Voltar pra escola no dia seguinte foi ideia minha.
Meu pai achou r**m.
Minha avó achou cedo.
Eu achei necessário.
Se eu ficasse em casa esperando um resultado que ainda levaria dias, ia acabar olhando pro celular até ele pegar fogo.
— Você acabou de fazer uma punção — meu pai reclamou pela terceira vez.
— Não amputaram minha cabeça.
— Benício.
— Tô falando sério. A médica disse que eu podia fazer atividade normal.
— Atividade normal não inclui ficar correndo pela escola.
— Eu nunca corro pela escola.
— Educação Física.
— Eu também nunca corro na Educação Física.
Celina colocou uma xícara de café na frente dele.
— Nisso ele tá falando a verdade.
— Obrigado, vó.
— Não foi elogio.
Meu pai olhou de mim pra ela como se estivesse cercado de inimigos.
O curativo pequeno no meu pescoço parecia muito maior quando Vicente olhava.
Era impressionante.
Eu conseguia esquecer que ele estava ali por uns dez minutos.
Meu pai precisava olhar uma vez e pronto.
Eu sentia de novo.
— Se doer, você me liga.
— Tá.
— Se sangrar…
— Pai, não vai sangrar.
— Se sangrar.
— Eu ligo.
— Se ficar tonto…
— Eu ligo.
— Se…
— Vicente — minha avó interrompeu. — Deixa o menino respirar.
Ele pegou a chave do carro.
— Eu levo.
— Eu vou andando.
— Eu levo.
— Pai.
— Benício.
Olhei pra minha avó.
— Ele tá piorando.
— Vai com seu pai.
— Traição.
Ela beijou minha testa.
— Vai logo.
⸻
Faltando duas ruas pra escola, meu pai diminuiu a velocidade.
— Quer que eu pare aqui?
Olhei pra ele.
— Por quê?
— Sei lá. Achei que talvez você não quisesse chegar comigo.
Demorei um segundo pra entender.
Era raro Vicente perceber certas coisas antes de eu precisar explicar.
No morro, entrar no carro dele dizia mais sobre mim do que eu gostaria.
Na escola, eu fazia questão de ser só eu.
— Aqui tá bom.
Ele parou.
Tirei o cinto.
— Beni.
— Hum?
— Sobre o resultado…
Minha mão ficou na maçaneta.
— O quê?
— Quando sair, eu quero que você saiba primeiro. Não vou esconder nada.
Lembrei da promessa dele.
Assenti.
— Tá.
— Mesmo se…
Ele parou.
— Mesmo se for r**m — completei.
Meu pai apertou o volante.
— Mesmo se for r**m.
Abri a porta.
— Valeu.
— Pelo quê?
— Por perguntar onde eu queria descer.
Ele fez uma cara estranha, como se eu tivesse agradecido por alguma coisa ridícula.
Talvez fosse.
Pra mim não era.
⸻
Igor viu o curativo antes de qualquer outra pessoa.
Claro.
— c*****o, te furaram mesmo.
— Fala baixo, animal.
— Dói?
— Só quando alguém pergunta.
Ele tocou o próprio pescoço.
— Eu não deixava.
— Ah, claro. Você ia peitar a agulha.
— Com certeza.
Malu chegou atrás dele.
— Ele chora pra tirar sangue.
— Calúnia.
— Você pediu pra enfermeira usar agulha infantil.
Nico começou a rir.
— Infantil?
— Era menor!
— Era rosa — Malu completou.
— Cor não define tamanho.
Eu ri.
Foi bom.
Muito bom.
Por alguns minutos, ninguém falou câncer.
Ninguém falou tireoide.
Ninguém falou resultado.
Só zoaram Igor.
Aquilo parecia uma espécie de descanso.
Até Clara chegar.
Ela olhou primeiro pro meu rosto.
Depois pro curativo.
Não perguntou nada.
— Oi.
— Oi.
— Como você tá?
A pergunta era igual à de todo mundo.
O jeito não.
— Meio dolorido.
— Quer que eu pare de perguntar?
Olhei pra ela.
— Talvez.
— Beleza.
Simples.
Ela sentou ao meu lado.
— Trouxe o trabalho de História.
— Eu não fiz.
— Eu sei.
— Como?
— Porque você é você.
Empurrou umas folhas na minha direção.
— Não vou te dar pronto. Mas fiz a pesquisa.
— Eu tô doente e você não vai me dar o trabalho?
Ela estreitou os olhos.
— Não usa essa carta comigo.
— Qual?
— A carta do “pobre Benício”.
