14. Benício

1208 Words
Eu voltei pra escola no dia seguinte com uma palavra nova ocupando espaço na minha cabeça. Maligno. Até então, câncer era uma possibilidade distante, uma palavra que todo mundo desviava quando chegava perto demais. Maligno era diferente. Tinha sido dito dentro do consultório. Na minha frente. Não como diagnóstico, mas como uma das coisas que os médicos estavam tentando descobrir. E bastou isso. — Você tá viajando — Igor falou. Pisquei. Ele estava com uma bolinha de papel na mão. — O quê? — Eu tô falando com você faz um tempão. — Mentira. — Uns quarenta segundos. — Então não é um tempão. Ele jogou a bolinha em mim. — Chato. Malu estava sentada do outro lado da mesa, terminando alguma coisa no caderno. — Deixa ele. — Eu tô deixando. — Você acabou de jogar papel nele. — Isso é amizade. Nico apontou pra minha garganta. — A voz tá melhor. — Tá. Estava mesmo. Ainda um pouco rouca, mas menos. O curativo da punção já tinha saído e, se eu usasse uma camisa com gola um pouco mais alta, ninguém percebia nada. Por fora, eu estava quase normal. Por dentro, parecia que alguém tinha aberto trinta abas na minha cabeça e nenhuma fechava. Meu celular vibrou. Olhei rápido demais. Clara percebeu. — Resultado? — Não. Era uma mensagem do meu pai. Fez o exame de sangue? Revirei os olhos. Respondi: sim Três segundos. Todos? sim pai Comeu depois? Respirei. não. estou vivendo só de oxigênio desde as 7h A resposta demorou. Benício. Sorri. Clara tentou ler. Virei o celular. — Privacidade. — Seu pai? — Infelizmente. — Ele tá preocupado. — Todo mundo ama explicar meu pai pra mim. Ela riu. — Então não explico. Fiquei olhando pra conversa. Talvez eu reclamasse demais. Vicente estava tentando. Do jeito torto dele. Mas estava. ⸻ Os exames foram liberados no meio da aula de Português. Descobri porque meu celular vibrou três vezes seguidas dentro da mochila. Não devia ter pegado. Peguei. Notificação do laboratório. Resultados disponíveis. Meu coração acelerou imediatamente. Abri. Tinha um monte de número. TSH. T4. Coisas que eu não entendia. Rolei. Até encontrar: Calcitonina. O valor estava marcado. Fora da referência. Muito fora. Meu peito apertou. Logo abaixo, CEA também vinha alterado. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava. Mas sabia o suficiente pra entender que não parecia bom. Fechei a tela. Abri de novo. Como se os números pudessem mudar. — Benício? Levantei a cabeça. A professora estava olhando pra mim. — O celular. — Foi m*l. Guardei. Minhas mãos estavam frias. Clara sentava duas fileiras à frente. Ela virou um pouco o rosto. Percebeu. Eu balancei a cabeça. Depois. Não conseguiria falar ali. Os vinte minutos seguintes demoraram umas três horas. Quando o sinal tocou, eu saí antes de todo mundo. Clara veio atrás. — Beni. Continuei andando até o corredor ficar mais vazio. — Saiu. Ela parou. — O resultado? Mostrei a tela. — Esses dois estão alterados. — Você sabe o que significa? — Não. — Então não pesquisa. Olhei pra ela. — Você virou a Carolina agora? — Alguém precisa. Meu celular começou a tocar. Pai. Fechei os olhos. — Ele já viu. Atendi. — Oi. — Onde você tá? A voz dele não tinha nem bom-dia, nem oi, nem nada. — Escola. — Você viu os exames? — Vi. Silêncio. — Pai. — Tô aqui. — Isso é r**m? Ele demorou. — Eu mandei pra Helena. — E? — Ela quer ver você hoje. Meu estômago afundou. — Por quê? — Pra conversar. — Conversar sobre o quê? — Beni… — Não faz isso. Clara ficou parada na minha frente. — Fazer o quê? — Essa voz. — Que voz? — A voz de quem sabe alguma coisa e tá tentando escolher como falar. Silêncio. — Eu não sei mais que você. — Mas leu? — Li. — Pesquisou? Outro silêncio. — Pai! — Eu procurei o que era calcitonina. Passei a mão pelo cabelo. — E? — Eu prefiro que a médica explique. — Ah, então é r**m. — Eu não falei isso. — Não precisava. Desliguei. Na hora me arrependi. Mas não liguei de volta. Clara pegou meu braço. — Ei. — Não. — Beni… — Eu não quero que ninguém fale “calma”. — Eu não ia falar. — Nem “pode não ser nada”. — Também não. Respirei. — Então fala alguma coisa. Ela pensou. — Quer ir embora daqui? Olhei em volta. Gente passando. Mochila. Barulho. Alguém reclamando de prova. Outro discutindo sobre futebol. Vida normal. — Quero. ⸻ Meu pai chegou em menos de quinze minutos. Não perguntei como. Também não queria saber. Entrei no carro. Ele olhou pra Clara. — Ela vem? — Não. Clara se aproximou da janela. — Me avisa. Assenti. Vicente esperou ela se afastar. — Você desligou na minha cara. — Eu sei. — Não faz isso. — Você também não fica me escondendo coisa. — Eu não tô escondendo. — Então fala o que você leu. Ele segurou o volante. — Calcitonina pode estar aumentada em algumas situações. Uma delas é carcinoma medular da tireoide. A palavra veio inteira. Sem desvio. Sem maquiagem. Carcinoma. Eu fiquei olhando pra frente. — Isso é câncer? — É um tipo de câncer da tireoide. Minha garganta fechou. — Então eu tenho câncer. — Não. Virei pra ele. — Você acabou de falar… — Eu falei que é uma possibilidade relacionada ao exame. Não que é seu diagnóstico. — Mas a médica chamou a gente hoje. — Porque ela precisa juntar tudo. — Pai. — O quê? — Para de tentar deixar menos pior. Ele ficou quieto. — Eu não consigo — falei. Minha voz falhou. — Não consigo ficar ouvindo “possibilidade”, “suspeita”, “precisa investigar”. Toda vez aparece uma coisa pior. Vicente desligou o carro. Só então percebi que ele ainda nem tinha saído da frente da escola. — Olha pra mim. Não olhei. — Benício. Virei. Meu pai estava assustado. Muito. E, pela primeira vez, não tentou esconder. — Eu também queria uma resposta agora. Meu olho ardeu. — E se for? Ele engoliu seco. — A gente vai descobrir o que faz. — Não foi o que eu perguntei. — Eu sei. — E se for câncer? A palavra saiu quebrada. Ele estendeu a mão. Dessa vez eu deixei. — Então eu vou estar com você quando a médica falar. Quando fizer exame. Se tiver cirurgia. Tratamento. O que for. — Isso não responde se eu vou ficar bem. — Porque eu não sei. A honestidade dele doeu. Mas mentira teria doído mais. Olhei pela janela. — Eu tô com medo. — Eu também. Ficamos alguns segundos assim. Depois ele ligou o carro. — A consulta é daqui a uma hora. Assenti. No caminho, meu celular recebeu outra notificação. Uma mensagem de Carolina. Não tente interpretar os números sozinho. A Helena vai juntar exame, punção e quadro clínico. Estou aqui se precisar. Li duas vezes. Não respondi. Guardei o telefone. A essa altura, eu já não estava tentando descobrir se alguma coisa podia estar errada. Eu só queria saber qual nome dariam a ela.
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