12. Vicente

1314 Words
Eu descobri que madrugada ficava mais longa quando a gente estava esperando um telefone tocar. Às duas e quarenta e três, eu ainda estava acordado. Às três e vinte, também. Quando deu quatro e dez, desisti de fingir que ia dormir. Levantei devagar pra não fazer barulho e fui até a cozinha. A casa estava escura. Minha mãe tinha deixado uma luz acesa sobre o fogão, como fazia desde que eu era moleque. Peguei água, sentei à mesa e coloquei o celular na minha frente. Nenhuma mensagem nova. Abri o e-mail. Nada. Entrei no portal do laboratório pela quinta vez. ANÁLISE EM ANDAMENTO. A mesma frase. Fechei. Abri de novo. Continuava igual. Ridículo. Eu sabia que continuaria. Mesmo assim, fiquei olhando. — Vai aparecer mais rápido se você atualizar cinquenta vezes? Levantei o rosto. Benício estava na porta da cozinha, cabelo bagunçado, camiseta larga, cara de sono. — O que você tá fazendo acordado? — Vim beber água. — Volta pra cama. Ele abriu a geladeira. — Você primeiro. — Eu não tô com sono. — Também não. Pegou a garrafa e sentou na minha frente. Ficamos em silêncio. — Você pesquisou? — perguntei. Ele me olhou. — A Carolina te contou? — Não. — Então como sabe? — Porque eu conheço você. Ele bebeu água. — Pesquisei. — E? — Péssima ideia. — Imaginei. Olhei pro celular outra vez. Benício acompanhou. — Você tá fazendo a mesma coisa. — Não tô pesquisando doença. — Tá pesquisando resultado que ainda não saiu. — Diferente. — Nem tanto. Eu ia discutir. Desisti. Ele estava ficando bom demais em me devolver as coisas. — Pai. — Fala. — O que acontece se der câncer? Minha mão parou sobre a mesa. — A gente trata. — Eu sei. Mas tipo… como? — A médica vai explicar. — Você não procurou? Era minha vez de ser pego. — Procurei médico. — Não foi o que perguntei. Suspirei. — Li algumas coisas. — E? — Parei. — Por quê? Olhei pra ele. — Porque percebi que tava tentando tratar uma doença que você ainda nem sabe se tem. Ele assentiu. — A Carolina falou isso também? — Todo mundo virou fã dela nessa casa? Benício riu baixo. — Você tá com implicância porque ela não tem medo de você. — Eu não quero que ninguém tenha medo de mim. Ele me olhou com uma cara que dizia claramente que eu estava mentindo. — Tá bom. — Benício. — Pai, até eu tenho um pouco. Aquilo não teve graça. — De mim? Ele mexeu os dedos na garrafa. — Às vezes. Encostei as costas na cadeira. — Por quê? — Porque quando você fica puto, ninguém sabe até onde você vai. Eu sabia que não estava falando de bater nele. Nunca tinha levantado a mão pro meu filho. Nem chegado perto. Era outra coisa. Meu jeito. Minha voz. O peso que meu nome carregava naquela comunidade. — Eu nunca faria nada com você. — Eu sei. — Então? — Não tô falando comigo. Entendi. O silêncio ficou diferente. Benício continuou: — Eu sei quem você é, pai. A frase me atingiu mais do que qualquer acusação. Porque eu sempre quis acreditar que ele conhecia só a parte que eu mostrava dentro de casa. Mas adolescente não é burro. Muito menos aquele. — E isso te incomoda? Ele demorou. — Às vezes. Eu poderia ter ficado irritado. Anos antes, talvez ficasse. Naquela madrugada, só senti cansaço. — Eu também. Ele levantou os olhos. — Sério? — Não espalha. Sorriu. — Tá. O celular vibrou. Meu coração disparou. Era MT. A mensagem dizia: “Kadu tá pressionando. Amanhã precisamos conversar.” Joguei o aparelho sobre a mesa. Benício percebeu. — Não era o laboratório. — Não. — Ficou decepcionado. — Fiquei. — Eu também. Nunca imaginei que um dia eu e meu filho ficaríamos frustrados porque ninguém estava nos ligando com um diagnóstico. ⸻ Depois que Benício voltou pro quarto, eu continuei sentado. Cinco da manhã. Cinco e meia. Às seis, minha