26. Vicente

1409 Words
A primeira coisa que Benício fez quando entrou no quarto 702 foi ir até a janela. Nem olhou pra cama. Nem pra televisão presa na parede. Nem pra poltrona onde eu provavelmente passaria as próximas horas. Foi direto pra janela. — Dá pra ver um pedaço da cidade daqui. Fiquei atrás dele. — Você acabou de internar pra operar um câncer e tá avaliando a vista? — Tenho prioridades. Minha mãe entrou logo depois, segurando a bolsa e o terço como se fossem parte do mesmo objeto. — Não chega tão perto do vidro. Benício virou. — Vó, é uma janela de hospital. Eu não vou cair do sétimo andar. — Eu sei. — Então? — Me deixa ser avó. Ele sorriu. Eu não consegui. Tinha alguma coisa naquele quarto que me incomodava desde o primeiro segundo. Talvez fosse o número na porta. Talvez fosse a cama no meio. Talvez fosse saber que, dali a pouco, alguém levaria meu filho para um lugar onde eu não poderia entrar. Eu estava acostumado a acompanhar tudo até o fim. Ali, não. Ali tinha limite. E eu odiava limite. A enfermeira Luana entrou alguns minutos depois. — Bom dia, Benício. — Bom dia. Ela conferiu a pulseira. — Nome completo? Ele respondeu. — Data de nascimento? Respondeu outra vez. — Sabe qual procedimento vai fazer hoje? Meu corpo inteiro prestou atenção. Benício também. — Retirar a tireoide e os linfonodos que a doutora Helena falou. Luana assentiu. — Perfeito. Ela explicou que faria algumas conferências, trocaria a roupa dele, colocaria acesso venoso e depois a equipe cirúrgica viria conversar antes da ida ao centro cirúrgico. — Quanto tempo? — perguntei. Ela olhou pra mim. — Pra descer? — Pra tudo. — Senhor Vicente, o tempo cirúrgico pode variar conforme o que a equipe encontrar e precisar fazer. Outra resposta que começava com “pode variar”. Eu já odiava todas. — Uma média. — O cirurgião conversa melhor com o senhor sobre isso. Abri a boca. Benício apontou pra mim. — Deixa ela trabalhar. Luana sorriu. — Obrigada, Benício. — Todo mundo contra mim — murmurei. Minha mãe respondeu: — Talvez o problema seja você. ⸻ Quando deram a roupa do hospital pra ele, Benício olhou aquela camisola e fez uma cara horrível. — Isso fecha atrás? Luana segurou o riso. — Fecha o suficiente. — Isso não respondeu. — Beni — minha mãe repreendeu. — Eu só quero preservar a dignidade. Dessa vez eu ri. Foi rápido. Mas ri. Talvez ele estivesse fazendo aquilo por nós. Ou por ele. Provavelmente pelos dois. Saímos enquanto ele trocava de roupa. No corredor, meu telefone vibrou. MT. Ignorei. Vibrou de novo. Dessa vez mensagem. “Tá tudo tranquilo aqui. Não pensa nisso.” Fiquei olhando. Era estranho receber permissão para não pensar no morro. Durante anos, eu fiz questão de estar em tudo. Resolver tudo. Saber de tudo. Naquele corredor, eu não queria saber de nada que não fosse o quarto 702. Respondi apenas: “Cuida.” Guardei o telefone. Carolina apareceu no corredor logo depois. — Conseguiram internar sem problema? — Conseguiram. — Autorização da cirurgia e internação está toda regularizada. — Eu sei. Ela me observou. — Dormiu? — Um pouco. — Mentira. — Todo mundo virou minha mãe agora? Celina respondeu atrás de mim: — Deus me livre. Uma já basta. Carolina riu. Eu quase mandei as duas pararem. Não mandei. Talvez porque o som do riso naquele corredor fizesse bem. ⸻ Quando entramos de novo, Benício já estava na cama. A camisola tinha acabado com metade da coragem dele. — Isso aqui é humilhante. — Você tá coberto — falei. — Porque tem um lençol. — Então mantém o lençol. — Excelente solução. Luana preparou o acesso. Assim que viu a agulha, ele desviou o rosto. — Você já fez duas punções no pescoço — falei. — Agora tá com medo disso? — Lugar diferente. Trauma diferente. — Faz sentido — Carolina comentou. — Não incentiva. A agulha entrou. Benício fez uma careta. Depois olhou pra mim. — Você vai ficar? A pergunta veio baixa. — Vou. — Até eu descer? — Até onde deixarem. Ele assentiu. Minha mãe abaixou a cabeça. Eu sabia o que ela estava fazendo. Rezando. Só que dessa vez, em vez de me