27. Carolina

1395 Words
A cama vazia do quarto 702 mudou o ambiente inteiro. Até poucos minutos antes, Benício estava reclamando da camisola, provocando o pai e fingindo que não estava com medo. Depois que as portas do centro cirúrgico fecharam, ficou só o silêncio. Vicente sentou na poltrona ao lado da cama e colocou a câmera do filho sobre as pernas. Celina ficou de pé perto da janela, segurando o terço entre os dedos. Eu poderia ter ido embora. Na verdade, profissionalmente, talvez fosse até o mais lógico. A autorização estava regularizada. A internação tinha acontecido. Não havia pendência imediata com o plano. Meu trabalho jurídico, naquele momento, estava suspenso pela única coisa que processo nenhum conseguia substituir. Uma cirurgia. Mesmo assim, não fui. — Você não precisa ficar — Vicente falou sem levantar os olhos. — Eu sei. — Então por que tá ficando? Olhei para a porta. — Porque o Benício pediu que eu viesse. Ele passou o polegar pela lateral da câmera. — Ele gosta de você. — Eu também gosto dele. Vicente levantou os olhos. — Isso me preocupa. — Por quê? — Porque ele começa a gostar de alguém e já coloca a pessoa dentro da vida dele. — Diferente de você, que coloca a pessoa pra fora antes que ela tenha chance de entrar? Celina virou o rosto devagar. — Eu vou fingir que não ouvi. — Dona Celina — falei. — Não me mete. Vicente quase sorriu. Por alguns segundos, o quarto respirou de novo. ⸻ A primeira hora passou devagar. Na segunda, Vicente começou a levantar a cada dez minutos. Na terceira, parou de fingir que não estava contando. — Helena falou uma média? — perguntou. — Falou que podia variar — respondi. — Eu sei o que ela falou. — Então por que perguntou? — Porque já passou tempo demais. Celina suspirou. — Meu filho, senta. — Eu tô sentado há três horas. — Ficou em pé metade delas. Ele ignorou. Pegou o celular. — Não liga — falei. — Pra quem? — Pra Helena. — Eu não ia ligar pra Helena. — Então pra recepção do centro cirúrgico. Silêncio. — Você é irritante. — E você é previsível. Ele guardou o celular. Vitória pequena. Até o aparelho vibrar. Vicente pegou na mesma hora. Era MT. Ele leu e travou a tela sem responder. — Problema? — perguntei. — Não aqui. A frase me fez olhar para ele. Aquele homem tinha passado anos dividindo o mundo entre o que exigia resposta imediata e o que podia esperar. Naquele dia, o morro inteiro tinha caído para a segunda categoria. ⸻ Pouco depois do meio-dia, Luana entrou. Vicente levantou tão rápido que a poltrona bateu na parede. — Acabou? — Ainda não. O rosto dele fechou. — Então aconteceu alguma coisa? — Não necessariamente. — “Não necessariamente” não é resposta. Luana manteve o tom calmo. — Vim avisar que o procedimento continua e que, até o momento, não recebemos informação de intercorrência que precise ser comunicada à família. — Mas por que tá demorando? — Cirurgia não é corrida, senhor Vicente. Ele ficou parado. Luana continuou: — Eu sei que esperar é difícil. Mas a equipe precisa do tempo necessário para fazer o procedimento com segurança. Celina tocou o braço do filho. — Obrigado — eu disse. Luana assentiu e saiu. Vicente ficou olhando para a porta. — Eu odeio esse lugar. — Não odeia. — Odeio. — Você odeia não poder controlar o que acontece dentro dele. Ele virou pra mim. — Tem diferença? — Muita. A mandíbula dele travou. — Se alguma coisa acontecer com ele… — Não termina essa frase. — Por quê? — Porque você está criando uma tragédia antes de receber notícia nenhuma. — Você não entende. — Entendo o suficiente pra saber que medo não vira previsão só porque parece real. Ele passou as mãos pelo rosto. Quando falou de novo, a voz estava mais baixa. — Eu devia ter percebido antes. — O caroço? — Tudo. — Vicente… — Rouquidão. Dificuldade pra engolir. Eu devia saber. — Ele mesmo não sabia o que significava. — Eu sou pai. — Pai não é aparelho de diagnóstico. Ele soltou uma risada curta e amarga. — Você sempre tem resposta? — Não. — Parece. — Eu só não vou deixar você