mãe entrou na cozinha e não demonstrou surpresa quando me viu. Só colocou água pra ferver. — Dormiu? — Um pouco. — Mentiroso. — Todo mundo decidiu me chamar de mentiroso nessa casa? — Quando você mente m*l, facilita. Ela fez café. — O Beni acordou? — Veio aqui de madrugada. — Falou alguma coisa? Pensei antes de responder. — Falou. — Quer contar? — Não. Ela colocou a caneca na minha frente. — Então guarda direito. Peguei o café. — Mãe… — Hum? — Eu fui um pai r**m? Ela parou. Não era uma pergunta que eu costumava fazer. Talvez por isso demorasse tanto pra sair. Celina puxou a cadeira. — Você quer resposta de mãe ou resposta de mulher que criou seu filho junto com você? — A segunda. — Você ama o Benício. — Eu sei. — Mas amor não resolve tudo. Olhei pra caneca. — Trabalhou demais no que você chama de trabalho. Se meteu em coisa demais. Perdeu jantar. Reunião de escola. Médico. Apresentação. Eu fui porque alguém precisava ir. A mandíbula travou. — Eu dava tudo pra ele. — Deu. — Nunca faltou nada. — Faltou você algumas vezes. Aquilo doeu. — Tá. — Não tô te batendo, meu filho. — Parece. Ela tocou minha mão. — Tô te dizendo que ainda dá tempo. Olhei pra ela. — Tempo. A palavra tinha virado inimiga naquela semana. Minha mãe entendeu. — Não esse tipo de tempo. Ela respirou. — Tempo de ser pai de outro jeito. Antes que eu respondesse, o telefone tocou. Número do laboratório. Atendi tão rápido que quase derrubei o café. — Alô? — Senhor Vicente Azevedo? — Sim. — Aqui é do laboratório. Estou entrando em contato porque o patologista finalizou a avaliação inicial do material do Benício e recomendou correlação com exames complementares antes da conclusão diagnóstica. Minha garganta secou. — Isso significa que vocês acharam alguma coisa? — O laudo ainda não está fechado, senhor. — Mas acharam o quê? — Eu não tenho autorização para interpretação médica. Levantei. Minha mãe ficou de pé também. — Então me dá o patologista. — O senhor precisa falar com o médico assistente assim que o documento parcial estiver disponível. — Documento parcial? — Sim. Deve entrar no portal nas próximas horas. — E o definitivo? — Ainda depende dos complementares. Apertei o telefone. — Existe suspeita de câncer? Silêncio. Eu ouvi até o ruído da central do outro lado. — Senhor Vicente, eu realmente não posso responder isso. Fechei os olhos. Mais uma vez. Eu fazia a pergunta. A resposta existia em algum lugar. Mas não era minha ainda. — Tá. Desliguei. Minha mãe estava pálida. — O que falaram? — Nada definitivo. — Mas? — Vai sair um laudo parcial. — Parcial de quê? — Não sei. Ela levou a mão ao peito. — Vamos ligar pra médica. — Assim que sair. Subi. Parei diante da porta do quarto do Benício. Ele estava dormindo. Por alguns segundos, fiquei só olhando. Dezesseis anos. Cabelo espalhado no travesseiro. Uma perna fora da coberta. A câmera dele sobre a escrivaninha. A mochila da escola jogada num canto. Normal. Tudo parecia tão normal que eu tive vontade de acreditar que laboratório nenhum poderia mudar aquilo. Meu celular vibrou. Olhei. Notificação do portal. NOVO DOCUMENTO DISPONÍVEL. Meu coração disparou. Abri. Li a primeira linha. Depois a segunda. Na terceira, encontrei uma palavra que eu não precisava ser médico pra entender. Suspeito. Não dizia câncer confirmado. Não dizia carcinoma. Não dizia sentença nenhuma. Mas também não dizia que estava tudo bem. Sentei no corredor, encostado na parede. Pela primeira vez na minha vida, eu tinha um problema na mão, dinheiro no bolso, gente esperando minhas ordens e nenhuma ordem capaz de mudar uma única palavra daquele laudo. E Benício ainda dormia do outro lado da porta.
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