irritar com a sensação de que todos estavam se preparando para uma coisa r**m, fiquei quieto. Talvez cada um precisasse fazer alguma coisa com o medo. Minha mãe rezava. Carolina conferia documento. Benício fazia piada. Eu tentava controlar um mundo que não aceitava ordem. ⸻ Helena entrou perto das sete. Sem pressa, mas sem perder tempo. Cumprimentou Benício primeiro. Depois explicou novamente o procedimento. Retirada da tireoide. Abordagem linfonodal planejada de acordo com os achados já conhecidos. Cuidados com estruturas importantes do pescoço. Monitoramento. Riscos. Sangramento. Alterações de cálcio. Possibilidade de alteração de voz. Eu conhecia tudo. Tinha lido. Perguntado. Pesquisado. Mesmo assim, ouvir dentro do quarto era diferente. — E se a senhora encontrar mais coisa? — perguntei. — Eu vou agir dentro do que estiver indicado e seguro, conforme o planejamento cirúrgico e os achados do procedimento. — E se precisar de alguma decisão? — Se surgir uma situação excepcional que exija discussão com a família, a equipe entra em contato. Mas a maior parte das decisões possíveis já foi conversada e consentida. Consentida. Eu olhei para Benício. Ele estava ouvindo tudo. — Alguma pergunta? — Helena perguntou a ele. Meu filho pensou. — Quando eu acordar, minha voz vai sair? Meu peito apertou. Helena chegou mais perto. — É possível que você acorde com a voz diferente, mais fraca ou rouca, inclusive por causa do tubo da anestesia e da manipulação da região. Nós vamos avaliar. O fato de haver risco não significa que você vai perder a voz. — Tá. — Mais alguma coisa? — A cicatriz vai estar coberta? — Vai. Ele assentiu. Eu sabia que ainda pensava naquilo. E agora eu entendia por quê. O câncer estava no pescoço. Mas a cicatriz ficaria na imagem que ele veria todos os dias. ⸻ Pouco antes de levarem Benício, minha mãe pediu para falar com ele. Beijou a testa. Fez uma oração curta. Sem discurso. Carolina se aproximou depois. — Quando acordar, não precisa entender tudo hoje. — Você sempre fala isso. — Porque você sempre quer entender tudo hoje. Ele sorriu. — Verdade. Então olhou pra mim. Eu cheguei perto. Tinha imaginado tantas frases. Nenhuma servia. “Vai dar tudo certo” seria promessa. “Não tenha medo” seria mentira. “Seja forte” seria injusto. Então falei a única coisa que eu conseguia garantir. — Eu vou estar aqui quando você voltar. Os olhos dele ficaram molhados. — Não vai embora? — Não. — Mesmo se demorar? — Mesmo se demorar. Ele estendeu a mão. Eu segurei. Luana apareceu na porta com outro profissional. — Vamos? Benício respirou fundo. — Vamos. Soltei a mão só quando precisei. A cama começou a sair do quarto. Fui acompanhando pelo corredor. Minha mãe atrás. Carolina alguns passos depois. Chegamos até uma porta onde eu não podia continuar. Luana virou. — Daqui pra frente ele segue com a equipe. Meu corpo inteiro recusou aquela frase. — Eu posso ir mais um pouco. — Não, senhor Vicente. Benício olhou pra mim. — Pai. Parei. — Tá tudo bem. Não estava. Mas eu entendi o que ele estava fazendo. Era ele, deitado numa cama, prestes a entrar numa cirurgia, tentando me acalmar. — Eu vou estar no 702 — falei. — Eu sei. As portas se abriram. A cama passou. Fecharam de novo. E eu fiquei do lado de fora. Sem contato. Sem ordem. Sem dinheiro capaz de me colocar ali dentro. Sem poder trocar de lugar com ele. Voltei para o quarto 702 com minha mãe e Carolina. A cama estava vazia. O lençol ainda amassado. A câmera de Benício sobre a mesa. Peguei o aparelho e fiquei olhando. Ele vivia dizendo que gostava de fotografar porque podia escolher o enquadramento. Naquele momento, eu teria dado qualquer coisa para fazer o mesmo. Cortar o medo. Apagar o câncer. Deixar fora da imagem tudo o que eu não queria ver. Mas a vida não funcionava como a câmera do meu filho. Sentei na poltrona ao lado da cama vazia. E, pela primeira vez desde que me chamaram de Nero, não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer além de esperar.
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