Meu pai entrou no quarto sem bater direito.
Duas pancadas rápidas na porta e, antes que eu respondesse, ele já estava lá.
Eu ainda estava com o celular no ouvido.
Igor falava alguma coisa sobre Nico ter levado uma bronca porque colou na prova de Química, mas parei de prestar atenção assim que olhei pra cara do meu pai.
— Depois eu te ligo — falei.
— Ih, deu r**m? — Igor perguntou.
— Depois.
Desliguei.
Vicente continuou parado perto da porta.
Não precisava conhecer ele tão bem quanto eu conhecia pra perceber quando alguma coisa estava errada.
Meu pai conseguia esconder raiva.
Conseguia esconder dor.
Às vezes até cansaço.
Medo, descobri naquela semana, ele escondia muito m*l.
— O que aconteceu?
Ele puxou a cadeira da minha escrivaninha e sentou de frente pra cama.
Aquilo piorou tudo.
Vicente não sentava pra dar notícia simples.
— O laboratório ligou.
Meu estômago apertou.
— Saiu?
— Não.
Respirei.
Não sabia se era alívio ou decepção.
Talvez os dois.
— Então?
Ele apoiou os braços nas pernas.
— Pediram mais análises no material da punção.
Fiquei olhando.
— Mais análise por quê?
— Disseram que precisam caracterizar melhor as células antes de fechar o laudo.
— Traduz.
— Foi exatamente o que falaram.
— E isso é r**m?
Meu pai demorou.
Pronto.
Ali estava a resposta que não era resposta.
— Eu não sei.
Desviei os olhos.
— Tá.
— Beni…
— Tá, pai.
— Eu prometi que não ia esconder nada.
— Eu sei.
Peguei o celular de novo, só pra ter alguma coisa na mão.
— Vai demorar mais?
— Pode demorar alguns dias.
Ri sem humor.
— Ótimo.
— Eu vou falar com a médica amanhã.
— Não precisa.
— Como não precisa?
— Porque ela vai falar a mesma coisa. Espera o resultado.
Ele ficou quieto.
Eu abri uma conversa qualquer sem ler.
— Tá bravo comigo?
Levantei os olhos.
— Por quê?
— Porque eu contei.
— Eu pedi pra você contar.
— Então?
Larguei o celular.
— Eu não tô bravo com você. Tô bravo com isso.
Apontei pro meu pescoço.
— Com esse negócio. Com laboratório. Com prazo. Com todo mundo falando “vamos investigar” como se eu não soubesse o que eles tão procurando.
Meu pai não respondeu.
— Eu sei o que pode ser — continuei. — Ninguém precisa ficar evitando a palavra.
Ele baixou os olhos.
— Câncer.
Dizer em voz alta foi pior do que ouvir.
A palavra parecia grande demais dentro do meu quarto.
Meu computador.
Minha câmera.
Tênis jogado no chão.
Uma mochila aberta.
E câncer.
Não combinava.
— Ainda não é — ele falou.
— Eu sei.
— Então não transforma possibilidade em diagnóstico.
Sorri de lado.
— A Carolina falou isso?
Ele quase sorriu.
— Talvez.
— Sabia.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Pai?
— Fala.
— Se der mesmo…
Minha garganta travou.
Pigarreei.
— Você vai contar pra minha mãe?
O rosto dele mudou.
Não muito.
Mas mudou.
Bianca era um assunto estranho na nossa casa.
Não proibido.
Pior.
Um assunto que não precisava ser proibido porque ninguém queria falar.
— Por que você tá perguntando isso agora?
— Não sei.
Era mentira.
Eu sabia.
Quando você começa a pensar que alguma coisa grave pode acontecer, sua cabeça abre umas gavetas que você passou anos mantendo fechadas.
Minha mãe era uma delas.
— Você quer que eu conte?
— Não falei isso.
— Então o que você quer?
Passei a mão no cabelo.
— Eu só pensei.
Ele assentiu.
Não insistiu.
Também estava aprendendo.
— Se chegar esse momento, a decisão é sua.
Olhei pra ele.
— Mesmo eu tendo dezesseis?
— Principalmente porque é você.
Aquilo me surpreendeu.
— Tá.
Ele se levantou.
— Quer alguma coisa?
— Que o laudo saia.
— Alguma coisa que eu consiga fazer.
— Então não.