Fiquei olhando pra ela.
Depois sorri.
— Você é meio insensível.
— Você gostou.
— Gostei.
Ela sabia.
Era exatamente o que eu precisava.
⸻
No intervalo, a coisa ficou menos simples.
Um garoto do segundo ano passou por mim, olhou pro curativo e perguntou:
— Fez cirurgia?
— Não.
— Então foi o quê?
— Nada.
— Parece que…
— Eu falei que não foi nada.
Minha resposta saiu mais agressiva do que precisava.
Ele levantou as mãos.
— Tá bom.
Foi embora.
Malu me encarou.
— Ele só perguntou.
— Eu sei.
— Então por que você respondeu assim?
— Porque eu não quero conversar sobre isso com todo mundo.
Ela assentiu.
— Então não conversa.
— Parece fácil.
— Não é. Mas você não precisa explicar sua vida porque alguém olhou pro seu pescoço.
Fiquei quieto.
Igor sentou do meu outro lado.
— Se alguém encher o saco, eu bato.
Malu virou pra ele.
— E você cala a boca.
— Eu tava sendo solidário.
— Do seu jeito, que é péssimo.
Nico apontou pra mim.
— Posso perguntar uma coisa sem levar patada?
— Depende.
— Você sabe quando sai o resultado?
Meu estômago apertou.
— Uns cinco dias. Talvez sete.
Igor parou de mastigar.
Clara estava do outro lado da mesa.
Ninguém fez cara de pena.
Agradeci mentalmente.
— E o que eles tão procurando? — Nico perguntou.
Puxei o ar.
— Se o nódulo é… sei lá. O que é.
— Tipo câncer? — Igor falou.
Malu chutou a canela dele embaixo da mesa.
— Ai!
— Que sensibilidade.
Eu olhei pra minha bandeja.
— É.
O silêncio veio.
A palavra tinha um efeito absurdo.
Nem precisava ser diagnóstico.
Bastava existir.
— Mas ainda não é — Clara disse.
Levantei os olhos.
— Não.
— Então até alguém dizer que é, não é.
— Minha médica falou mais ou menos isso.
Igor apontou pra ela.
— Clara médica.
— Cala a boca.
O assunto mudou.
Futebol.
Prova.
Uma professora que implicava com todo mundo.
Eu participei.
Mas alguma parte de mim ficou presa naquela palavra.
⸻
Na saída, Clara caminhou comigo.
— Seu pai vem te buscar?
— Espero que não.
— Por quê?
— Ele tá me tratando como se eu pudesse desmontar.
Ela sorriu.
— Ele tá com medo.
— Todo mundo fala isso.
— Porque tá óbvio.
— E eu?
Ela me olhou.
— Você também.
Parei de andar.
— Eu não tô…
Ela levantou uma sobrancelha.
— Tá.
— Legal. Agora você virou psicóloga.
— Não precisa ser psicóloga pra perceber que você faz piada toda vez que fica nervoso.
Aquilo me incomodou.
Principalmente porque era verdade.
— E o que você quer que eu faça? Fique chorando?
— Não.
Ela parou na minha frente.
— Eu só quero que você não ache que precisa ficar fazendo graça comigo.
Minha garganta apertou de um jeito que não tinha nada a ver com o nódulo.
Olhei pro chão.
— Eu tenho medo de abrir o resultado e estar escrito alguma coisa que muda tudo.
Ela não disse que não ia acontecer.
Não falou “vai dar tudo certo”.
Só encostou o braço no meu.
— Quando sair, você não vai abrir sozinho.
Levantei o rosto.
— E se eu quiser?
— Aí você abre sozinho.
— Péssimo apoio.
— Respeito à autonomia.
Ri.
— A Carolina falaria isso.
— Então ela parece inteligente.
Meu celular vibrou.
Meu pai.
Atendi.
— Oi.
A voz dele veio rápida.
— Onde você tá?
— Saindo da escola.
— Tô a duas ruas.
Fechei os olhos.
Clara ouviu.
— Deixa eu adivinhar — ela falou baixo. — Seu motorista particular.
— Meu carcereiro.
— Eu ouvi isso — meu pai disse no telefone.
— Era pra ouvir.
Desliguei.
Clara sorriu.
— Amanhã?
— Amanhã.
Ela foi embora.
Fiquei esperando meu pai.
Quando o carro apareceu na esquina, percebi que meu dia tinha sido quase normal.
Quase.
E talvez fosse isso que mais me assustasse.
Porque eu estava começando a entender que a vida não parava enquanto a gente esperava uma notícia capaz de mudá-la.