usar culpa pra fingir que ainda tem alguma forma de controlar o passado. Ele me encarou. Dessa vez não discutiu. Sentou. ⸻ Celina adormeceu por alguns minutos na outra poltrona. Eu estava respondendo uma mensagem de Renata quando percebi Vicente observando uma foto na câmera de Benício. — O que é? Ele virou a tela na minha direção. Era uma imagem dele. Vicente dormindo numa cadeira da sala de casa, cabeça caída para o lado, celular na mão. A foto não estava perfeita. Tinha pouca luz. Mas tinha alguma coisa nela. — Ele tirou escondido — Vicente falou. — Parece. — Eu odeio foto dormindo. — Problema grave. — Carolina. Sorri. Ele continuou olhando. — Eu perdi muita coisa. Não respondi rápido. — Isso não significa que perdeu tudo. — Minha mãe falou a mesma coisa. — Então talvez ela seja inteligente. — Ela vai ficar insuportável se ouvir. — Não vou contar. Ele apoiou a câmera no colo. — Quando ele nasceu, eu achei que dar dinheiro, segurança e tudo que faltou pra mim bastava. — Muita gente confunde provisão com presença. — Você tá me chamando de ausente? — Estou dizendo que uma coisa não substitui a outra. Ele assentiu devagar. — Eu sei agora. A frase saiu sem defesa. Talvez fosse por isso que doeu mais. ⸻ Quase cinco horas depois de Benício ter sido levado, a porta abriu. Doutora Helena entrou. Vicente ficou de pé. Celina acordou imediatamente. Eu fechei o notebook. Ninguém precisou perguntar. Helena tirou a máscara do rosto. — A cirurgia terminou. Vicente deu um passo. — Ele tá bem? — Está estável e já foi encaminhado para recuperação anestésica. O ar voltou ao quarto. Celina começou a chorar. Vicente fechou os olhos. Por um instante, parecia que as pernas dele tinham esquecido como ficavam em pé. — E a cirurgia? — perguntei. Helena olhou para os três. — Retiramos a tireoide e realizamos a abordagem linfonodal planejada. Havia linfonodos com aspecto compatível com o que já suspeitávamos, e o material foi enviado para análise anatomopatológica definitiva. Vicente perguntou: — Tirou tudo? Helena fez uma pausa. — Retiramos toda a doença macroscópica identificável dentro do campo planejado. Mas eu não vou usar a palavra “tudo” como promessa oncológica. O anatomopatológico, os marcadores depois da cirurgia e o acompanhamento vão nos dizer mais. Ele assentiu. — E a voz? — Ainda precisamos esperar ele acordar e avaliar. A cirurgia transcorreu sem uma intercorrência que eu precise comunicar a vocês neste momento. Celina levou o terço aos lábios. — Quando eu posso ver meu neto? — Assim que ele estiver em condição de voltar para o quarto. Vicente perguntou: — Quanto tempo? Helena sorriu de leve. — Depende. Eu olhei pra ele. Ele quase reclamou. Quase. — Tá — respondeu. Apenas isso. ⸻ Quando Helena saiu, ninguém falou por alguns segundos. Então Vicente sentou outra vez. A câmera continuava sobre as pernas dele. — Acabou — disse Celina. Ele balançou a cabeça. — Essa parte. Olhei para ele. Era a resposta mais madura que eu tinha ouvido desde que aquilo tudo começou. A cirurgia tinha terminado. Mas ainda viria o resultado dos linfonodos. A avaliação da voz. A recuperação. Os marcadores. O acompanhamento. Talvez novas batalhas com o plano. Talvez outras notícias que nenhum de nós ainda conseguia prever. Mesmo assim, naquele momento, bastava uma. Benício estava vivo. Estável. E voltaria para o quarto 702. Quase uma hora depois, ouvimos rodas no corredor. Vicente levantou antes de todos. A cama apareceu na porta. Benício estava pálido, sonolento, com curativo no pescoço e os olhos abrindo devagar. O pai se aproximou. — Beni? Ele demorou. Então mexeu os lábios. Nenhum som saiu na primeira tentativa. Vicente empalideceu. Benício tentou outra vez. Dessa vez veio um fio de voz. Rouco. Fraco. Mas veio. — Eu… voltei. Vicente segurou a mão dele. E eu vi o homem que todos chamavam de Nero baixar a cabeça até encostar a testa nos dedos do filho. Sem se importar com quem estava olhando.
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