Ele recebeu a resposta sem discutir.
Chegou até a porta.
— Pai.
Virou.
— Fica aí um pouco.
Ele não falou nada.
Só voltou.
Sentou na cadeira.
Pegou o próprio celular.
Eu coloquei o fone.
E ficamos assim.
Sem conversar.
Estranhamente, ajudou.
⸻
Mais tarde, quando ele foi tomar banho, fiz exatamente o que todo mundo tinha pedido pra eu não fazer.
Pesquisei.
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Abri um resultado.
Fechei.
Abri outro.
Termos que eu não entendia começaram a aparecer.
Citologia.
Marcadores.
Maligno.
Suspeito.
Indeterminado.
Carcinoma.
Meu coração acelerou.
Continuei mesmo assim.
Era como colocar a mão perto do fogo sabendo que ia queimar.
Até encontrar uma palavra que me fez parar.
medular.
Li uma linha.
Depois outra.
Tinha coisa sobre calcitonina.
Genética.
Linfonodos.
Cirurgia.
Fechei tudo.
Meu quarto pareceu pequeno.
Levantei.
Andei até o banheiro.
Olhei meu pescoço no espelho.
O curativo da punção ainda estava ali.
Tirei devagar.
Um pontinho.
Só isso.
Um pontinho minúsculo onde a agulha tinha entrado.
Era difícil aceitar que alguma coisa tão pequena pudesse estar ligada a uma palavra tão grande.
Meu celular tocou.
Clara.
Pensei em não atender.
Atendi.
— Oi.
— Você sumiu.
— Tava pesquisando.
Silêncio.
— Sobre o exame?
— É.
— E isso foi uma boa ideia?
— Não.
— Então por que fez?
— Porque esperar é pior.
Ela demorou um pouco.
— Achou alguma coisa que te assustou?
Encostei na pia.
— Tudo assusta quando você pesquisa câncer.
— Beni…
— Eu sei que eu não tenho diagnóstico.
— Eu não ia falar isso.
— Ia falar o quê?
— Que você não precisa me contar se não quiser.
Fechei os olhos.
— Pediram mais análise na punção.
Ela ficou quieta.
— Meu pai me contou agora.
— Isso significa alguma coisa?
— Ninguém sabe.
— Tá.
— Só isso?
— O que você quer que eu diga?
Dei um sorriso pequeno.
— Não sei.
— Então tá igual ao laboratório.
Ri.
Minha voz falhou.
Mas ri.
— i****a.
— Funcionou.
— Um pouco.
Voltei pro quarto.
— Clara?
— Oi.
— E se for mesmo?
Ela não perguntou “mesmo o quê”.
Sabia.
— Aí vai ser.
Fiquei quieto.
— Nossa, você é péssima nisso.
— Quer mentira?
— Não.
— Então. Se for, vocês vão descobrir o que tem que fazer depois. Se não for, você passou esses dias se enterrando vivo à toa.
— Fácil falar.
— Muito.
Sentei na cama.
— Tô com medo.
Foi a segunda vez que eu disse aquilo em voz alta.
Com meu pai tinha sido difícil.
Com ela também.
Mas depois que saiu, alguma coisa afrouxou dentro do peito.
— Eu sei — Clara respondeu.
Sem “vai ficar tudo bem”.
Sem “não pensa nisso”.
Só:
— Eu sei.
Ficamos conversando até Celina aparecer na porta e mandar eu dormir.
Quando desliguei, havia uma mensagem da Carolina.
Não pesquise laudo antes de ter laudo. A internet vai tentar diagnosticar você antes do médico.
Fiquei olhando pra tela.
Respondi:
meu pai contou que eu pesquisei?
Ela respondeu quase imediatamente:
Não. Eu tenho experiência com adolescente ansioso.
Digitei:
tenho 16, não 6
A resposta veio:
Exatamente. Por isso sabe pesquisar e ainda não sabe quando parar.
Revirei os olhos.
Mas não abri o navegador de novo.
Antes de dormir, coloquei o celular na cômoda.
O laboratório continuaria trabalhando mesmo sem eu vigiar.
As células continuariam sendo o que eram mesmo se eu passasse a madrugada tentando descobrir.
E, pela primeira vez, comecei a perceber que esperar também era uma coisa que se fazia.
Mesmo quando parecia que a gente não estava fazendo nada.