata e o que podia esperar.
Naquele dia, o morro inteiro tinha caído para a segunda categoria.
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Pouco depois do meio-dia, Luana entrou.
Vicente levantou tão rápido que a poltrona bateu na parede.
— Acabou?
— Ainda não.
O rosto dele fechou.
— Então aconteceu alguma coisa?
— Não necessariamente.
— “Não necessariamente” não é resposta.
Luana manteve o tom calmo.
— Vim avisar que o procedimento continua e que, até o momento, não recebemos informação de intercorrência que precise ser comunicada à família.
— Mas por que tá demorando?
— Cirurgia não é corrida, senhor Vicente.
Ele ficou parado.
Luana continuou:
— Eu sei que esperar é difícil. Mas a equipe precisa do tempo necessário para fazer o procedimento com segurança.
Celina tocou o braço do filho.
— Obrigado — eu disse.
Luana assentiu e saiu.
Vicente ficou olhando para a porta.
— Eu odeio esse lugar.
— Não odeia.
— Odeio.
— Você odeia não poder controlar o que acontece dentro dele.
Ele virou pra mim.
— Tem diferença?
— Muita.
A mandíbula dele travou.
— Se alguma coisa acontecer com ele…
— Não termina essa frase.
— Por quê?
— Porque você está criando uma tragédia antes de receber notícia nenhuma.
— Você não entende.
— Entendo o suficiente pra saber que medo não vira previsão só porque parece real.
Ele passou as mãos pelo rosto.
Quando falou de novo, a voz estava mais baixa.
— Eu devia ter percebido antes.
— O caroço?
— Tudo.
— Vicente…
— Rouquidão. Dificuldade pra engolir. Eu devia saber.
— Ele mesmo não sabia o que significava.
— Eu sou pai.
— Pai não é aparelho de diagnóstico.
Ele soltou uma risada curta e amarga.
— Você sempre tem resposta?
— Não.
— Parece.
— Eu só não vou deixar você usar culpa pra fingir que ainda tem alguma forma de controlar o passado.
Ele me encarou.
Dessa vez não discutiu.
Sentou.
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Celina adormeceu por alguns minutos na outra poltrona.
Eu estava respondendo uma mensagem de Renata quando percebi Vicente observando uma foto na câmera de Benício.
— O que é?
Ele virou a tela na minha direção.
Era uma imagem dele.
Vicente dormindo numa cadeira da sala de casa, cabeça caída para o lado, celular na mão.
A foto não estava perfeita.
Tinha pouca luz.
Mas tinha alguma coisa nela.
— Ele tirou escondido — Vicente falou.
— Parece.
— Eu odeio foto dormindo.
— Problema grave.
— Carolina.
Sorri.
Ele continuou olhando.
— Eu perdi muita coisa.
Não respondi rápido.
— Isso não significa que perdeu tudo.
— Minha mãe falou a mesma coisa.
— Então talvez ela seja inteligente.
— Ela vai ficar insuportável se ouvir.
— Não vou contar.
Ele apoiou a câmera no colo.
— Quando ele nasceu, eu achei que dar dinheiro, segurança e tudo que faltou pra mim bastava.
— Muita gente confunde provisão com presença.
— Você tá me chamando de ausente?
— Estou dizendo que uma coisa não substitui a outra.
Ele assentiu devagar.
— Eu sei agora.
A frase saiu sem defesa.
Talvez fosse por isso que doeu mais.
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Quase cinco horas depois de Benício ter sido levado, a porta abriu.
Doutora Helena entrou.
Vicente ficou de pé.
Celina acordou imediatamente.
Eu fechei o notebook.
Ninguém precisou perguntar.
Helena tirou a máscara do rosto.
— A cirurgia terminou.
Vicente deu um passo.
— Ele tá bem?
— Está estável e já foi encaminhado para recuperação anestésica.
O ar voltou ao quarto.
Celina começou a chorar.
Vicente fechou os olhos.
Por um instante, parecia que as pernas dele tinham esquecido como ficavam em pé.
— E a cirurgia? — perguntei.
Helena olhou para os três.
— Retiramos a tireoide e realizamos a abordagem linfonodal planejada. Havia linfonodos com aspecto compatível com o que já suspeitávamos, e o material foi enviado para análise anatomopatológica definitiva.
Vicente perguntou:
— Tirou tudo?
Helena fez uma pausa.
— Retiramos toda a doença macroscópica identificável dentro do campo planejado. Mas eu não vou usar a palavra “tudo” como promessa oncológica. O anatomopatológico, os marcadores depois da cirurgia e o acompanhamento vão nos dizer mais.
Ele assentiu.
— E a voz?
— Ainda precisamos esperar ele acordar e avaliar. A cirurgia transcorreu sem uma intercorrência que eu precise comunicar a vocês neste momento.
Celina levou o terço aos lábios.
— Quando eu posso ver meu neto?
— Assim que ele estiver em condição de voltar para o quarto.
Vicente perguntou:
— Quanto tempo?
Helena sorriu de leve.
— Depende.
Eu olhei pra ele.
Ele quase reclamou.
Quase.
— Tá — respondeu.
Apenas isso.
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Quando Helena saiu, ninguém falou por alguns segundos.
Então Vicente sentou outra vez.
A câmera continuava sobre as pernas dele.
— Acabou — disse Celina.
Ele balançou a cabeça.
— Essa parte.
Olhei para ele.
Era a resposta mais madura que eu tinha ouvido desde que aquilo tudo começou.
A cirurgia tinha terminado.
Mas ainda viria o resultado dos linfonodos.
A avaliação da voz.
A recuperação.
Os marcadores.
O acompanhamento.
Talvez novas batalhas com o plano.
Talvez outras notícias que nenhum de nós ainda conseguia prever.
Mesmo assim, naquele momento, bastava uma.
Benício estava vivo.
Estável.
E voltaria para o quarto 702.
Quase uma hora depois, ouvimos rodas no corredor.
Vicente levantou antes de todos.
A cama apareceu na porta.
Benício estava pálido, sonolento, com curativo no pescoço e os olhos abrindo devagar.
O pai se aproximou.
— Beni?
Ele demorou.
Então mexeu os lábios.
Nenhum som saiu na primeira tentativa.
Vicente empalideceu.
Benício tentou outra vez.
Dessa vez veio um fio de voz.
Rouco.
Fraco.
Mas veio.
— Eu… voltei.
Vicente segurou a mão dele.
E eu vi o homem que todos chamavam de Nero baixar a cabeça até encostar a testa nos dedos do filho.
Sem se importar com quem estava olhando.